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As cinzas amazonenses

Por: Robério Braga 04/09/2018 às 09:23 - Atualizado em 04/09/2018 às 09:24
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Cinzas tomaram conta do Museu Nacional: a alma brasílica das amazonas está ferida profundamente. Foto: Carl de Souza/AFP

 

Sofrendo com as incomensuráveis perdas provocadas pelo desastroso incêndio que consumiu praticamente vinte milhões de peças do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, cujas causas imediatas, além da incúria de governantes federais, do descaso de empresários desinteressados na cultura nacional e desleixo de alguns administradores da instituição, só poderão ser examinadas com clareza após o rescaldo e as perícias necessárias, se é que conseguiremos saber e que confiaremos nos resultados apresentados.

Ainda sob esse impacto, cedo do dia de ontem despertei para lembranças antigas que ressuscitaram a existência de peças amazonenses depositadas no referido Museu. Pouco depois desse estalo de memória, as redes sociais fizeram circular notícia dessa possibilidade. Pelo sim pelo não, o que posso afirmar é que boa parte do resultado da honrosa visita e das notáveis pesquisas de Gonçalves Dias em Manaus e no interior amazonense no distante 1860-61 estava depositada no Museu Nacional, e havia sido enviada para a sede do Governo Imperial também como prova do cumprimento da missão para a qual o grande poeta foi enviado pelo Imperador.

Essa hipótese, praticamente certa, aumenta a dor e a desesperança. De Gonçalves Dias já não temos mais a casa que foi sua residência na capital amazonense situada na Rua do Barroso, destruída há muitos anos. Era vizinha, em parte, do lugar que se transformou em estacionamento de casa bancária. Na mesma casa, no começo dos anos 1900, residiu minha mãe, ainda menina pequena, ao chegar do Recife com a família. Era casa de porta e duas janelas, simples, baixa, modesta, com frente para a Biblioteca Pública. Dele perdemos grande parte das coleções selecionadas em várias pesquisas e que foram levadas para o fundo do mar quando do naufrágio que ceifou a vida do poeta.

E agora, perdemos (parece que estamos na casa do sem jeito), o restante das coleções de documentos, relatórios, registros de vida do interior, armarias, adornos indígenas do Rio Negro e do Rio Solimões, marcos da nossa identidade mais expressiva, reunidos pelo próprio escritor para mostrar em Exposição de 1861, agora, possivelmente, consumidos pelo fogo da irresponsabilidade.

Restam apenas os relatórios administrativos que estão publicados em anexo aos documentos dos presidentes da Província do Amazonas e, quem sabe, alguns outros originais nos arquivos da Biblioteca Nacional, do Arquivo Nacional ou em mãos de algum colecionador. O que foi remetido ao Imperador e depositado no Museu Nacional, sem que tenha sido devidamente estudado à luz da ciência contemporânea, perdeu-se, roubaram do futuro, viraram cinzas de dor e saudade para os pesquisadores de todas as línguas e nacionalidades interessados na apreciação da verdade histórica de povos tradicionais do Amazonas.

Estaria lá o manto doado pelo Amazonas e elaborado pelos indígenas para a coroação do Imperador? Precisamente aquele que chegou ao poder imperial bem antes do poeta maranhense visitar o Amazonas. Estariam por lá os adornos de bico de tucano e espelhos, as armarias reunidas em forma de troféu que assombraram o presidente Carneiro da Cunha quando tomou conhecimento da quantidade e bela variedade de peças? Estariam nos arquivos do Museu os mais de 50 volumes de documentos, anotações, desenhos, memórias, estudos e registros variados da forma de ser, viver e conviver das populações naturais da nossa terra identificada pelo nobre maranhense-brasileiro? Os estudos e anotações que davam conta dos produtos regionais e sua qualidade como tabaco, salsa, anil, guaraná, seringa, caruru, ovos de tracajá e tartaruga e a tradicional farinha de mandioca, por exemplo. E as peles de animais silvestres, as de peixe-boi, de veado, boi, cabra, garrafas de cumatê (tinta), crajurá (tinta), mexira de peixe-boi, cascos de tartaruga, uru, copaíba, breu natural, cigarros de tauari, cera de embaúba, manteiga de cacau, talo de miriti, perfumador de barro, colher de pau, trabalhos manuais da primeira professora do Amazonas, dona Libânia Rodrigues Ferreira, raízes, fumo de Borba... e muito e muito mais.

O que sabemos é que tudo aquilo ou grande parte daquilo que teria sido remetido ao governo imperial em 1861 pelo presidente da Província do Amazonas e diretamente pelo próprio Gonçalves Dias naqueles anos longínquos, estava depositado no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, de saudosa memória.

A alma brasílica das amazonas está ferida profundamente.