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"Samuzeiros": anjos que salvam vidas

Leandro Prazeres e Evandro Seixas, repórteres de A CRÍTICA, acompanharam de perto um dia de trabalho das equipes do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) por 24 horas. Veja o resultado 04/02/2012 às 17:13
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Os "samuzeiros" são responsáveis pelo atendimento de quase dois milhões de habitantes da capital
Leandro Prazeres Manaus

Chegamos à sede do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), no bairro Praça 14. É de lá que vamos partir para a base da Zona Sul, localizada em frente à Bola da Suframa. Cláudia Teixeira, diretora do serviço, mostra as instalações do centro nervoso do Samu. A sede do serviço responsável pela vida de quase dois milhões de pessoas é um prédio relativamente pequeno, com seis ou sete salas separadas entre si com divisórias do tipo usadas em escritórios. Nos fundos do segundo andar está o “coração” do Samu. Oito atendentes, trabalhando em turnos de seis horas, são as responsáveis por receber todas as chamadas da cidade. Um médico recebe as informações repassadas pelas atendentes e com base nelas é que ele decide que tipo de ambulância vai atender à chamada e para onde o paciente deve ser encaminhado. No canto esquerdo da sala, duas pessoas ficam de frente para dois grandes monitores que exibem um mapa parecido com o que se encontra no serviço Google Earth. Pontos vermelhos e verdes se alternam na tela. Os verdes são as ambulâncias livres. Os vermelhos, as que estão em ação. Todas as ambulâncias do serviço são monitoradas por GPS e sua localização muda o tempo todo. Depois que a chamada é recebida e passada ao médico, eles acionam uma das oito  bases do Samu que, por sua vez, enviam uma ambulância ao local. Na sala, o barulho das vozes se misturando é constante. O telefone não para.

 19h32 Depois de Cláudia apresentar o prédio e como o serviço funciona, vamos em direção à Base Sul.

19h47 O clima na base Sul é de aparente tranquilidade. Técnicos de enfermagem estão sentados em dois sofás na sala de “estar” da base. No quarto onde funciona o “conforto” da equipe, três conjuntos de beliche acomodam os que querem e conseguem dormir entre um atendimento e outro. Os plantões são de 12 horas e começam sempre às 7h ou às 19h. O técnico de enfermagem Gean Carlos Silva de Carvalho, 32, entra na sala e acalma a reportagem, impaciente com a falta de ocorrências. “Calma. Daqui a pouco aparecem os ‘tigrões’ do Mauazinho”. “Tigrões?”, indago. “Sim. Eles aparecem com tantos cortes pelo corpo que mais parecem tigres”, respondeu.

21h16 O rádio comunicador indica a primeira ocorrência da noite. Homem com sangramento forte na região da cabeça, deitado na calçada, próximo à quadra da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade. A ambulância sai em disparada com as luzes piscando e a sirene em alto volume e leva pouco mais de oito minutos para chegar ao local. O trânsito ajuda. O homem está bastante alcoolizado. De lá ainda é possível ouvir o som da bateria da Reino Unido afinando-se para o Carnaval. O homem, bêbado, tropeçou e bateu com a cabeça na calçada. O ferimento não era grave e ele foi encaminhado para o SPA da Zona Sul. Voltamos para a base.

21h42 A noite parece tranquila e os “samuzeiros” (como eles mesmo gostam de se chamar), sentam do lado de fora da sala de estar e batem papo. O rádio está calado. Ivanete é técnica em enfermagem e há 18 anos trabalha com urgência e emergência. Está no Samu desde 2005 e diz que é apaixonada pelo que faz. O filho mais velho seguiu seu caminho e se formou em Enfermagem. Quando está sozinha, ela lembra do caso que mais lhe tocou nesses anos todos. “Um gari recolhia o lixo para dentro de um caminhão. Era de noite e o rapaz, sem alertar ao motorista, pulou na traseira do veículo enquanto ele dava marcha ré. O rapaz ficou preso entre o caminhão e um poste. Quando chegamos lá, ele estava acocorado. Eu cheguei perto dele e tentei acalmá-lo. Não dava para ver como ele estava. Colocamos a maca do lado e pedimos para ele deitar. Quando ele se deitou, as vísceras caíram no chão. O impacto abriu um corte no corpo dele. Ele dizia: - estou com muita dor. E ele sangrou até morrer. São os casos que a gente não consegue ajudar que ficam marcados na nossa cabeça”, contou.

