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Editorial

Ribeirinhos abandonados

19/03/2017 às 20:56
Show ribeirinhos

Se morar na capital não é garantia de acesso à saúde, escolas e outros serviços públicos, a situação torna-se muito mais complicada em municípios do interior, e pior ainda nas comunidades rurais. Não muito longe da capital, no meio do caminho entre Manaus e a sede de Iranduba, famílias de produtores rurais sentem essa dificuldade na pele todos os dias.

Os moradores da comunidade Santa Helena do Inglês, por exemplo, sonham com o básico: barcos para levar as crianças à escola, atendimento médico e coleta de lixo; são serviços fundamentais que fazem parte do mínimo para viver com dignidade, mas que ainda estão fora do alcance dos comunitários. 

Os ribeirinhos são uma parcela significativa da população amazonense. Praticamente a metade dos habitantes do Estado vivem em comunidades à beira dos rios, fora das sedes municipais. No entanto, o tratamento a eles dispensado está muito longe de ser o ideal. Isolados pelas grandes extensões de rios e floresta, são comunidades cuja voz é pouco ouvida. Políticos surgem por lá a cada quatro anos, levando promessas e pedindo votos. Depois desaparecem até as eleições seguintes.

É fato que levar serviços públicos às famílias das comunidades rurais constitui desafio imenso, ainda mais em tempos de escassez de recursos, mas é algo que deve ser enfrentado e superado pelos governos. Uma alternativa seria a parceria com organizações não governamentais. Há alguns exemplos de sucesso. Comunidades do oeste do Pará, por exemplo, recebem atendimento médico e apoio educacional do Projeto Saúde e Alegria, que é financiado com recursos externos, e atua na região há décadas.

Essas parcerias, no entanto, como tudo no serviço público, precisam ser imbuídas de máxima seriedade e transparência para evitar que se tornem apenas canais para desvio de dinheiro. Se feitas de forma correta, sem corrupção ou qualquer tipo de ilicitude, a qualidade de vida nas comunidades teria um importante avanço, a demanda nas unidades de saúde da capital e das sedes municipais cairia, desafogando a rede e consumindo menos recursos.

Em comunidades como Santa Helena do Inglês, os moradores não se sentiriam pressionados a se mudar para a capital em busca de melhores condições de vida. Qualquer que seja a solução, ela precisa vir rápido. Os ribeirinhos precisam ser vistos e ouvidos. Os direitos garantidos pela Constituição valem para eles como para quaisquer cidadãos.