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Vidas marcadas pelo tráfico de drogas em Manaus

O aumento das ‘bocas de fumo’ em Manaus, que já passam de 300, é um dos fatores que contribui para as mortes precoces 04/08/2012 às 19:02
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Por não terem a responsabilidade penal de adultos, os adolescentes são mais usados em crimes e ficam expostos à violência
JOANA QUEIROZ E ANA CELIA OSSAME Manaus

O juiz da Vara da Infância e Juventude, Bismarck Gonçalves Leite, aponta alguns fatores já conhecidos para a causa das mortes precoces que estão acontecendo. A principal delas é o envolvimento cada vez mais cedo do jovem com drogas. Segundo o magistrado, há pelo menos 300 bocas de fumo espalhadas por Manaus.

Segundo ele, em decorrência da responsabilidade penal dos adolescentes ser diferente, eles são usados para execução de crimes, especialmente ligados ao tráfico de drogas, o que os coloca em situação de vulnerabilidade. Muitas vezes, o adolescente se sujeita a isso porque, em troca, recebe a droga para consumo próprio.

Segundo o magistrado, 90% dos procedimentos que chegam à vara estão associados ao tráfico de drogas. Ele relata que os traficantes estão investindo nos jovens tímidos, oferecendo gratuitamente a droga, para encorajá-los a fazer coisas que, sem estarem sob efeitos de entorpecentes, não conseguiriam. Depois que o jovem fica dependente, ele é cooptado para vender droga para sustentar o vício e, quando fica devendo, paga a dívida com a vida.

Bismark questiona a atuação da polícia, que não fecha as bocas de fumo que existem na cidade. Além da droga, os traficantes também fornecem as armas que são usadas pelos adolescentes para cometerem crimes, como assaltos e homicídio.

Estrutura familiar

A desintegração da família também é apontada pelo magistrado como um dos fatores que contribuem para a mortalidade entre os jovens. Ele diz que, diariamente, nas audiências que realiza, ele escuta das mães que elas não têm como acompanhar o comportamento dos filhos porque passam o dia fora de casa, trabalhando para sustentá-los, e não podem identificar as mudanças de comportamento deles. O resultado é que os pais perdem o controle sobre os filhos.

A omissão da escola também contribui para que o adolescente seja cooptado pelo traficante, afirma Bismarck. “As escolas não possuem nenhum atrativo para manter o aluno em suas dependências. Eles estão fugindo da escola e não querem mais voltar”, disse o magistrado.

Violência que começa em casa

O adolescente Deigleson da Silva, 15, engrossa a lista dos que tiveram a juventude interrompida tragicamente, em Manaus. Ele foi assassinado com um tiro no peito pela própria mãe, a cozinheira, Dacirlei  Santos da Silva, 40, no dia 26 de julho.

O crime ocorreu dentro da casa de madeira, localizada no beco Novo Israel, às margens de um igarapé, no bairro Santo Agostinho, Zona Oeste, onde Dacirley morava com dois filhos adolescentes, Deiglesson e outro, de 17 anos.

A tragédia aconteceu porque, enquanto arrumava o armário do filho, a mãe encontrou, em uma de suas gavetas, um revólver calibre 38 e uma porção de droga. Ao pedir explicações, ele teria se alterado com ela e tentado  tirar a arma das suas mãos.

Durante a discussão, o revólver disparou. Uma vizinha disse ter encontrado a mãe desesperada com o filho no colo, pedindo para ele não morrer. Ela foi presa e encaminhada para a cadeia pública Raimundo Vidal Pessoa.

 Vítimas da falta de apoio às famílias

A falta de estrutura familiar dos jovens vítimas de mortes violentas é outro fator que contribui para o crescimento dos crimes envolvendo essa faixa etária. Deigleson Silva, morto acidentalmente pela mãe, é um exemplo disso.

Vizinhos  contaram ainda que Dacirley, mãe do garoto, foi abandonada pelo pai dos filhos e teve que trabalhar fora de casa desde quando eles ainda eram crianças. Os meninos ficavam só em casa e passavam a maior parte do tempo na rua. Aos 12 anos, Deiglesson começou a usar drogas e, aos 15, ele já tinha abandonado os estudos e estava traficando.

A mãe se preocupava com o bem estar dos filhos, mas perdeu a autoridade por ser alcoólatra, contaram vizinhos.

Na delegacia, Dacirley disse que Deigleson era o filho que ela mais amava e ameaçou se suicidar caso ele morresse. Para a delegada da Seccional Oeste, Suely Costa, a droga, mais uma vez acabou com uma família, já que, com Dacirley presa e Deiglesson morto, o irmão dele, de 17 anos, ficou sozinho.