22h07  O rádio informa: mulher vítima de golpe de arma branca precisa de atendimento no bairro Mauazinho. O “tigrão” que Gean havia anunciado, na realidade, é tigresa. E nova. Às 22h16, a ambulância chega ao local. A “mulher” era uma menina, tinha 12 anos de idade e vinha cambaleando em direção à viatura, com a barriga e as pernas banhadas em sangue. Vestia um short jeans curto e uma blusa preta curta. Mal tinha seios, e talvez por isso usava sutiã com enchimentos. Ela contou que tinha ido comprar drogas em uma “boca de fumo” quando uma mulher lhe “ofereceu” como prêmio aos traficantes para que mantivessem relações sexuais com ela. A menina rejeitou e foi atingida pela mulher. A facada foi na altura do peito, do lado direito. O médico Alexandre Saraiva suspeita que o golpe tenha perfurado um dos pulmões da garota que estava agitada e mexia as pernas. Seus sinais vitais são checados, e ela recebe oxigênio. Ela grita sofregamente: “Eu quero respirar”. Alexandre faz um curativo que faz com que o ar da cavidade toráxica saia e não entre, evitando que ela tenha parada respiratória. Depois de estabilizada, a menina é encaminhada à ala infantil do Hospital e Pronto Socorro João Lúcio. Ninguém da família dela estava no hospital naquele momento.

22h49 A ambulância que atendeu a menina não teve tempo de voltar para a base. O rádio a deslocou para a avenida Torquato Tapajós, onde um motociclista havia atingido a traseira de um carro. O trânsito estava péssimo. As luzes e o som das sirenes pareciam não sensibilizar os motoristas. No local, o motociclista foi atendido, imobilizado e depois enviado, por uma outra ambulância que já estava no local, para Pronto Socorro 28 de Agosto. “Ele teve um pequeno traumatismo craniano. Os sinais vitais estavam normais, embora ele estivesse um pouco alterado”, disse Saraiva. O motociclista usava capacete, mas do tipo que é aberto embaixo.

23h25  De volta à base, o clima retorna à aparente tranquilidade. O rádio pede que uma das ambulâncias faça a transferência de um paciente internado em um hospital para outro. Saraiva não gosta de fazer esse serviço. “Tem duas coisas que eu não gosto de fazer: atender bêbado e transferência de paciente. Todos os dias a gente tem que fazer essas transferências, que são competência do Estado. Eles têm as ambulâncias dele. Isso não é emergência, mas a gente não pode negar atendimento”, reclama Alexandre, que cansado, vai deitar para esperar o próximo atendimento.

23h58 Entre uma ocorrência e outra, o motorista-socorrista Lourenço José Vieira Jaques, 41, atualiza seu perfil no Facebook e exibe, para os colegas, fotos e vídeos de suas duas filhas pequenas, que como ele, adoram rock´n roll. “Olha esse vídeo, olha esse vídeo”, diz mostrando as filhas dublando “Have you ever seen the rain”, do Creedence. Lourenço sempre trabalhou dirigindo. Trabalhou para a Petrobras, para empresas de segurança privada, mas nunca imaginou que transportaria vidas e mortes. Ironicamente, foi no asfalto que ele teve sua maior perda. “Meu irmão vinha pela BR - 174 e estava chovendo muito. Tem um ponto da estrada, perto do quilômetro sete, em que fica uma espécie de piscina. Ele perdeu o controle e caiu na ribanceira. Morreu na hora”, contou. Tudo isso aconteceu uma semana antes de ele começar a trabalhar no Samu. “Não fico pensando nisso. Tento não pensar, mas até hoje, toda vez que eu vou atender um acidente de trânsito, eu fico mais tenso”, revela.

