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Projeto 'Tocando em Frente' ajuda jovens a saírem do crime

Na última reportagem desta série, A CRÍTICA mostra que projetos alternativos e os mantidos pelo poder público conseguem resgatar vidas de adolescentes marginalizados, utilizando um método antigo: carinho e atenção 14/08/2012 às 08:23
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Adolescentes que cumprem medida socioeducativa em regime de semiliberdade em programa do Governo; atualmente existem 193 em tratamento em Manaus, entre liberdade provisória e internação, segundo a Secretaria de Assistência Social
Joana Queiroz e Ana Celia Ossame Manaus

Na cidade onde, segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-AM), uma média de 30 jovens e adolescentes é assassinada por mês e parte da sociedade defende esse método para combater ao crime por acreditar que não há outro jeito, há quem acredite que recuperar é possível, desde que haja uma boa dose de dedicação e amor ao próximo. O projeto “Tocando em Frente” é exemplo disso. Criado em 2003, inicialmente para evitar as mortes que aconteciam nos confrontos de galeras, no bairro do Coroado, Zona Leste, o projeto já conseguiu atrair mais de mil adolescentes que deixaram o crime para voltar a estudar.

Messias Corrêa Oliveira, 19, é um deles. Ele conta que entrou para o mundo do crime aos 14 anos, quando fez o primeiro assalto. Morador de um dos bairros da Zona Leste, em uma área considerada “vermelha”, ele não se entendia com o pai e acabou sendo recrutado por dois adultos que o chamaram para fazer um “arrastão”, atacando locais como lan house, escolas e pontos de ônibus.

Segundo ele, a adrenalina e o o dinheiro fácil levaram-no a não parar mais. Messias, que também era usuário de drogas, não lembra quantos assaltos fez. Chegou a ser preso e escapou de ser morto pelo menos cinco vezes. “Vi a morte de perto. As pessoas atiravam contra mim, mas nunca me acertaram”, conta.

Aos 17 anos conheceu o projeto Tocando em Frente e foi quando sua vida começou a mudar. Ao chegar no local, logo lhe disseram que o passado não interessava. Naquele instante, ele disse que enxergou que poderia ter um futuro promissor, o que elevou sua autoestima. “Ali me mostraram que eu posso mudar, bastava querer”, disse. Ele passou a frequentar as reuniões, cumprir tarefas e se ajustou com a família.

Messias abandonou as drogas e está frequentando uma igreja evangélica. Voltou a estudar, está trabalhando e já ajuda outros que estão passando pela mesma situação que ele enfrentou. A luta agora é para realizar seu sonho de ser missionário. Para uma das idealizadoras do programa, a pedagoga Janete Canto, o mais importante foi ter conseguido modificar a vida de Messias. E não só a dele, mas de centenas de jovens que em situação de vulnerabilidade social. Para isso, segundo ela, é necessário acreditar e investir no potencial de cada um.

‘Eles comprovam existência da lei’
Ao completar 18 anos no regime de semiliberdade do Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa, onde cumpre medida socioeducativa por tráfico de drogas e roubo, Francisco* decidiu mudar de vida. Usuário de drogas desde os nove anos, ele praticou assaltos e furtos até chegar à internação, onde está há seis meses. Isso foi o  suficiente para acordá-lo para a vida. “Não quero morrer como muitos colegas, por isso, vou deixar essa vida”, afirmou ele, que voltou a estudar e faz curso de Informática.

Francisco representa a maioria dos internos do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator, da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), onde são executadas as medidas de semiliberdade. Atualmente, segundo a gerente de Medidas Socioeducativas do Estado, Mathilde Ezaguy, 193 adolescentes cumprem essa medida. Mesmo sem ter números sobre o porcentual que volta a se envolver com o crime após  ganhar liberdade, ela garante que a maioria consegue escapar da teia preparada pelos chefes do tráfico, que gosta de usar adolescentes sob a justificativa de que para eles não haverá pena. “Quando ficam internos, eles comprovam a existência da lei”, disse a assistente social Elcilane dos Santos, 37, administradora da unidade de semiliberdade.

*nome fictício em atendimento à lei 8.069/90, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Maioria dos adolescentes foi resgatada
Para uma das idealizadoras do projeto “Tocando em Frente”, a pedagoga Janete Canto, o mais importante desse trabalho foi conseguir modificar a vida de jovens como Messias. Não só dele, mas de  centenas de outros que foram encontrados marginalizados e que hoje estão trabalhando ou cursando faculdade. Para isso, é necessário tanto a sociedade, quanto a família, acreditar e investir neles.

Ela acredita que a delinquência juvenil tem solução na medida em que é possível dar aos adolescentes um atendimento qualificado, permitindo o seu retorno à sociedade. O projeto, administrado por ela e pelo delegado de Polícia Civil, Clóvis Leite, conta com uma equipe multidisciplinar desenvolvendo um trabalho preventivo ao uso de drogas.

Os resultados foram tão positivos que, em julho de 2004, passou a funcionar como polo descentralizado de liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade. Nas contas dela, 882 jovens passaram pelo projeto desde de 2004. Destes, 23 foram assassinados, oito estão na penitenciária, mas a maioria foi resgatada.

Famílias
A pedagoga Jante Canto destaca que, para ajudar a juventude sair do crime não é preciso grandes investimentos. Basta querer, sem esquecer que para o resultado ser positivo, é indispensável a participação da família. Além de trabalhar com os jovens, o projeto trabalha também com as famílias.