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Rotatividade de trabalhadores em Manaus é alta

Especialistas acham que empregadores podem estar se valendo disso para economizar nos custos 05/05/2012 às 09:23
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Alessandra Cadamuro (com microfone), quando apresentava os dados do estudo sobre rotatividade no trabalho
CIMONE BARROS Manaus

Quem não trabalha no serviço público está “rodando” demais em Manaus”. Esse é o cenário da rotatividade no mercado de trabalho formal na capital amazonense, que apresenta altas taxas, mas equivalentes à brasileira, de acordo com estudo apresentado ontem pelo Observatório do Trabalho de Manaus. As três ocupações mais afetadas pela rotatividade (substituição de um trabalhador por outro trabalhador) são ajudantes de obras civis (construção civil), que, a cada cem contratos de trabalho, 119 são desligados; montadores de equipamentos eletrônicos (91) e alimentadores de linha de produção (75), ambas da indústria.

Em 2010, enquanto a administração pública, que tem 26% dos trabalhadores formais, teve uma taxa de rotatividade de 1,8%, a da construção civil foi de 120,1% – para cada cem contratos, 120 foram desligados. Isso quer dizer que tem mais gente “rodando” que no estoque de trabalhadores. A própria característica do setor de trabalhar por empreitada, com prazo para terminar, estimula a rotatividade, segundo a supervisora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-AM), Alessandra Cadamuro.

“A construção civil é um dos setores que mais reclama da falta de qualificação. Mas como qualificar mão de obra numa situação dessa, já que boa parte dessa qualificação acontece no mercado de trabalho?”, questionou Cadamuro.

No comércio, a rotatividade é de 75,2%, seguido dos serviços (71%) e da indústria de transformação (46,5%). A média global de rotatividade de Manaus foi de 50,7% e a brasileira de 53,4%. “A situação no comércio é preocupante, porque tem salário bem baixos no Brasil, jornadas extensas, relações de trabalho precárias e trabalhador que roda demais”, comentou a técnica do Observatório do Trabalho de Curitiba, Lenina Formaggi. Ela atuou no estudo. “Com bases nesses dados, podemos criar políticas públicas de qualificação para o trabalhador, não só para os demitidos, mas, em articulação com os empresários, para os que já estão no mercado”, disse a secretária da Setrab, Francinete Lima.

Em relação à taxa de rotatividade imotivada - exclui os desligamentos a pedido, mortes, aposentadorias e transferências – a construção civil continua liderando. De cada cem contratos de trabalho, 97 foram desligados. Na sequência vêm os serviços (53,7%), comércio (48,2%), indústria (36,4%) e administração pública (1,1%).

A rotatividade decorre de vários fatores, como os econômicos (sazonalidade), reguladores de mercado e os de natureza tecnológica. No Brasil, contudo, a ausência de uma mecanismo que iniba a demissão sem causa ajuda também. O País não adota, por exemplo, a resolução nº 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que coíbe a demissão imotivada.

Salário ficou constante em dez anos

A pesquisa apontou ainda que sete em cada dez trabalhadores não chegam a completar um ano no mesmo vínculo, ou seja, a diferença de salário entre os admitidos e desligados permanece ao longo da década. Em 2002, o admitido recebia 90% do salário do demitido, em 2009 caiu para 71% e em 2010 subiu para 91%.

Segundo Lenina, o problema dessa proximidade é que o salário deveria melhorar e manteve-se constante. “Pode estar ocorrendo uma demissão para se ter uma nova contratação por um salário mais baixo”. “Essa demissão pode ser intencional, para oferecer salários mais baixos, porque o empresário vislumbra o lucro”, concordou o superintendente regional do trabalho e emprego no Amazonas, Dermilson Chagas.

Em 2010, a grande maioria dos vínculos contratuais desligados foi de contratos celetistas por prazo indeterminado (84,1%), àquele que não se tem intenção de romper, o que mostra a ampla flexibilidade contratual, facilitando tantos desligamentos. Em 2000, esse número era bem próximo (82,9%) e manteve quase inalterado durante a década. Já os temporários representavam 12% e os aprendizes têm participação muito reduzida, de 1,1%, ambos contratos com prazos determinados para o término.

Conforme o estudo, quase metade dos desligamentos tem como causa a demissão imotivada, aquela demissão sem justa causa (47,3%), seguido pelo término de contrato (25%) e a pedido do trabalhador (19,7%).