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‘Sem incentivos fiscais, os investimentos não virão', diz empresário

Antônio Silva conta que é uma pessoa disciplinada, sempre gostou de trabalhar em defesa do setor industrial e da Zona Franca de Manaus, mas depois que cumpre sua labuta dedica-se exclusivamente à família 02/12/2012 às 16:01
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Antônio Silva mostra visões de um executivo
Luana Gomes Manaus (AM)

Empresário de sucesso, Antônio Silva diz que entrou para o mundo dos negócios por livre e espontânea vontade. Como presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) tem a defesa do modelo Zona Franca de Manaus como uma de suas principais frentes de batalha. Mas é um homem também devotada à família e  não se furta a contribuir com as causas sociais. Por esses motivos, aliás, recebeu na quarta-feira a Medalha Rui Araújo, a  mais alta comenda concedida pela Assembleia Legislativa do Amazonas. A seguir a entrevista.

Muitos empresários de sucesso costumam vir de uma infância pobre. Como o senhor define a sua infância?

Eu não tive infância pobre. Não diria que nasci em berço dourado, mas posso dizer que nasci em berço. Meu pai naquele tempo tinha uma corretora de câmbio de valores imobiliários que, durante muito tempo, foi sustentada pela família. Depois, nós vendemos esta carteira de câmbio para os bancos. Então, minha família tinha uma certa condição financeira.

Em que momento o senhor decidiu se tornar empresário?

Minha entrada nos negócios foi por livre e espontânea vontade, tendo em vista que meu pai tinha posses. Na época do meu primeiro trabalho, eu estudava no Instituto de Educação do Amazonas (IEA) pela manhã e, para não ficar sem fazer nada no período da tarde eu ia para a livraria do meu cunhado José Brito, para trabalhar. Naquela época nem se pensava em computação, então o estoque era todo na cabeça dele. E eu, com ele, aprendi muito sobre o comércio. Ainda passei pela empresa de um primo, de engenharia civil e sanitária, e tive uma passagem pela Moageira de Trigo Amazonas S.A.

E como se deu a entrada no Grupo Simões?

A convite do meu sogro, Antônio Simões. Ele estava captando acionistas para iniciar o negócio. E nesta altura eu adquiri ações no meu nome, a partir de dinheiro que veio do meu pai. De lá iniciamos nossa atividade na indústria de refrigerante. Hoje temos a Brasil Norte Bebidas (BNB), responsável pela fabricação dos produtos Coca-Cola, concessionárias de automóveis fábricas de gás. Praticamente 25 mil pessoas estão ligadas às nossas atividades.

De que forma é possível conciliar a vida profissional com a familiar, visto que ambas estão tão ligadas?

Eu sou muito disciplinado na minha agenda, faço muito controle do meu tempo. Depois das oito horas de cada dia e o final de semana é dedicado única e exclusivamente para minha família. O que impede que haja qualquer conflito familiar nos negócios é que, na empresa, nós temos um planejamento de governança corporativa que é focado para empresas familiares. Os nossos problemas não saem deste conselho familiar. E isso serve para quebrar o paradigma de que empresas familiares não chegam a terceira geração. A nossa empresa já está entrando na quarta.

Como o senhor se tornou representante das entidades de classe que hoje representa?

O sindicato das indústrias de bebidas sempre esteve nas mãos do grupo Simões e eu herdei isso. Além disso, fui do Sindicato das Indústrias químicas e ambas as representações me permitiram entrar na Federação, onde participei na administração de José Nasser, como vice-presidente. Depois assumi a presidência e estou no meu segundo mandato, com direito a postular um terceiro, que é o que determina o estatuto. E por conta dessa minha trajetória, no primeiro mandato ainda, com a mudança no comando da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e em função da indicação por parte da ação empresarial do Pró-Amazônia que compõe os presidentes do Norte, me indicaram para ser segundo-vice presidente da CNI. Foi a primeira vez que a federação do Norte tomou parte da cúpula da CNI.

Esta indicação é uma prova do que foi citado na entrega da medalha Ruy Araújo, que o senhor conseguiu atrair muitos parceiros para a região?

