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‘Temos que ter um papo direto com os jovens’, diz secretário da juventude de Manaus

Entrevista > Com prazo de seis meses, novo secretário da Juventude de Manaus, Ivan Brito , afirma ter consciência de onde está pisando e fala do desejo de deixar um legado para os jovens pobres da periferia da cidade 24/06/2012 às 09:44
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Secretário municipal da juventude, Ivan Brito.
Rosiene Carvalho Manaus (AM)

Nascido e criado na Zona Leste de Manaus, Ivan de Souza Brito, 29, protagoniza raro momento no Executivo Municipal. Há dois meses, uma secretaria da Prefeitura Municipal de Manaus (PMM) conta com um gestor que tem histórico de vida ligada a comunidades carentes. A oito meses de terminar o mandato, o prefeito Amazonino Mendes (PDT) nomeou um jovem da periferia, morador do bairro Jorge Teixeira, para  comandar a Secretaria Municipal de Juventude (Semje), cujo orçamento mensal é de R$ 4,6 milhões.

Ciente do pouco tempo e da “imensa” responsabilidade, Ivan Brito traça estratégias para executar projetos que se revelem eficazes em curto prazo para melhoria da qualidade de vida dos jovens de Manaus. Isso em meio a um complexo processo eleitoral. Mas o secretário garante: Vai levar ações aos jovens de comunidades carentes e elas  “não serão eleitoreiras”. Confira trechos da entrevista concedida pelo secretário.

Em dois meses já deu tempo para o senhor se situar como gestor?

No campo administrativo, penso que sim. Agora, no que tange à juventude eu já tinha tudo preparadinho porque não foi nada que nasceu por acaso. Chegar à Secretaria de Juventude é resultado de um passo que demos mais atrás. Sempre me dediquei à temática da juventude. Desde os meus 13 anos de idade, fui muito direcionado para a parte de comunicação. E de 2006 para cá me envolvendo muito mais com a temática da juventude, seus problemas, seus anseios. Então, é uma situação que estava bem desenhada.

Quais as propostas que o senhor tinha para juventude e que dá tempo para serem executadas em um prazo de seis meses?

Existem inúmeros projetos que já estamos tocando. Há projetos muito maiores que devem ser lançados até o final deste mês. Mas tem outros que, apesar de pequenos, têm  uma abrangência e pegada muito forte dentro das comunidades.

Pode citar alguns?

 Temos o ‘Curta Juventude’. É uma proposta que objetiva  ampliar possibilidades na parte cinematográfica, a ser lançada no dia 28. Vai ser muito bacana. Vamos com toda infraestrutura para as comunidades, as mais distantes, onde a presença do Poder Público  não se fazia sentir. A ideia é incentivar o protagonismo dos jovens. Ao invés de eu chegar na comunidade e levar um filme pronto, vamos produzir junto com eles.

Os equipamentos vão ser utilizados por eles como empréstimo?

Sim. A oficina será itinerante. Mas não para por aí. Vamos formar essa turma em filmagem, roteiro e direção. Quando sairmos, deixaremos como legado  um cineclube. Existe um projeto nacional que prevê recursos para lugares onde há cineclubes constituídos.

Qual é o contato desses jovens hoje com o cinema?

Nessas comunidades, da Zona Leste, vários jovens não passaram sequer na frente de um cinema. A ideia é ficar pelo menos uma semana em cada comunidade. Queremos fazer umas dez oficinas nessa área.

Há outros projetos que o senhor vai desenvolver com mais imediatismo?

Outro projeto simples, mas muito importante para a juventude de Manaus é o Serviço de Atendimento à Juventude (SAJ) é um 0800, que não vai ser bloqueado para celular, terá todo mapa de programas, não só da Secretaria de Juventude, mas da Prefeitura de Manaus.

Tem ações específicas para homens e para mulheres?

Sabemos que o números de adolescentes e de meninas que engravidam em Manaus não é baixo. Vamos lançar uma ação direcionada às jovens e adolescentes.  Estamos em contato com entidades que já trabalham com as mulheres para agregar força a essa ação. Para que essa ação, acima de tudo, possa chegar nas escolas, nas igrejas, nos núcleos organizados na periferia mais distante.

Os jovens não tinham um relacionamento bom com o secretário passado ...

Vou completar 60 dias à frente da secretaria e já conversei com mais de 30 lideranças de juventude, tanto partidária quanto comunitária. Eu entendo que a secretaria é da Juventude. Eu não sou, estou secretário. Eu sou jornalista, mas enquanto eu estiver lá a metodologia será essa.

Como dialogar de maneira eficaz com a juventude?

Temos que ter um papo direto na hora de passar as informações. O jovem precisa, para refletir sobre o assunto, de alguém que saiba se comunicar com ele.

