Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Acabou-se o que era doce: A Selic foi mantida em 6,5%

Por Fabio Calderaro


20/05/2018 às 12:52

Depois de um longo ciclo de cortes, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa de juros em 6,5%. A Selic segue no menor nível da história, mas sinaliza que o afrouxamento monetário pode ter chegado ao fim.

A decisão do Copom foi de encontro com a expectativa generalizada dos economistas e dos analistas de mercado, que previam mais um corte da taxa para 6,25%. E não era para menos:  o próprio presidente do Banco Central, em entrevista semana passada, foi muito enfático quanto ao foco da política monetária em ancorar as expectativas de inflação, dando a entender que não enxergava riscos no front dos preços. Dada a alta credibilidade de Ilan Goldfajn, os mercados fizeram uma aposta firme na queda da Selic.

É fato que o Presidente do Banco Central e sua equipe seguem muito atentos aos dados de inflação e buscam sua convergência para ao centro da meta. Em 12 meses, o IPCA acumula apenas 2,76%. Além disso, o hiato do produto segue alto, o que demonstra que a recuperação da atividade econômica será mais lenta do que foi projetada anteriormente. O último relatório FOCUS, inclusive, já revisa as projeções do PIB de 2018 para baixo.

Ademais, o Banco Central conseguiu conter a inflação de serviços, que começou o ano acima de 6% e caminha para cerca de 3% ao final do ano. Por tudo isso, o Banco Central poderia ter promovido a queda de 0,25 ponto percentual na Selic, mas, como dizem os jovens de hoje, “só que não (#sqn)".

É interessante, portanto, notar que a divergência entre o que aponta a curva de juros e o consenso dos economistas em relação à decisão revela muito da natureza específica do que foi decidido pelo Copom. A economia americana aquecida e a pleno emprego, as incertezas geopolíticas, o embate comercial entre China e Estados Unidos e a normalização da política monetária dos países ricos tornaram o ambiente externo mais volátil e desafiador. 

A expectativa de elevação da inflação e dos juros nos EUA, acima das previsões de mercado, justificam o menor apetite por ativos de países emergentes e a consequente fuga de capitais para os EUA.  Tudo isso provoca uma mudança de patamar para a taxa de câmbio. Nesta quinta-feira, o dólar atingiu os R$ 3,70 durante o pregão e dificilmente voltará a cotação de R$ 3,15 de janeiro.

Vale lembrar que, desde o início do ano, o custo de capital de longo prazo no mercado internacional, medido pelo retorno dos títulos do Tesouro americano de dez anos, subiu de 2,65% para 3% e que o diferencial de juros para um ano entre o Brasil e a economia americana reduziu-se em um ponto percentual (de 4,7% para 3,7%). Essas variáveis impactam sobre o risco Brasil, pois os prêmios pagos pelos títulos brasileiros ficam relativamente menos atrativos quando comparados aos mais seguros títulos americanos. Caso houvesse um novo corte da Selic, nesta última quarta-feira, essa diferença seria ainda menor, fato este que poderia provocar o aumento da busca pelos títulos do Tesouro americano, a consequente intensificação da desvalorização do Real e o comprometimento das expectativas de inflação.

Contudo, a boa notícia é que, mesmo com a pausa nos cortes antes do esperado, a taxa básica de juros atingiu patamar inédito e, desta vez, de forma sólida. Ainda que parte do relaxamento monetário seja temporário, devendo se reverter quando a inflação estiver convergindo para a meta, há boas chances de a taxa Selic não mais voltar a dois dígitos.

Como não contamos mais com o benigno cenário externo e não aproveitamos fazer as necessárias reformas quando o mundo nos favorecia, cabe somente a nós a missão de mantermos os juros permanentemente mais civilizados, o que poderá ser um importante gatilho para uma transformação no País.

Para tanto, precisamos encarar com seriedade nosso maior problema macroeconômico e seguir com a agenda do ajuste fiscal, ainda que com pautas impopulares, e que tem como espinha dorsal a reforma da previdência. Só assim poderemos diminuir a influência da chamada dominância fiscal sobre a política monetária.

O Brasil poderá surpreender positivamente se caminhar direito. Usando do dialeto economês, se fizermos as reformas necessárias, caminharemos para o ramo mais elástico da curva de demanda por investimento. A torcer para que, com próximo presidente, possamos avançar.


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