Terça-feira, 25 de Junho de 2019

Abram as asas sobre nós!

*Por Ivânia Vieira, professora da Ufam e articulista de A Crítica (e-mail: ivvieira@uol.com.br)


05/06/2019 às 08:33

O silêncio está desorientado. O que fazer sem as perturbações terrenas de Joaquim Marinho e de Almir Graça. Cada um, ao seu modo, costumava enfrentar os silêncios notadamente aqueles impostos como parte da ordem e do progresso de uma banda só. Até quando silenciavam faziam barulho tamanha a inquietação moradora nas mentes e corações desses dois.

E foram embora. Os corpos enterrados com um dia de diferença. Os espíritos, ah, estes estão soltos por aí. Na noosfera depois das passagens marcantes pela atmosfera, geosfera e biosfera. Se aqui na terra tem um sentimento estranho, uma sensação de que falta alguém nessa conversa, nas outras instâncias da vida há sinais de festa. Talvez, Beth Carvalho já tenha programado uma roda daquelas para todos se reunirem e fazer balbúrdia cultural da melhor qualidade.

Tomara possamos ser conectados por essa roda criativa e insubordinada, reanimadora dos espaços interplanetários e, sobre nós, respinguem a energia das artes – uma das mais belas expressões de liberdade. O Brasil de agora necessita, urgentemente, da interlocução contemporânea com os marcianos para enfrentar a asfixia da qual estamos sendo vítimas cotidianas. Joaquim Marinho e Almir Graça descansem, mas não muito. Agitem por nós, nos ajudem a fazer chover incomodação cultural na pátria dos discursos isolacionistas e do ódio como regra de vida.

Por aqui existem tarefas deixadas por vocês. Que as poesias se multipliquem e sejam espalhadas, gerem livros nas diferentes plataformas. E as palavras sigam livres e libertárias, feitas arco-íris; A Casa de Cultura pode ter porta mais larga, crescer como instrumento de reativação da curiosidade em conhecê-la. Os estudantes, os jovens, os adolescentes e as crianças poderão ser atraídos às performances balburdiantes e descobrir possibilidades várias de produzir bens culturais no Amazonas. E os idosos, ignorados em suas sabedorias, reinventem estripulias amazônicas.

Afinal, o que vale a pena nesta vida? Se não é o viver como sujeito ativo, inquietado. No registro dessas duas existências tem uma marca, a de não se curvar ao autoritarismo. E um sinal, o da paixão pela arte. Paixão colecionada e entremeada de amor porque entre os atos de arroubos resistiam as tentativas de diálogos, de construção de solidariedade e de um olhar crítico sobre as naturalizações do que não deveria ser natural no mundo.

Joaquim Marinho e Almir Graça plantaram sementes em Manaus. A cidade-abrigo espera que as águas do rio Negro, fartas nesses dias, se encontrem com as águas das chuvas e combinadas com o sol fertilizem esta terra de tantas culturas invisibilizadas.


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