Iniciativa mobiliza entidade de fomento à pesquisa no Distrito Federal, empresa europeia e Universidades do Brasil, Espanha e Reino Unido.
A missão é liderada pelo professor Renato Alves Borges. Na foto, ele apresenta a trajetória dos projetos espaciais da UnB para os alunos do curso de Veículos Espaciais no campus de Ourense, da Universidade de Vigo, na Espanha. (Foto: Manuel Diz-Folgar/UVigo)
Sob a liderança do pesquisador Renato Borges, membro do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos) e professor da Universidade de Brasília (UnB), um grupo de cientistas brasileiros avança em uma das mais promissoras iniciativas de monitoramento ambiental do país.
Trata-se do Projeto Perception, uma plataforma espacial que alia hardware e software de ponta para mapear e analisar, em tempo real, áreas críticas dos biomas do Cerrado e da Amazônia.
Mais do que simplesmente detectar alterações climáticas ou degradação do solo, o sistema promete fornecer dados estratégicos que podem embasar políticas públicas voltadas à preservação ambiental e ao desenvolvimento socioeconômico sustentável das regiões monitoradas.
Professor Renato Alves Borges e o engenheiro Ignacio Gonzalez-Rua durante demonstração tecnológica ponta a ponta de solução de coleta de dados para o Perceive, semelhante à utilizada na missão AlfaCrux.
Integrando sensores terrestres, comunicação via satélite, gêmeos digitais e modelos de inteligência artificial preditiva, o Perception opera com uma cadeia de dados robusta capaz de captar, processar e interpretar informações ambientais de forma contínua e automatizada. A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, a missão se expanda para outras áreas sensíveis do território brasileiro, como biomas adicionais, zonas costeiras, regiões de fronteira agrícola e áreas de risco geológico e climático.
“No longo prazo, a missão poderá ser expandida para fazer a varredura de outros biomas, zonas costeiras, áreas de risco e fronteiras agrícolas tidas como relevantes pelas autoridades”, projeta Borges. Ele destaca ainda que o projeto se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU, especialmente no enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas.
Além da questão ambiental, a iniciativa também tem potencial para impactar positivamente outros setores, como a gestão agrícola, o uso eficiente de recursos hídricos e energéticos e a prevenção de desastres naturais. A entrega de informações em tempo real permite intervenções mais rápidas e eficientes, com impactos diretos tanto no planejamento territorial quanto na formação acadêmica e científica.
O satélite Perceive na plataforma FlatSat composto por um computador de bordo e sistema de telemetria e telecomando TRISKEL, um sistema elétrico de potência, e duas cargas úteis Totem, que são rádios definidos por software.
O projeto Perception dá continuidade à experiência adquirida com a missão AlfaCrux, nanossatélite desenvolvido pela UnB que esteve em órbita entre 2022 e 2024. Além de coletar dados ambientais, o AlfaCrux capacitou 30 pesquisadores brasileiros em tecnologia espacial. Atualmente, os trabalhos são conduzidos no Laboratório de Simulação e Controle de Sistemas Aeroespaciais (LODESTAR), na Universidade de Brasília.
A equipe de Borges conta com a colaboração da empresa espanhola Alén Space e com parcerias acadêmicas das Universidades de Vigo (Espanha) e de Nottingham (Reino Unido). A sinergia entre essas instituições já resultou em missões conjuntas, intercâmbios acadêmicos e pesquisas aplicadas em áreas como engenharia espacial, comunicação satelital e sustentabilidade ambiental.
O Perception também recebe apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), que investiu R$ 1,5 milhão no projeto por meio do edital Learning Tech. A mesma fundação já havia financiado parte das ações do AlfaCrux.