01h18 O bate-papo ganha cada vez mais baixas. Alguns técnicos e motoristas se refugiam na sala do “conforto” e outros na de “estar”. De repente, o bate-papo cessa. Um microônibus que fazia o transporte de operários de uma fábrica do Distrito Industrial para em frente à base. A porta se abre e Maria Luíza de Souza Braga, 31, sai do veículo. Outras duas pedem ajuda e o segurança armado abre a grade. Maria vem chorando, com as mãos na boca e sangue escorrendo. Ela estava sem o cinto de segurança quando o motorista teve de fazer uma parada brusca. Maria foi projetada para frente e caiu, de cabeça no assoalho do microônibus. Os lábios estão inchados. Rapidamente, ela é colocada em uma ambulância e Gean, que faz o primeiro atendimento a Maria, segue com ela. No caminho, ela reclama de dores na bacia. Gean fala, por telefone, com o médico de plantão na central do Samu, que o orienta a levá-la ao Hospital e Pronto Socorro João Lúcio, onde há equipamentos de tomografia. “Na maioria das vezes, a gente é que vai atrás dos pacientes, mas também tem vezes em que os pacientes vêm atrás de nós”, conta Gean.

3h13  Surge, como que do nada, uma garrafa de café quente e um pacote de bolacha cream cracker. O regalo é distribuído aos que se mantém acordados quando o rádio chama para a ação. “Homem, ferimento na região do abdômem, localizado na rua Bernardo Ramos, em frente à antiga Capitania dos Portos”, diz o operador. No local, Deivid de Souza Santiago, 24, está deitado, vestindo apenas uma bermuda e um par de tênis. Ele está em frente à sede do Comando do 9º. Distrito Naval da Marinha, onde os guardas e o oficial da noite observam o rapaz se contorcendo sem sequer abrirem o portão. Deivid reclama. “Tá doendo, doutor”, diz. O rapaz saiu da casa do sogro por volta das 21h e se encontrou com o cunhado. Foram “se divertir” nas ruelas do baixo meretrício do Centro de Manaus. Segundo Deivid, quando foi voltar para casa, uma mulher o abordou pedindo seu telefone celular. Ele negou e levou um golpe. “Pela extensão da lesão, deve ter sido uma punhalada”, diz o técnico em enfermagem André Maciel, que atendeu Deivid. O rapaz parece constrangido, pois sabe que terá de contactar sua família, que sequer fazia ideia de que estava por ali. “Como é que você vai contar para sua esposa que você se meteu nessa situação?”, pergunto. “Vou ter que contar, né, moço?”, responde numa mistura de riso e dor. “Agora você imagina a situação. O serviço social do hospital vai ligar para a família dele e a esposa, que estava deitada, em casa, tranquila, vai saber onde o marido estava”, diz André Maciel, rindo.

4h16  De volta à base, a frequência de rádio do Samu transmite uma crônica de vida e de morte em Manaus. “Tentativa de aborto. Mulher com sangramento”, diz o operador a uma base da Zona Norte. “Ferimento por arma branca”, na Zona Leste. Na Zona Sul, o clima está calmo.

5h40   Os primeiros raios solares despontam no céu da Zona Sul de Manaus. Os ônibus que abastecem o Distrito Industrial de mão-de-obra enchem o ar de fumaça e barulho. Lourenço e o assistente administrativo de plantão, William Leite Leal, conversam amenidades. William estuda Medicina na UEA e, quando tem oportunidade, acompanha alguns atendimentos para ver, na prática, como será seu dia-a-dia.

7h05   Acordo com o soar de uma sirene. Penso que é alguma ocorrência em curso, mas na realidade, são apenas os novos plantonistas testando os equipamentos das viaturas. Ivanete tira o macacão azul escuro do Samu e põe um uniforme típico de hospital, mas dessa vez ela vai para casa. Gean troca de roupa, mas sua jornada continua. Vai ajudar na instrumentação de cirurgias. Alexandre Saraiva também troca de roupas e vai para o Pronto Socorro da Criança.

