Terça-feira, 14 de Julho de 2020

Aulas em tempo de quarentena

Por Lourenço Braga / Projeto de teleaulas permitiu que a UEA se transformasse, ainda no seu segundo ano de funcionamento, na maior universidade multicampi do País


26/06/2020 às 19:56

A velocidade de contaminação do novo corona vírus e a precariedade dos meios de que dispunham os que se dedicam, sempre com desvelo, ao sistema de saúde, fez pacto mudo entre  Ciência e o Estado e homens e mulheres passaram a ser incentivados, com insistência jamais vista, a permanecerem reclusas em suas próprias casas, em isolamento social, ao viso de diminuir, tão drasticamente quanto possível, a possibilidade de avanço da doença. Para isso, uma das primeiras medidas foi suspender atividades que gerassem aglutinação de pessoas, assim em ambientes de trabalho como em lugares de estudo. Home office, teleconferência, redes sociais, contatos diretos por celular, tudo isso passou a compor o dia-a-dia de muitos e a suspensão das aulas, nos diferentes níveis de ensino, acabou por conduzir a tentativas de utilização da educação à distância, com ou sem adendos, objetivando diminuir a perda de tempo de formação para os alunos.

O modelo buscado remeteu-me a grande desafio imposto à Universidade do Estado do Amazonas, a nossa UEA, no primeiro ano de seu funcionamento. Secretário de Estado de Administração e Presidente da Comissão Estadual de Licitação, fui convocado pelo governador Amazonino Mendes para exercer, desde o primeiro dia, a reitoria da novel instituição de ensino que chegou a realizar, em maio daquele ano, o maior concurso vestibular do País, com mais de 180.000 concorrentes. Criada em fevereiro e com aulas que se iniciaram em 5 de agosto em Manaus, Parintins e Tefé, a UEA precisava proporcionar, segundo diretriz do Governo, a graduação de professores de 1ª a 4ª séries do primeiro grau, hoje 1º a 5º ano do ensino fundamental I, por exigência de lei federal até o final da chamada Década da Educação, em 2007. E isto se reportava a mais de 10.000 professores em todo o Estado.

Constituí grupo de assessores incumbido de programar curso de Pedagogia, ou Normal Superior, com a maior abrangência possível e o projeto que recebi contemplava 3.500 alunos-professores em formação em Manaus e mais 9 municípios do Interior. Não era possível ir além por falta de professores – doutores, mestres e especialistas – em quantidade suficiente para deslocar a mais municípios, além do alto custo em que isso importava. Impossível atender à demanda, visto que o curso não se poderia desenvolver em menos de oito semestres de aulas e o tempo disponível era pouco mais de um lustro.

Fui conhecer, então, na companhia do professor e assessor Jorge Smorigo, experiência que um professor desenvolvia em Palmas, capital de Tocantins, utilizando a televisão como veículo de transmissão de aulas ministradas em pequeno estúdio que instalara. Uma semana depois, estávamos no Rio de Janeiro, em contato com a Fundação Getúlio Vargas e com a ex coordenadora de programa que se denominara telecurso de 2º grau, de emissora brasileira. Deixei com a equipe as diretrizes do que se pretendia e no final de setembro recebi projeto de formação de professores que não atenderia somente aos 3.500 do curso presencial senão que a mais de 10.000 professores-alunos de Manaus e de todos os 61 municípios do Interior do Amazonas. E também importante, com o que imaginamos era possível investir R$ 54 milhões em lugar dos R$ 78 milhões com que se realizaria o curso presencial, com uma clientela três vezes superior.

Em novembro realizamos o vestibular e a 5 de janeiro de 2002 foi proferida a aula inaugural do maior projeto de formação de professores da história do Amazonas, com mais de 7.700 alunos em 154 salas de aula de todos os municípios hinterlandinos e mais de 2.500 em Manaus.

