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Rotina de Manaus observada do alto

Moradores que vivem nos últimos andares de edifícios de Manaus contam como é diferente a rotina da cidade observada de cima 04/08/2012 às 18:08
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Da sacada do apartamento onde mora, Nazaré Affonso tem uma visão privilegiada do Centro histórico e de um dos cartões postais de Manaus: o Teatro Amazonas
CAROLINA SILVA Manaus

A visão privilegiada é um dos fatores que desperta o interesse de quem escolhe morar nas alturas. Ter menos preocupação com a segurança da família é outra vantagem de quem opta por um edifício, em vez de uma casa, mas esses não são os únicos diferenciais.

Os problemas urbanos e as belezas da cidade se apresentam à vista desses moradores numa perspectiva diferente. Da sala de casa, eles podem enxergar muito além daquilo que está sendo visto por quem está dez ou mais andares abaixo.

“Tenho o Teatro Amazonas no meu quintal”, brinca a autônoma Nazaré Affonso, 62. O principal patrimônio arquitetônico do Estado, com mais de cem anos de história, e um dos cartões-postais da cidade, compõe a bela vista que Nazaré tem da cobertura onde mora, num edifício localizado no Centro histórico de Manaus.

A uma altura de, aproximadamente, 50 metros, é possível observar a cidade com uma visão panorâmica. “Mas o que mais gosto de ficar observando daqui de cima é o nascer e o pôr-do-sol. É algo indescritível, e quem está lá embaixo não para pra observar isso” afirmou a autônoma.

Testemunha ocular

Nazaré também acompanhou o passo a passo da construção da ponte Rio Negro, uma das mais importantes obras dos últimos anos, que consolidou a integração entre os municípios da Região Metropolitana de Manaus (RMM). Ao longo de mais de 30 anos morando nas alturas, embora apenas oito deles na cobertura, a autônoma também ‘vigia’ do alto quase tudo que está acontecendo na cidade, e simultaneamente. “Agora, por exemplo, posso ver como está ficando a nova pintura do Teatro Amazonas, de um lado do apartamento, e  do outro, a revitalização da praça do Congresso”, brincou.

Para Nazaré, é possível enxergar uma Manaus mais bonita, longe do trânsito estressante, do barulho de buzinas, da fumaça de veículos e outros problemas urbanos. Mas é lamentável ver, diariamente, algo que parece invisível para muitos que estão embaixo, como o prédio da Santa Casa de Misericórdia, abandonado.

Vista privilegiada

Há seis anos morando nas alturas, a universitária Marcella Avelino, 23, também vê a cidade com ‘outros olhos’. Com um apartamento no 15º andar de frente para a praia da Ponta Negra, Zona Oeste, também um dos cartões-postais da cidade, a jovem percebe a falta de opções de lazer na cidade. Isso ela percebeu aos finais de semana, com a grande quantidade de banhistas no local. “É muita gente que vem para a praia, talvez por ser o único balneário público. Isso mostra que o poder público não oferece outras opções para a população”, apontou.

Outro privilégio que Marcella diz ter do seu apartamento é uma visão que está, a cada dia, mais rara, em Manaus: áreas preservadas de floresta.

 Do inusitado ao corriqueiro

“Certa vez vi um paraquedista caindo perto de um supermercado aqui próximo. Não sei se ele errou a direção do voo, mas foi algo inusitado que deu para ver daqui de cima. E até hoje não sei o que aconteceu”, contou a contabilista Jéssica Queiroz, 23.

Do 13º andar de um edifício na avenida Ephigênio Salles, Zona Centro-Sul, Jéssica também conta que, de cima, ela vê  não apenas cenas inusitadas, como também a mudança no comportamento de quem mora em meio à natureza.

“Às vezes os pássaros se refugiam na varanda porque perdem espaço no  habitat natural dele. Árvores sendo derrubadas para novos emprendimentos causam isso. Só olhando aqui do alto podemos perceber isso. Mas também vemos que, em alguns pontos de Manaus que estão ao alcance da nossa visão, muitas árvores ainda resistem, numa cidade que está crescendo diariamente”, disse.

Acompanhando as mudanças

As mudanças no trânsito da capital não passam despercebidas por quem mora a mais de 20 metros do nível do chão. Para o administrador de empresas Alex Freitas, 31, que mora no 18º andar de um prédio na avenida André Araújo, Aleixo, Zona Centro-Sul, a perspectiva que ele tem de Manaus é de uma cidade ainda despreparada para crescer.

“Daqui vejo de outro ângulo a implantação mal sucedida de um complexo viário. Em horários de pico, é uma confusão só.  Acompanhando essa rotina de congestionamentos, percebo que, se houvesse um melhor planejamento, o fluxo de veículos poderia ser desafogado para outras vias alternativas que, daqui do alto, dá para ver que poderiam ser usadas”, disse ele, fazendo referência ao complexo viário Gilberto Mestrinho.

Moradora de um edifício na rua Constelação Cruzeiro do Sul, no Adrianópolis, Zona Centro-Sul, a universitária Caroline Bonfim, 17, diz se sentir mais segura “no alto”. “Nos acostumamos com a sensação de segurança aqui de cima. Embora, em alguns momentos, a gente observe que a cidade está tranquila, lá embaixo, não temos a certeza dessa segurança”, relatou.