7h53 O dia começa movimentado, mas enfadonho. Duas remoções de pacientes que estavam internados em hospitais estaduais “irritam” os “samuzeiros”.

8h32  O rádio informa sobre um homem com aparente perda de consciência. A viatura demora apenas 10 minutos para chegar no local, mas o homem já havia sido removido. “Às vezes, as pessoas não esperam a gente chegar e levam o paciente por conta própria, mas esses minutos que eles ganham, muitas vezes não dão resultado. Por mais que a gente demore, nós temos os equipamentos para reanimar os pacientes. Num carro particular, você pode até chegar mais rápido, mas pode acabar  matando o paciente”, explica Francisco Hemerson Barros Bezerra, motociclista e técnico de enfermagem que trabalha como condutor das motolâncias.

8h57  Um rapaz sofre um acidente de trabalho e quebra uma das pernas. Depois de ser imobilizado, é encaminhado ao Hospital Chapot Prevost.

9h31  Exceto pelas transferências de pacientes, a manhã segue tranquila. Alessandra Said, a médica do plantão, conversa com os demais na sala de “estar”. Ela pergunta se houve alguma ocorrência grave no plantão da noite. Digo que sim, mas a descrição que dou não parece impressioná-la. “Grave foi uma ocorrência que pegamos há um mês. Um homem saiu de moto, voltava para casa. Ele derrapou e foi parar embaixo de um caminhão e acabou parando debaixo das rodas. Quando chegamos lá, ele ainda estava vivo, não sentia dor porque a medula havia sido esmagada. Uma das pernas havia sido amputada e a outra estava dilacerada e ele perdia muito sangue. Eu me aproximei, ele me olhou e disse ‘Doutora, me ajuda!’. Eu respondi que ia ajudar, mas as lesões dele eram incompatíveis com a vida. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ele morreu pouco depois de chegar ao hospital”, lembra Alessandra. Pergunto o que a médica sentiu quando disse que ia ajudar, mesmo sabendo que não podia. Ela responde genericamente. Refaço a pergunta e ela, finalmente, responde. “Doeu. Doeu muito”.

10h47  O bom momento da economia permitiu que a família de Sandra, 61, construísse uma laje e uma escada na casa em que ela e os três filhos vivem, no beco São Paulo, no bairro São Lázaro. O problema é que a escada, além de mal feita, não tinha corrimão. Sandra, que estava estendendo roupas na laje, escorregou e caiu no chão. Quando chegaram, os técnicos do Samu verificaram que os familiares haviam colocado um travesseiro sob a cabeça de Sandra. “As pessoas tentam ajudar, mas não podem fazer isso. Podiam ter deixado ela paraplégica”, disse a técnica em enfermagem Silvana Rodrigues. Sandra estava consciente e pôde perceber a dificuldade que os técnicos do Samu tiveram para retirá-la de sua casa. O beco é íngreme e foi necessária a ajuda de populares para levarem a maca até a ambulância. Sandra foi levada a um hospital onde os médicos não encontraram nenhum sinal de trauma mais grave.

13h54  O almoço dos “samuzeiros” chegou em panelas de aço e foi servido ao ar livre, pois a copa estava em reforma. Arroz, feijão preto, frango frito, carne guisada, salada e doce de leite de sobremesa. Alguns ainda comiam quando o rádio chamou. “Paciente idoso, queda da própria altura, na rua Marquês de Santa Cruz”, disse o operador. Àquela hora, o trânsito estava caótico. Francisco Hemerson foi na frente com sua motolância. Ao chegar no local, Hamilton Sarmento, um senhor idoso que vestia uma elegante calça branca e camisa azulada estava sentado no chão com os cabelos brancos manchados de sangue. Ele bebia com alguns colegas quando escorregou e bateu a cabeça no meio-fio. Visivelmente alcoolizado, ele dificultava o trabalho da técnica de enfermagem Ruth Moraes. “Ei moça, não me bate, não”, dizia Hamilton. Dentro da ambulância, o idoso se recusava a deitar na maca. Ruth, experiente, tentou convencer o senhor pedindo com ainda mais delicadeza. Hamilton, inebriado pelo álcool e pelo charme de Ruth, não perdeu tempo. “Moça, você é muito bonita. Vou te levar para jantar... quer conhecer meu apartamento?”, disparou Hamilton. Ruth segurou o riso como pôde e entregou Hamilton no SPA da Zona Sul, na Colônia Oliveira Machado.

