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‘Sem-teto’, mas nem tanto: Após reintegração em invasão, muitos deixam área no carro próprio

Após reintegração de terreno invadido na Torquato Tapajós, muita gente deixou a área de carro e voltou para casas alugadas 15/10/2015 às 09:54
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Após a ação policial, muita gente levou os bens para a rua, mas teve quem saiu da invasão motorizado e com destino certo
Silane Souza Manaus (AM)

A indústria das invasões em Manaus, que avançou sobre áreas verdes em todas as regiões da cidade nos últimos anos, alimenta não apenas o sonho de quem deseja ter a casa própria, mas também o “bolso” de líderes de invasões de terras da cidade e de muita gente que, mesmo sem precisar, tenta “ganhar” um terreno em áreas invadidas para, depois, vendê-lo a terceiros. Nesta quarta-feira (14), durante a reintegração de posse de um terreno, invadido por famílias que criaram a comunidade “Bom Pastor”, próximo à avenida Torquato Tapajós, Zona Norte, A CRÍTICA constatou que alguns “moradores” pagaram até R$ 3 mil por um lote no referido terreno, mesmo tendo casas alugadas em outros bairros.

Além disso, A CRÍTICA também encontrou várias pessoas que, mesmo com a reintegração em curso, ainda estavam em busca de um lote na invasão para construir um barraco. Algumas, inclusive, já tinham espaço demarcado com pedaços de madeira.

Durante a reintegração, muitos moradores que alegaram estar vivendo nos barracos revelaram que já tinham para onde ir: eles possuem casa alugada em outro bairro, e estavam na invasão apenas em busca de um terreno próprio que, em boa parte dos casos, acaba vendido.

Houve relatos de ocupantes que alegaram terem sido impedidos de retirar bens dos imóveis, mas muita gente levou os pertences e em seus próprios veículos, o que coloca em “xeque” a carência dessas famílias.

A operação

A Polícia Militar fez um bloqueio na entrada da comunidade e alguns moradores que estavam do lado de fora foram impedidos de entrar na área de invasão. “A gasolina do meu carro acabou logo de manhã cedo e eu saí para comprar. Quando voltei, já não pude mais entrar. Minha esposa está lá dentro. Estou preocupado, pois não temos para onde ir”, disse o desempregado Alcemir Pontes, 37.

O auxiliar de serviços gerais Clemilton Freitas Nascimento, 26, ainda não morava no local, mas disse que já tinha uma área demarcada, onde iria construir um barraco para morar com a  esposa. O lugar era próximo de onde o primo dele também tinha uma casa improvisada. “Ele (primo) pediu pra eu vir pegar as coisas dele, mas a polícia não está deixando ninguém entrar. Vão destruir tudo”, relatou.

O servente Leno Teixeira, 34, morava na invasão há pelo menos cinco meses. Conforme ele, comprou um terreno no local por R$ 3 mil. Durante a desocupação, ele revelou que a polícia agiu com truculência. “Eles (policiais) não deixaram ninguém pegar as coisas de dentro de casa, derrubaram os barracos com tudo dentro. Eles deveria ter nos avisado com antecedência sobre essa ação. A lei prevê esse prazo”, criticou.

Área já foi palco de conflitos

A área ocupada, que já foi palco de conflitos entre os moradores, homens armados e a polícia, mede aproximadamente 300 mil metros quadrados e pertence ao empresário João Marcos Pozzette. Ele informou ao portal acritica.com que pediu, na Justiça, a recuperação do terreno em razão do crescimento desordenado da invasão. A reintegração de posse foi expedida pela 10ª Vara do Juizado Especial Cível de Manaus.

A Polícia Militar iniciou a operação de manutenção de posse por volta de 6h de ontem, com a participação de 100 policiais militares da Ronda Ostensiva Candido Mariano (Rocam), Batalhão da Polícia de Choque, Cavalaria e Grupamento de Operações Especiais (CPE), entre outros órgãos.

De acordo com o tenente Jozinaldo Silveira, aproximadamente 250 barracos foram retirados da área de invasão, afetando em torno de 300 pessoas, que foram obrigadas a deixar o local. Parte delas se aglomerou do outro lado da rua, onde colocaram os pertences, alegando não terem para onde ir.