Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Como o protecionismo de Trump afeta os EUA e a economia brasileira?

Por Fábio Calderaro


19/03/2018 às 10:33

No dia 8 de março, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou o ato que estabelece tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados ao país. A barreira é o mais agressivo passo dado por Trump até agora na implementação da retórica protecionista que adotou durante a campanha eleitoral.

O presidente americano assinou as tarifas com base numa lei de 1962, ainda da Guerra Fria, que dá a ele a prerrogativa de estabelecer proteções comerciais com base na segurança nacional. Em tese, a importação de aço e alumínio reduziu a capacidade siderúrgica nacional, fato este que ameaça a indústria de defesa dos EUA. Mas o próprio mandatário deixou claro que suas maiores preocupações são com a perda dos empregos na indústria de base e principalmente com os déficits comerciais.

Está claro que o país não mais consegue honrar com o tratado de Bretton Woods e com os acordos do pós-Segunda Guerra, por meio dos quais os EUA seriam os “consumidores de última instância", puxando, assim, a demanda agregada global.  A verdade é que a América não é grande suficiente para absorver a oferta da China, a partir da sua entrada na OMC (Organização Mundial do Comércio).

Com a medida, Trump afronta mais de 200 anos de literatura sobre comércio internacional, vantagens comparativas e sobre os efeitos da especialização para o aumento da produtividade geral dos países, com uma política protecionista de fazer inveja aos malsucedidos modelos desenvolvimentistas adotados por Geisel e, mais recente, por Dilma Rousseff.

Não que políticas de proteção industrial não devam ser usadas sob nenhuma hipótese. A questão é como e para que adotá-las. Aliás, diferente dos que muitos pensam, os EUA nem sempre foram um país liberal. Práticas protecionistas existem por lá há, pelo menos, 230 anos, mas com o objetivo de catapultar a indústria infante de maior complexidade e valor agregado. Foram amplamente adotadas por Alexander Hamilton, gestor de política industrial no final do século XVIII, para proteger e alavancar a nascente indústria naval dos estados do norte, uma vez que, até então, o motor da economia americana era a produção do algodão pelos estados do sul.

Acontece que o protecionismo latino de Trump é uma espécie de "política hamiltoniana" às avessas, pois interfere negativamente no processo de destruição criadora. A América não se transformou na potência que é mantendo mão de obra ocupada em indústrias cuja produção pode ser feita fora. Ao contrário, aquele país vem se beneficiando das vantagens comparativas para consolidar-se na liderança de setores muito mais complexos, graças à possibilidade de comprar produtos menos sofisticados no exterior.  A indústria pesada é parte do passado nos EUA. Ela deveria ser deixada a cargo de países da “periferia tecnológica”. O negócio dos EUA é alta tecnologia, bioquímica, microbiologia, robótica, nanotecnologia, informática, serviços financeiros.

Ademais, os EUA não produzem aço e alumínio suficientes para atender à demanda interna. Os setores de construção, metalurgia, automóveis, aviões, eletrodomésticos, petrolífero podem ser afetados pelo aumento do preço da matéria-prima. Inclusive com o ônus de provocar desemprego desses setores de maior complexidade. Sem contar que as tarifas certamente serão repassadas ao consumidor, com aumento de preços de produtos finais.

Basta olhar um pouco para o passado. Em 2002, George W. Bush tentou instituir tarifas sobre produtos siderúrgicos. A indústria aumentou o preço do aço doméstico, mas não houve, contudo, um impacto positivo no emprego. No entanto, as indústrias consumidoras de matéria-prima demitiram mais de 200 mil pessoas por conta do aumento de preços. Isso representa mais trabalhadores do que havia em toda a indústria siderúrgica, cujos empregos as tarifas pretendiam proteger.

A medida, que só exclui Canadá e México, membros do NAFTA, também pode gerar uma guerra comercial global: a União Europeia já ameaçou retaliar produtos americanos. Além do comércio, a decisão já teve consequências políticas na própria Casa Branca, como a saída de Gary Cohn, principal assessor financeiro de Trump. Sem contar que colocar tarifas sobre aliados militares pode criar outros problemas de segurança nacional.

O Brasil deverá ser um dos países mais afetados pela medida, já que é o segundo maior fornecedor de aço ao mercado americano. Só no ano passado, exportamos 5 milhões de toneladas aos EUA, por um valor de US$ 2,5 bilhões. Nossa indústria siderúrgica emprega cerca de 100 mil pessoas.

Para evitar graves prejuízos às exportações do país, no emprego e um impacto significativo nos fluxos bilaterais de comércio, o Brasil precisa levar a questão à OMC. Argumentos não faltam. As exportações nacionais são de aço semiacabado, que é processado e finalizado pelas siderúrgicas americanas. Além disso, o Brasil é o maior importador de carvão dos EUA, produto usado na fabricação de aço.

Outro ponto sensível para nós é que o consequente movimento de alta da cadeia produtiva gere pressões inflacionárias e leve o FED, Banco Central Americano, a subir os juros acima das quatro altas já esperadas pelo mercado. Se isso acontecer, deve haver uma corrida de capitais de países emergentes, incluindo o Brasil com sua complicada situação fiscal, em busca dos títulos de dívida americana.

O que Trump faz com essa medida extemporânea é atrasar a economia do país e gerar uma guerra tarifária com importantes parceiros comerciais, como o Brasil. É óbvio que se trata de uma decisão populista e que visa tão somente atender ao Cinturão da Ferrugem, onde tem significativo eleitorado. Como um caudilho populista latino-americano, Trump toma decisões que não se preocupam com o longo prazo. Para ele, os dados, a realidade e as consequências não importam. O que vale é a narrativa. Aliás, um modus operandi de fazer inveja a Perón, Cárdenas, Velasco Ibarra ou Vargas.


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