Publicidade
Manaus
Poços clandestinos

Serviço precário de fornecimento de água em Manaus incentiva escavação de poços artesianos clandestinos

Especialistas alertam para perigos da escavação de poços artesianos e surgimento de cacimbas da cidade 10/04/2012 às 08:40
Show 1
A moradora Raiane da Silva, do bairro Nova Vitória, retira água de uma cacimba;no local, essa é uma das alternativas para combater o problema de abastecimento
Milton de Oliveira Manaus

Diante da precariedade no abastecimento de água em algumas zonas da cidade, principalmente nas Norte e Leste, a população busca alternativas de ter o líquido nas residências perfurando poços clandestinos, de onde surgem ligações irregulares e o comércio da água. Os dados são da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos do Amazonas (Arsam) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

 Para alertar sobre os perigos dessas perfurações ao meio ambiente e à saúde, e para falar de temas relacionados, pesquisadores e parlamentares se reuniram na tarde de ontem, para fazer um debate da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE). O evento registrou o Dia Mundial da Água no Amazonas, comemorado no último dia 22.

 De acordo com o consultor na área ambiental, Ludovino Lopes, quem administra bem os recursos hídricos está cuidando da saúde da população. “Hoje, o consumo de água é maior porque a Terra possui mais de 7 bilhões de habitantes e, então, precisamos de mais água para mais gente. No entanto, a água é um bem de todo mundo e não pode ser um privilégio de poucos”, afirmou ele. Ainda conforme o consultor, o primeiro desafio é construir sistemas de acesso à água. “Todos os recursos disponíveis na Terra, têm uma maior ou menor disponibilidade de acesso. E, para explorar esse recurso hídrico, que é a água, é preciso estrutura. E tudo isso tem um custo. O segundo desafio, é gerenciar e consumir esse recurso de forma sustentável”, concluiu.

 A Unesco afirma que cinco bilhões de pessoas podem sofrer com a falta de saneamento básico até 2030. Um exemplo é a moradora Raimunda Pereira, 65, da rua Arruda, bairro João Paulo, Zona Leste, que recorre ao poço do vizinho para encher recipientes. “Eu pago R$ 3 para encher meus camburões e R$ 5 para encher a caixa d’água”, disse ela.

Na rua Preciosa, bairro Nova Vitória, a situação é mais crítica, onde os moradores fazem ligações clandestinas - os “gatos” -, com encanamentos que vão pegar água na rua principal, a pista da Raquete. A maioria paga “religiosamente” taxas de R$ 40 e R$ 60 por mês, dependendo da quantidade de água, para um vizinho, que estende a mangueira e puxa água de um poço artesiano.

Águas não responde sobre ‘gatos’

Com relação às ligações clandestinas no Nova Vitória, a Águas do Amazonas comunicou que “o sistema ainda não é operado” pela concessionária. “O Nova Vitória é um bairro, como a grande maioria em Manaus, oriundo de um processo de invasão (neste caso de terreno da Suframa). O Governo do Estado, então, assumiu toda a parte de urbanização e regulamentação fundiária neste local, para implementar a infraestrutura necessária no local (água, luz, telefone...)”, diz a nota.

Ainda conforme a concessionária de água, os poços pertencentes a ela são diferentes dos poços artesianos domiciliares. “A Águas do Amazonas possui 127 Centros de produção de águas subterrâneas (CPAS) em operação. Estão localizados, sobretudo, na Zona Leste e fazem parte de uma rede (tubulações) de distribuição de água de quase 3.500 quilômetros operada pela concessionária”, disse a empresa.


Perfuração de poços já rendeu 22 notificações


 Márcio Silva Poços tubulares vêm ajudando milhares de famílias da cidade O Ipaam esclarece que o nome certo para os poços perfurados e com tubulação é “tubular”, e não artesiano. O órgão estima que no Amazonas existam 8 mil poços tubulares, dentre residenciais, industriais e públicos, na capital e interior, dos quais 50% já estão cadastrados. O interior do Estado representa menos de 10% desse total, diz o Ipaam. De agosto de 2011 até hoje, o instituto contabilizou 22 notificações para que os responsáveis por poços efetuem o cadastramento.

 A legislação estadual determina que somente empresas certificadas no Ipaam podem perfurar poços tubulares. E a lei federal 11.445, de 5 de janeiro de 2007, que estabelece as diretrizes para o saneamento básico, proíbe a construção de novos poços tubulares nas áreas que já estejam beneficiadas pela rede de abastecimento de água. O Ipaam alerta que os poços clandestinos podem estar próximos a fontes contaminantes e os riscos vão depender do tipo de poluentes. Com relação ao impacto ambiental, um poço clandestino pode levar terra e resíduos sanitários que podem comprometer o lençol freático. Sobre as cacimbas o órgão informou que elas não são recomendáveis porque captam águas superficiais que estão predispostas a múltiplas formas de poluição.

 De acordo com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Márcio da Silva, em período de enchente aumentam os riscos de contaminação dos poços. “Sua exposição aos processos antrópicos, por exemplo, fossas sépticas, lixões etc., podem ocasionar contaminação ou poluição”, afirma ele destacando que, em diversas cidades do interior é possível presenciar uma construção aleatória e desgovernada de poços e cacimbas.