Que tipo de linguagem o senhor se refere?

Não é uma linguagem formal, mas uma forma de falar mais próxima a eles. Nessa conversa, vamos fazer folders, vamos usar as mídias sociais e falar diretamente, nos bairros.

É eficaz fazer campanha pela Internet para alcançar os jovens de baixa renda?

Essa questão de dizer que  os jovens de baixa renda estão a parte das mídias sociais não é verdade. É incrível como eles têm acesso.  Orkut ainda funciona muito na Zona Leste. Facebook está estourando lá. Usam Internet a R$ 0,50 por dia nos celulares.

Existe algum Centro da Juventude na Zona Leste?

Em cima dessas dificuldades estamos tentando levar um centro de referência para lá como grande projeto piloto. Eles não têm um lugar para dizer que aquele espaço é da juventude. Tem uma biblioteca de referência que é a “Thiago de Melo”.

Qual o orçamento mensal da secretaria?

O orçamento inicial foi de R$ 4,6 milhões. Mas, para esses projetos maiores, levei pedidos ao prefeito. E acredito que pela sensibilidade que o prefeito tem para com essa área entenderá a importância dos projetos e vai ceder os recursos.

Em dois meses, o senhor teve muitos encontros com o prefeito? Qual é a sua relação com Amazonino?

A minha relação com o prefeito é a melhor possível. Foi uma surpresa no meio político a minha nomeação para esse posto. A relação que tenho com o prefeito começou em 2003. Ele não estava no poder. Existe uma diferença entre o ‘Negão’ e o Amazonino. Acabei conhecendo o intelectual.

Em que contexto os senhores se conheceram?

No dia aniversário dele. Até 2006, eu estava mergulhado no universo da comunicação comunitária. Nesse meio tempo, de 2000 a 2003, criamos um jornal chamado ‘A Marmota Jovem’. Era um jornal literário publicado mensalmente e que chegou na casa do Amazonino.

O senhor foi convidado por conta do jornal literário?

Foi... Acaba sendo um contraste falar de literatura no meio da Zona Leste onde a miséria e a falta de conhecimento, a criminalidade são elementos muito fortes. O jornal chamou a atenção dele, que me chamou para conversar na casa dele. E de lá começou uma relação.

Como é ter seis meses para executar tantas ideias?

Tem pouco tempo e ainda tem uma eleição no meio. Fico um pouco triste, porém, sei que um dia depois das eleições a gente poderá  tocar essas propostas até o final do ano.  A ideia é deixar um legado bacana para que os jovens, mas também os adultos, saibam o quanto essa secretaria é importante. Somos a terceira capital do Brasil a ter uma secretaria específica para cuidar da juventude. O prefeito tem um olhar preocupado e otimista em relação a essa temática.

O senhor vem da comunidade e se encontra no meio político. Qual será sua postura para evitar que a secretaria seja usada em campanha eleitoral?

Minha postura é bem tranquila em relação a isso. Primeiro, sei muito bem onde estou pisando, e o que estou fazendo. Acima de tudo sei da necessidade. Hoje esses projetos não estão indo para lá porque estamos na biqueira de uma eleição. Existe uma necessidade. Uma coisa é eu levar o projeto. Outra é eu dizer: ‘olha tu tem que votar‘. A turma não está mais assim.

Que indicadores o senhor tem para pensar assim?

Eu moro na Zona Leste e sei que as pessoas fazem julgamento precipitado em relação àquela região. Julgam a Zona Leste como se fosse assim: 'Ah, eu vou falar e eles vão obedecer'. A turma tem massa crítica. E, acreditando muito nisso, é que vou fazer o meu trabalho sem me preocupar com o que vão dizer. Quem pensa assim são aquelas pessoas que não sofrem com essa realidade.

Como o senhor vê as drogas em relação a juventude?

Essa é uma questão que eu durmo e acordo todo santo dia pensando. Na semana passada, fui ao velório de um conhecido de infância que foi morto porque era envolvido com o tráfico. Era um jovem de 21 anos de idade que teve a vida ceifada por acerto de contas, na segunda etapa do Jorge Teixeira. Sei que tenho pouco tempo, mas tenho uma missão a cumprir. Essa missão é mostrar, é levar um guia, um norte para aquela juventude.

Quais os caminhos foram escolhidos por seus amigos de infância?

A maioria dos meus amigos, da turma que cresceu comigo no Jorge Teixeira, que compartilhou comigo os melhores momentos da minha infância, ou está morta ou está no Puraquequara (no presídio).  Tem uns dois, três que conseguiram se salvar. Porque as oportunidades não existiram, porque opções não eram as melhores  e eles acabaram escolhendo o caminho mais fácil num ambiente que não tem quase nada. Eu acabei conduzido, por meio da Igreja Católica, a fazer um curso de Comunicação.