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Revitalização da av. Eduardo Ribeiro expõe rede de esgoto e de água da década de 1940

Além das manilhas de cerâmica, foram encontrados parafusos, porcas e ruelas que faziam parte da estrutura dos trilhos do antigo sistema de bonde do século 19 19/01/2016 às 10:23
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O sistema de água e esgoto, com tubulações que estão em funcionamento desde meados de 1940, surpreendeu os operários
Silane Souza Manaus (AM)

Um sistema de água e esgoto feito com manilhas e tubos de cerâmica histórica, com mais ou menos um metro de tamanho, utilizado desde meados da década de 1940 foi encontrado na avenida Eduardo Ribeiro, Centro, durante as obras de revitalização da via. Algumas peças que estavam desativadas e corriam risco de serem danificadas foram coletadas pela equipe de arqueologia da Prefeitura de Manaus.

A arqueóloga e historiadora Vanessa Benedito revela que a avenida inteira tem uma ligação feita com essas manilhas ainda funcionando. “Nós achamos que tudo é tão moderno, mas não é. Tem ligações que cruzam a Eduardo Ribeiro e tem outras que vêm desde a rua 24 de Maio até aqui em cima (próximo ao Teatro Amazonas) com todos os tubos de cerâmica conectados e em pleno funcionamento”, revela.

Ela conta que as manilhas ficam bem abaixo da superfície e foram localizadas durante a obra de drenagem, quando fizeram um corte no solo paralelo à Eduardo Ribeiro, com aproximadamente um metro e meio de profundidade. Já os tubos que foram coletados não estavam mais funcionando e foram encontrados entre 30 e 40 centímetro de profundidade.

Vanessa revela que o material será encaminhado ao laboratório para uma análise técnica tipológica, que deve apontar as técnicas que foram utilizadas para a sua produção, o período e o lugar onde foram produzidas. Ao que parece, não foi no Amazonas. “Uma pesquisa prévia que fizemos de uma das marcas encontrada nas manilhas mostrou que elas não são daqui. Provavelmente eram do interior de São Paulo, lugar onde estavam as maiores olarias da época”.

Resquícios do bonde

Além das manilhas de cerâmica, foram encontrados, ainda, na avenida Eduardo Ribeiro, parafusos, porcas e ruelas que faziam parte da estrutura dos trilhos do antigo sistema de bonde - meio de transporte utilizado em Manaus, no século 19. De acordo com Vanessa, as peças estavam no trecho entre as ruas 10 de Julho e 24 de Maio.

O mais “famoso” achado arqueológico daquela região foram os paralelepípedos que, inclusive, após um processo de higienização, voltaram a compor o cenário da avenida. Foram localizados, ainda, na parte da via cortada pela rua 10 de Julho, blocos maciços feitos de um material asfáltico. A arqueóloga conta que a equipe não tinha conhecimento desse tipo de material. “É diferente do que já tínhamos encontrado. Estamos fazendo um levantamento bibliográfico para entender o período que foi produzido e por que temos essa descontinuidade na utilização, pois tem uma linha muito bem definida de onde terminam os paralelepípedos e começam esses blocos maciços”.

‘Achados’ podem virar exposição

Após todo tratamento de limpeza, curadoria e análise técnica tipológica, os materiais encontrados na avenida Eduardo Ribeiro irão para a reserva técnica do laboratório de arqueologia Alfredo Mendonça, no Palacete Provincial, praça Heliodoro Balbi, Centro. O local é administrado pela Secretaria de Estado de Cultura (SEC).

De acordo com a arqueóloga e historiadora Vanessa Benedito, todo o achado pode vir a compor uma exposição. “Às vezes o material vai para o museu e lá pode ser exposto, mas nem todo material arqueológico que vai para o museu vira exposição”, esclarece.

Quanto à previsão de os achados arqueológicos serem entregues à SEC, Vanessa revelou que não há prazo certo, pois o término das obras deve se alongar com a descoberta dos trilhos do antigo bonde. “Os trilhos vão passar por um tratamento diferenciado, o que demandará mais tempo, e isso fará com que esse prazo seja um pouco mais alongado, mas a instituição de guarda recebe o material ao final de tudo”, frisa.

‘Bloco testemunho’ para conservar trilhos do bonde

“Nesse trecho em especial - cruzamento da avenida Eduardo Ribeiro com a rua 10 de Julho –, como já havíamos previsto, haveria a evidenciação dos trilhos do antigo bonde, usado como transporte no século 19, a nossa surpresa é que os trilhos estão extremamente conservados”, destaca a arqueóloga e historiadora Margaret Cerqueira.

Agora, conforme Margaret, o objetivo é recuperar toda a área e mantê-la como “bloco testemunho”, que consiste em preservar na íntegra o que foi evidenciado. Para ela, o bom estado de conservação dos trilhos se deu ao fato de as obras de recapeamento realizadas na avenida não terem implicado em intervenções de maior impacto. “Nós não sabemos, não temos bibliografia disponível para saber se houve tratamento para além da colocação do asfalto. Mas o fato de ter sido coberto e protegido das ações tempestuosas já facilitou para mantê-lo preservado”, disse.

Sobre a evidenciação dos trilhos, a arqueóloga afirma que está muito contente e impressionada com a beleza dos achados. “Ficamos extremamente felizes porque não tínhamos a certeza se eles estariam em conservação. Achávamos que eles teriam sido recortados por algum infortúnio do passado, mas felizmente não. Essa forma de ter sido conformado e mantido vai avançar sobremaneira na arqueologia histórica, que é muito pouca estudada no Amazonas”, aponta.

Antigo bonde

Até agora foram coletados na Eduardo Ribeiro pelo menos 200 peças entre parafusos, porcas e ruela da estrutura dos trilhos do antigo Bonde, e de cinco a seis manilhas com grau de integridade bem elevado.

Cerâmicas e vidros

Na Praça da Matriz foram achados alguns pedaços de cerâmica histórica e frascos de vidro, que precisam ser avaliados para saber se realmente são materiais arqueológicos.