A novidade era de todo desafiadora. Em cada escola que o programa passou a utilizar, nas férias escolares, foi instalada uma antena parabólica para receber sinal de televisão por via de uma banda de satélite que a Universidade alugara da Embratel e em cada sala de aula monitor de tv, computador com bateria de suporte e telefone que se comunicava com call center instalado em Manaus para perguntas e respostas entre os agentes do processo. Em cada escola, um gerador de energia, para suprir as constantes quedas de fornecimento. Aqui, no edifício Samuel Benchimol, um estúdio de televisão com os equipamentos mais modernos da época permitia a transmissão, em tempo real, para todo o Estado de aulas que eram ministradas por um grupo de cinco professores, doutores ou mestres, para cada disciplina, com a orientação, em cada sala, de um professor-assistente, especialista  convenientemente treinado no modelo. A este competia, também, a coordenação das atividades de dinâmica de grupo programadas pelos doutores que se revezavam aqui a cada 30 minutos das aulas que se desenvolviam das 8 às 12 e das 14 às 18 horas, de segunda a sábado, no período de férias escolares, em  janeiro, fevereiro e julho, portanto. Além disso, biblioteca especializada criada em cada escola, com livros em quantidade proporcional à de alunos por município, e textos de apoio de cada assunto e de cada disciplina, distribuídos com regularidade a todos os alunos.

Tratando do tema, o professor Valmir Albuquerque, ex-reitor da UFAM explicou que o PROFORMAR teve o mérito, dentre muitos, de permitir que aproximadamente 10.000 alunos recebessem ao mesmo tempo aula de igual teor, ministrada pelo mesmo professor, como uma turma única, a maior de que se tem notícia até hoje, além de permitir a ministração de todas as aulas previstas e de todo o conteúdo programático estabelecido, conjunto do qual resultou extraordinário índice de aproveitamento no processo ensino-aprendizagem. E mais: ao final, exigiu-se a realização de estágio – de que me ocuparei em outra oportunidade – e a apresentação e validação de monografia para obtenção da graduação.

Foi assim que em 2005 presidi, na presença do governador Eduardo Braga, a formatura de 7.357 alunos-professores de todos os municípios do interior do Amazonas, com entrega de diploma a cada formando em solenidade conduzida por representante da UEA na localidade, praticados todos os atos protocolares pertinentes. Logo em seguida, graduaram-se os de Manaus. E a eminente doutora Marilene Correia, segunda reitora, extraordinária educadora e socióloga respeitada além-fronteiras, deu sequência à formação da segunda turma, desde 2007. 

Foi esse modelo,  várias vezes premiado, inclusive pela UNESCO,  que permitiu que a UEA se transformasse, ainda no seu segundo ano de funcionamento, na maior universidade multicampi do País e que garantiu a realização de vários outros cursos, como a graduação de 930 cientistas políticos em 13 municípios, ou a graduação em Ensino da Matemática para suprir lacuna histórica na nossa educação, para ficar em apenas dois exemplos. Hoje, o modelo é utilizado em larga escala, com a modernização exigida.

Anos depois, assessor do professor Carlos Eduardo Gonçalves, pró-reitor de Ensino de Graduação, o professor Gedeão Amorim foi nomeado Secretário de Estado de Educação e implantou o modelo do PROFORMAR, com novas tecnologias então disponíveis, para formação de alunos do ensino médio de escolas da zona rural do Interior.

A diferença para o que agora se fez, em tempo de isolamento social, está em que no PROFORMAR e na formação regular feita pela Seduc na zona rural os alunos foram e são concentrados em escolas, em salas de aula, dotadas de equipamentos de transmissão de ida e volta, enquanto a conhecida educação à distância exige de cada aluno, em sua própria casa, celulares, tablets ou computadores, todos com acesso seguro à internet, o que, sabemos, infelizmente ainda constitui objeto de sonho luxuoso para a grande maioria. A utilização de canal aberto de televisão também não garante a universalização desejada, visto como o sinal ainda não é captado em todos os municípios do Interior.

Uma pena, porque a equipe de técnicos da Secretaria de Educação de nosso Estado é de altíssima qualidade, nada ficando a dever aos melhores centros especializados, como várias vezes proclamei quando estive a dirigir aquele órgão.   Eis o primeiro grande desafio do novo Ministro da Educação.


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