Eu tenho estado muito em Brasília para fazer esse trabalho em defesa do nosso Polo Industrial, do nosso modelo econômico, que é único por conta das peculiaridades da nossa Região. Que é um modelo de desenvolvimento, em virtude de suas vantagens comparativas. Se não fosse por esta natureza, certamente os investimentos não viriam, até por conta da nossa localização geográfica. Nós não temos como competir com os grandes centros, que têm facilidade de locomoção, de comunicação. Desta forma, se não fosse pelas vantagens comparativas não teríamos a pujança atual do polo, que tem mais de 500 empresas e uma geração de empregos diretos na ordem de 130 mil.

Mas o senhor sabe que o modelo vive em constante ameaça...

O modelo de dez anos para cá começou a despertar muito interesse, de formas equivocadas. No que diz respeito a tentarem igualar o restante dos Estados brasileiros nas nossas vantagens comparativas. Se nós não tivéssemos essas vantagens ninguém viria para cá, não seria simplesmente pela floresta Amazônia, que continua intacta, e nós não teríamos essa pujança de empregos e nem esta quantidade de habitantes.

O senhor acredita que possa chegar o momento que somente os incentivos não serão suficientes para trazer investimentos a região?

Nós estamos procurando alternativas para trazer para cá. Da floresta não dá mais, porque quando o extrativismo nos sustentava éramos em torno de 150 mil pessoas. Mas hoje não temos como tirar sustentação para 3 milhões e tantos de habitantes. Estamos tirando alternativas na piscicultura, na bovinocultura, etc. Mas não temos condições por causa da nossa condição. A nossa situação geográfica, em algum momento nos protege, mas em outros nos prejudica. Se não tivermos essas vantagens eternas comparativas, por conta da nossa logística, nós não vamos ter como competir com São Paulo, Bahia, Minas Gerais, que estão no eixo, no centro. Buscamos alternativas sim, mas precisamos de um tempo de transição para que possa sair de uma modelagem e ir para outra.

Quais são os projetos futuros da Fieam em prol do modelo Zona Franca?

Temos que estar continuamente alertas para todas essas investidas, como foi o caso do governo de São Paulo. A mão da justiça tem nos favorecido, mas até quando vão olhar para nós de forma diferenciada? Nós não estamos pedindo favor, temos que ter esta trativa senão viramos porto de lenha.

E de que forma uma entidade de classe pode ter força para lutar por essas vantagens comparativa?

Com uma voz ativo. Não temos o poder de fazer mudanças legislativas, administrativas, mas temos o poder do convencimento. Contra fato não tem contra-argumento. Tudo que está dentro da Constituição Federal, não tem como o Supremo Tribunal Federal dizer que não é legal. Nós somos o único Estado que está dentro da legalidade brasileira, a partir de uma visão lá atrás, que deu este guarda-chuva com o Decreto-lei 288/67.

Para finalizar, qual seria o seu conselho para alguém que pretende chegar ao seu gabarito como empresário?

Percorrer esse chão de fábrica, que é muito importante. Conhecer esta estrada toda na atividade industrial, conhecer o produto que você fabrica. Eu, por exemplo, sabia fazer xarope simples, que é água e açúcar. Mas, para isso, você tinha que usar o açúcar branquinho. Só que não podia comprar o que já vinha assim, por não ter índice de sacarose necessário. Então você usava vários produtos para fazer a filtração de um açúcar da cor da rapadura. Tinha que clarificá-lo, usando vários produtos para trazê-lo aos padrões exigidos pela Coca-Cola. É preciso conhecer o nascer e o final do produto. Então é isso que eu digo, você precisa saber o que vende, ter um cabedal de conhecimento.

Perfil

Nome: Antonio Carlos Silva

Idade: 64 anos

Estudos: Bacharel em Administração de Empresas

Experiência: Iniciou a carreira no comércio, na Livraria Brito. Foi chefe de departamento e sub-gerente na Moageira de Trigo Amazonas S.A. Entrou como acionista na criação da primeira fábrica de Coca-Cola da região e desde então sua carreira esteve ligada ao Grupo Simões.

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