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Manaus
MEIO AMBIENTE

Todos os igarapés que cortam a cidade de Manaus estão poluídos, diz pesquisador

Informação foi dada durante o simpósio 'Igarapés de Manaus e Saneamento: Cenários e Perspectivas'; evento expôs mais uma vez o estado lastimável em que se encontra nossos cursos de água 22/08/2017 às 12:36
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Leito do igarapé da Matinha, na Zona Sul, tomado pela poluição. Foto: Márcio Silva
Silane Souza Manaus (AM)

Algumas nascentes estão protegidas, mas não tem um igarapé que corta a cidade de Manaus que não esteja contaminado. Mas a situação pode ser revertida, com investimento em saneamento básico e educação ambiental. Quem afirma é o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Sergio Bringel, um dos palestrantes do simpósio “Igarapés de Manaus e Saneamento: Cenários e Perspectivas”, realizado ontem pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM).

Para ele, fazer o tratamento adequado do esgoto, revitalizar – da nascente para a foz – e proteger os igarapés seria a solução para mudar o cenário dos nossos igarapés. “Saneamento não é gasto. É investimento. Se US$ 1 que você investe em saneamento, economiza US$ 7 na saúde, é viável ou não é? Outra coisa, todo esgoto pode ser reaproveitado. Pode fazer adubo e o líquido usar na irrigação. O Amazonas não tem fertilizante, mas a gente está jogando fora toneladas e gastando em saúde o que não era para ser gasto”, disse Bringel.

O pesquisador destacou que a capital só tem aproximadamente 10% de tratamento de esgoto e o que é coletado é lançado in natura na orla da cidade, o que contribui para a poluição dessas águas. “São lançadas no rio toneladas de excremento humano. Para que essa matéria orgânica seja oxidada ela vai consumir o oxigênio dissolvido, contido na água, a água ficando sem oxigênio vai ter mortalidade de peixe. E quando esse excremento não é tratado vêm junto com ele bactérias, fungos, protozoários, entre outros, então começa a aparecer as doenças”.

Ele lembra que crianças estão morrendo em Manaus com doenças de terceiro mundo por falta de saneamento básico. “O genes circulares vírus é um deles que está matando. É característico de países de terceiro mundo que não tem saneamento básico. Isso mostra que nós não temos saneamento. Coletar esgoto e jogar no rio não é saneamento básico. Saneamento básico tem que ter coleta, tratamento e descarte final, não tem tratamento, estão jogando no rio Negro para que ele possa fazer o tratamento”.

O catraieiro Vanildo Andrade da Costa, 70, chegou a passear pelo igarapé do São Raimundo quando a água era limpa. Hoje, ele ainda faz esse trajeto, mas lamenta o que encontra pela frente, tudo quanto é tipo de resíduos sólidos. “Na época da vazante é pior porque aparece mais lixo e a água fica com um odor muito forte devido à sujeira”, afirmou. “E este ano foi o ano que mais jogaram cadáver dentro do igarapé. Até ajudei a rebocar um defunto para a margem para o IML (Instituto de Medicina Legal) remover”.  

Para Sergio Bringel, todos têm certa responsabilidade pela atual situação dos igarapés de Manaus. As pessoas por fazer suas necessidades e jogar no igarapé, o poder público por não punir e deixar que elas façam isso e porque não dá educação adequada. “Tudo se resume numa palavra: educação”.

Metas e alternativas são debatidas

O simpósio “Igarapés de Manaus e Saneamento: Cenários e Perspectivas” é uma iniciativa do Ministério Público de Contas (MPC) junto com o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM). Começou ontem e segue até hoje com a participação de especialistas e agentes públicos debatendo metas e alternativas para os dois dos maiores problemas da capital.

De acordo com o procurador Ruy Marcelo, o simpósio é fruto de um evento realizado este ano na Semana do Meio Ambiente que mostrou o estado crítico de saneamento básico. Isso tornou claro a necessidade de promover mais debates sobre como reverter esse quadro.

“Manaus padece de saneamento, principalmente no setor de esgotamento sanitário, em razão disso há perigo para a saúde pública, que precisa ser enfrentado e elegermos como estratégia de enfrentamento as discussões com vários agentes públicos como esta em que reunimos a academia e os demais atores interessados para que todos juntos possam melhorar os esforços para modificar essa realidade”.