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Manaus
menos ácido, mais riscos

Poluição dos igarapés de Manaus está diminuindo a acidez do rio Negro

Uma das consequências é que as praias da Ponta Negra e da Lua ficarão impróprias para o banho. Há também o risco de aumento de bactérias patogênicas nas águas - que causam doenças, como a tuberculose e a lepra. No entanto, o cenário ainda pode ser revertido, tratando dos esgotos 20/07/2016 às 22:43 - Atualizado em 21/07/2016 às 09:01
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Águas do rio Negro, na praia da Ponta Negra, têm IQA de 80 a 90, de um total de 100 (Bruno Kelly/Arquivo AC)
Silane Souza Manaus (AM)

Nos últimos 16 anos, o potencial de Hidrogênio (pH) no rio Negro passou de 4,5 para 6,6. Isso significa que o rio vem perdendo sua acidez natural e as bacias hidrográficas de São Raimundo, Educandos e Tarumã estão contribuindo com esta pressão e mudando o nível da qualidade das águas deixando-as cada vez mais suscetíveis a poluição. O quadro é preocupante, conforme informou a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Maria do Socorro Rocha da Silva.

“Quando vamos parar de tratar os nossos recursos como se eles não fossem importantes?”, questionou ontem a pesquisadora, no terceiro dia de apresentação do V Congresso de Iniciação Científica (Conic) do Inpa. Conforme ela, as consequências disso são enormes. Para o sistema aquático, afeta o conjunto de todos os seres vivos da região. “Existem comunidades de peixes que vivem com estas características de rio. A mudança de oxigênio dificulta a vida deles que tendem a desaparecer e no lugar surgem organismos até nocivo a saúde”, explicou.

Para a população, impacta a balneabilidade, deixando as praias da Ponta Negra e da Lua impróprias para o banho. Além disso, também tem o perigo pelo aumento de bactérias patogênicas (que causam doenças, como a tuberculose e a lepra, entre outras). Mas este cenário, ainda pode ser revertido. “Tratando os esgotos, cuidando do lixo e preservando a vegetação das margens dos rios e igarapés. Isto é cuidar da água, nosso potencial hídrico fabuloso”, apontou a pesquisadora do Inpa. 

Maria destacou que existe uma preocupação em termo de Brasil e mundial também com a qualidade de água enquanto “nós estamos degradando nossos igarapés”. “Nossas pesquisas chamam a atenção porque temos grande quantidade de água, mas não temos qualidade. Esses trabalhos são para acordar a sociedade: olha o que está acontecendo com nossas águas. A bacia do São Raimundo está 80% degradada, a do Tarumã quase 40% está comprometida, a Educandos está totalmente poluída e a do Puraquequara está começando o processo de contaminação”, ressaltou. 

A pesquisadora frisou que na suma, todas as poluições nas bacias de igarapés de Manaus vão parar no rio Negro, que é o cartão portal da cidade. “Quando você não trata seu sanitário, joga muitas bactérias no meio ambiente e o rio Negro recebe tudo isso. Quando alguém for dar um passeio pelo rio pode contrair uma ameba ou uma giárdia (protozoário que causa diarréia e dor abdominal). Não pode beber aquela água que parece tão limpa porque tem entrada de esgoto. Hoje, nós quase não temos estação de tratamento de esgoto”.

Congresso

O V Congresso de Iniciação Científica começou na última segunda e segue até esta sexta-feira com palestras, mesas-redondas e exposições dos trabalhos desenvolvidos por bolsistas e orientadores das diversas áreas de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Ao todo, 196 estudos serão apresentados nesse período. O evento acontece na sede do Inpa, avenida André Araújo, bairro Petrópolis, Zona Sul.

Índice de Qualidade das Águas

Numa escala de 0 a 100, que classifica o Índice de Qualidade das Águas (IQA) em péssimo, ruim, razoável, boa e ótima, o Tarumã, praia da Lua e Ponta Negra tem IQA em torno de 80 a 90.  No São Raimundo, Educandos e Porto do Ceasa, o IQA é de 52 a 80. Os dados fazem parte da pesquisa “Índice de qualidade das águas na orla do rio Negro, em Manaus”, realizada pelo bolsista de iniciação científica do Instituto Nacional de Pesquisa na Amazônia (Inpa), Alexandre Souza Bastos, 24.

Conforme o estudante, por conta do grande volume do rio e de sua acidez o processo de diluição de poluentes é rápido. “Por essa característica natural do Negro ser um dos maiores rios do mundo, tem grande volume e elevada acidez é que os nossos índices ainda não indicam uma péssima qualidade. Porém, tem meses que a qualidade fica péssima e ruim por causa do período de seca”, afirmou. 

Os resultados da pesquisa de Bastos podem ser utilizados tanto para informação pública quanto como instrumento para gestão de recursos hídricos e assim garantir a preservação e proteção das nossas águas. “Podemos vê que a água desses pontos analisados ao longo do tempo está perdendo sua qualidade”, frisou.

Contaminação na área urbana

“Nós vamos perdendo nossos recursos hídricos à medida que a cidade vai se expandindo”, afirma o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Sávio José Filgueiras Ferreira.  Conforme ele, estudos feitos em bacias hidrográficas de igarapés ao redor da Reserva Florestal Adolpho Ducke, na Zona Leste, mostram que, depois que a água sai da área protegida e chega nesses igarapés, fica contaminada. 

Para o pesquisador, a Reserva Adolpho Ducke deveria ser referência para recursos hídricos, tendo em vista que tem uma “fantástica produção de água”. “Em alguns países, especialmente os que precisam de água, procuram manter intactas as reservas. Na Austrália tem uma reserva que não se meche porque toda aquela água vai para o abastecimento da população. Mas aqui, depois que a água sai da reserva não pode ser utilizada nem para balneabilidade”. 

Ferreira ressalta que esses igarapés em questão: Bolívia (totalmente poluído), Acará (poluído) e Barro Branco (ainda preservado), fazem parte da bacia do Tarumã-Açu, que deságua no rio Negro. “E temos logo ali a o cartão postal da cidade: a Ponta Negra. Então, nós precisamos da água para vários usos, inclusive para lazer. Mas a medida que se vai retirando a vegetação e construindo moradia não há uma preocupação para manter a qualidade da água”, salientou.