14h17Hemerson não teve tempo de voltar para a base com sua moto. O operador o enviou a uma nova ocorrência. Junto com ele, a ambulância em que Alessandra Said também foi deslocada. Deitada em uma cama, Maria Nilda Marques, 72, respirava com dificuldade. Vítima de Alzeheimer e de um vírus que lhe tirou por completo o sistema nervoso central, Maria Nilda vegetava sob o olhar cuidadoso da filha única, Socorro Lustoza, 45. Socorro percebeu que a mãe não estava respondendo aos seus estímulos e notou um pequeno aumento de temperatura. Ficou preocupada e chamou o Samu. Alessandra Said checou os sinais vitais de Maria Nilda, trocou o cilindro de oxigênio que ela utilizava e notou que a cor da urina da sonda que ela utilizava estava mais amarelada que o normal. “Isso é indício de quem está com infecção urinária. Talvez por isso ela esteja com febre também”, disse. Alessandra decidiu que era melhor transferir Maria Nilda para um leito do Hospital 28 de Agosto, onde a paciente já havia estado há pouco mais de 20 dias. “Esse quadro é comum em casos de pessoas acamadas e sobretudo quando usam sondas como a dona Maria Nilda. Vamos encaminhá-la para o hospital onde ela será medicada, mas depois terá de voltar para casa. Não há muito o que fazer”, disse Alessandra deixando implícito que a morte, nesse caso, é uma questão de tempo. Socorro Lustoza consolou o filho adolescente, que chorava ao ver a avó sendo atendida, pegou uma sacola com roupas e alguns outros pertences e entrou na ambulância junto com a mãe. No caminho, pergunto se Socorro está preparada para a morte da mãe. “Há onze anos isso. Já estou preparada para quando ela partir”, disse com a voz firme.

16h54  De volta da ocorrência mais demorada do dia, todas as equipes da base Sul estão no estacionamento preocupadas. Uma fumaça negra desponta no horizonte, na direção do bairro Mauazinho. Eles temem um incêndio e ficam atentos ao rádio, mas nenhuma ocorrência é registrada.

17h32  Da janela da sala de estar da base é possível ver que o trânsito está ficando cada vez mais carregado. Como que interpretando o tráfego, o rádio informa: “acidente de trânsito, colisão entre motos”. A ambulância “sofre” para chegar ao local da ocorrência. O condutor erra o caminho e em vez de ir para o Japiim, ele segue para a Praça 14. Corrigido o rumo, o adversário agora é o tráfego. Mesmo assim, após 22 minutos, dez a mais que o estipulado pelo Ministério da Saúde, a ambulância chega ao local. Ronei Rodrigues Araújo, 32, quebrou o tornozelo direito ao se chocar com outra motocicleta. Populares dizem que ele vinha na contramão, mas ele negou. Ronei é imobilizado e levado para o Pronto Socorro 28 de Agosto.

19h12  Todas as ambulâncias estão na base quando a nova equipe chega para “render” o plantão anterior. Alessandra cumprimenta os colegas que estão chegando. “Oi, Gean. Você de novo?”, diz a médica. É Gean, o técnico de enfermagem do plantão anterior. “Eu não estava na escala, mas me pediram para vir e eu vim. Não durmo direito desde o dia 31, mas a gente já está acostumado”, diz Gean. Os novos “samuzeiros” checam as ambulâncias, verificam os equipamentos,  limpam o seu interior e se preparam para mais 12 horas de trabalho entre a vida e a morte.