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Parintins
CUNHÃ-PORANGA

Marciele Albuquerque: superando adversidades para brilhar de azul

A cênica tribal, a firmeza coreográfica e o pajé interno da estreante como cunhã-poranga do Caprichoso 26/06/2017 às 13:40
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Expressões faciais fortes e dança envolvente são características de Marciele (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Laynna Feitoza Parintins (AM)

Passos fortes e olhar compenetrado. A cênica de índia guerreira não nega a capacidade de Marciele Albuquerque, 23. Sua história no Boi começa quando ela, nascida em Juruti (PA), muda-se para Manaus, aos 17.

“Meu sonho era estudar em Manaus, fazer minha faculdade de Administração por não ter oportunidades em Juruti. E eu queria entrar no Boi, tinha esse sonho de dançar boi. Desde então, entrei já sendo substituta de porta-estandarte, de cunhã-poranga, de rainha... eu servia para tudo no Caprichoso”, diz ela. A paixão pelo mundo bovino aumentou.

No Corpo de Dança do Caprichoso, Marciele teve várias oportunidades: foi para a Arena, foi bailado de sinhá, bailado de pajé, foi de tribo, fez parte da alegoria, foi folha na alegoria, foi árvore... o que faz o gosto da Arena ser bem mais diferente este ano. “Vai ser diferente porque eu venho como cunhã-poranga”, diz. O festival de sua cidade-natal, aliás, foi quem mais lhe deu asas para voar. “Participei desde criança. Desde que lembro da minha vida, lembro da tribo Munduruku”, coloca ela.

Sua entrada no Boi Caprichoso, porém, foi conturbada. Eleita legitimamente, Marciele foi alvo de críticas de torcedores que defendem itens exclusivamente parintinenses. A comoção foi tanta que até membros do Boi Garantido defenderam a permanência da moça no cargo. “Minha entrada foi conturbada, mas eu sempre tive uma coisa muito forte, que é meu amor pela dança, pelo boi. Então eu conquistei minha nação e a torcida do contrário pela dança, meu carisma, e pelas pessoas que conhecem minha história como dançarina”, pondera Albuquerque.

Após conquistar a torcida, as qualidades da cunhã-poranga se tornavam mais visíveis aos olhos do público. Uma delas é a capacidade de expressar o que é uma índia da Amazônia, como poucas, em suas expressões faciais e dança. “Não estudei nada, é muito natural. Como danço no Munduruku desde criança, eu me envolvo muito com a letra da toada. Se ela fala de uma mulher guerreira, viro uma mulher guerreira. Eu viajo, entro na história. Se eu sou a índia Conori, vivo a Conori. Isso não muda, continuo com a força, a garra e os passos fortes”, diz ela.

Questionada sobre qual seria a sua guerreira favorita da mitologia indígena, Marciele revela que, na verdade, este trata-se de um guerreiro. “Eu sou apaixonada pelo pajé. Então agradeço a Deus por ter a oportunidade de ser um pajé como alguns falam (por conta da cênica similar), e ter a oportunidade de conseguir ser a cunhã-poranga também. Olha que legal a cunhã e o pajé ao mesmo tempo na linha (risos)”, ressalta ela, lembrando que o primeiro pré-festival como cunhã tem sido a rotina mais louca de sua vida.