Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

E Pedro disse... 'é uma bomba relógio'

Em 2015, ex-SMTU previu que o sistema de transporte público de Manaus, refém de dívidas milionárias e com uma frota que só envelhece, entraria em colapso


13/03/2017 às 15:31

Por Luciano Falbo

Há dois anos, o então titular da Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) Pedro Carvalho afirmou, em um aparente ato falho, que “o sistema de transporte coletivo de Manaus é uma bomba-relógio”. “Qualquer momento pode parar tudo”, arrematou Carvalho.

A frase dita durante uma audiência pública sobre o Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob) da cidade me chamou a atenção pela espontaneidade com a qual surgiu e como ela passou despercebida por representantes de diversos órgãos públicos e da sociedade civil organizada. A impressão que fiquei foi a de que tal afirmação não passou de um momento de desabafo ou mesmo um “descuido” do pressionado superintendente, que após isso retomou o discurso burocrático e cheio de justificativas para o atraso na apresentação no PlanMob.

Ao fim da audiência, procurei Carvalho e o questionei sobre a declaração. Ele se limitou a dizer que havia empresas no sistema com dívidas “impagáveis”. E, de saída, com uma pasta na mão, já distante alguns metros de mim, completou dizendo: “Qualquer dia pára uma empresa... e aí?”. A declaração foi o destaque do Tema do Dia da edição de 25 de fevereiro de 2015 de A Crítica.

Reportagens publicadas por este jornal nos últimos dias mostram que a bomba está armada e que a contagem regressiva para a explosão já começou. Além dos problemas visíveis do sistema, que afetam diretamente o usuário, como o reajuste exorbitante da tarifa, as empresas mantêm mais de mil veículos irregulares circulando e dívidas milionárias ao erário.

Na última quinta-feira (9), A Crítica, em primeira mão, noticiou em sua manchete que o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM) acionou a Justiça estadual para receber R$ 12,5 milhões devidos pelas empresas ao órgão por impostos, multas e licenciamento dos ônibus.

No domingo (12), a reportagem de capa do caderno de Cidades mostrou que 1,5 mil ônibus do sistema estão irregulares e que a maioria dos coletivos está próxima do limite da idade máxima de circulação, que é de 10 anos; nos últimos três anos, apenas 21 novos veículos foram incorporados ao sistema.

Os trabalhos jornalísticos dão a dimensão real daquilo que já é perceptível pelos usuários e que tem ficado mais evidente desde o início deste ano com o escancarado jogo de interesses pelo o reajuste da tarifa: o sistema de transporte coletivo está entrando em falência.  Revelam ainda que esse não é um processo recente; ele apenas vinha sendo maquiado nos últimos anos, mas tem se agravado de tal forma que fica impossível não notar.

Qualquer dia desses, como previu Pedro Carvalho em 2015, a bomba explode e o sistema perde de vez as condições de operar.  E aí, mais uma vez, o ônus será pago pela população.

***

Nas edições desta segunda (13) e terça-feira (14), A Crítica continua abordando as problemáticas do transporte coletivo em matérias especiais, com vídeos exclusivos.

 

O autor é jornalista, subeditor do caderno de Cidades

luciano.falbo@acritica.com


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.