Terça-feira, 22 de Outubro de 2019

Inovação qualificada para uma nova economia

*Por Dércio Luiz Reis, doutor em Engenharia de Produção e Professor Adjunto do Departamento de Engenharia de Produção da Ufam


16/01/2019 às 16:12

Transformar o conhecimento gerado nos laboratórios de pesquisa em negócios deve ser uma preocupação para todos os envolvidos com atividades de pesquisa e desenvolvimento. Infelizmente, são poucos os casos identificados em que, atividades desenvolvidas no âmbito das universidades e dos institutos de pesquisa, tiveram sucesso em seu processo de transformação em um negócio sustentável.  Essa é uma questão que precisa ser observada por todos os atores envolvidos com as atividades ligadas à Academia e aos processos de inovação. É estratégico para o estado do Amazonas e para o país aproveitar melhor a capacidade instalada de geração de conhecimento das instituições locais.

Esse problema já foi identificado em outros países, como Portugal, que também apresentava uma baixa capacidade de transformação de pesquisas em negócios e implementou soluções eficientes que, além de modificarem este cenário, atraíram empresas de grande porte, interessadas em investir nas startups abrigadas em universidades e instituições ligadas a estas. Basicamente, a intervenção nessas ideias embrionárias baseia-se em três pilares que são oferta de subvenção econômica não reembolsável, para realizar o investimento necessário ao desenvolvimento do(s) produto(s); implantação de um sistema de gestão capaz de estruturar a empresa com um sistema que garanta um crescimento sustentável e a implantação de processos de desenvolvimento e de controle adequados ao mercado competitivo, no qual a futura empresa irá atuar; e, como último pilar, o desenvolvimento de um sistema de marketing capaz de comunicar ao mercado os objetivos e produtos da empresa. Os resultados dessas ações demonstram que este é um caminho que permite bons resultados, com valorização das empresas em montantes bem superiores ao investimento total.  A venda posterior da participação nas empresas tem garantido o retorno do investimento com lucro, permitindo assim a realimentação do sistema e a continuidade do apoio. Este sistema está implantado em um instituto privado, sem fins lucrativos, que é administrado pelo corpo técnico da Universidade do Porto. É um modelo que tem demonstrado que a união de um corpo técnico altamente qualificado, formado em sua totalidade por doutores nas respectivas áreas do conhecimento, trabalhando em conjunto com empreendedores que são alunos dos programas de pós-graduação da universidade, é uma fórmula com uma taxa de sucesso bem superior a outros formatos de incubação mais usuais.

Uma análise dos resultados do projeto Sinapse da Inovação, que selecionou ideias inovadoras para posterior fomento por parte do Governo do Amazonas, mostra que a formação acadêmica é fundamental para a elaboração de propostas consistentes de negócios. Considerando as propostas finalistas do processo de seleção, 50% dos empreendedores tinham pós-graduação concluída e 20% estavam em fase de conclusão. Entretanto, os resultados finais mostram que somente 50% dos projetos foram concluídos e que a taxa de sucesso no mercado foi inferior a 20%. De forma geral, foi observado que faltou planejamento, gestão, marketing e perseverança na ação de empreender, que é um componente vital. O sucesso não é imediato e o empreendedor precisa estar totalmente comprometido. Este fato não ocorreu apenas nesse projeto. Uma alta taxa de insucesso vem sendo observada nos processos de apoio a empreendimentos comandados por profissionais pós-graduados. Isso mostra que, sem uma estrutura de suporte capaz de suprir as deficiências de um sistema de ensino que não prepara profissionais para o empreendedorismo, oportunidades de construção de empresas do conhecimento continuarão a serem desperdiçadas.

Considerando o potencial da nossa biodiversidade para o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado, um fator que precisa ser considerado é o tempo de colocação no mercado destes produtos, bem superior ao desenvolvimento em outras áreas como, por exemplo, a computação. Não há como ser imediatista no desenvolvimento de bio produtos e é preciso garantir que os recursos necessários, financeiros, de infraestrutura e humanos, não sofram descontinuidades que afetem as atividades, daí a importância da nova legislação de C,T&I, a qual possibilita que parcerias público-privadas aconteçam e minimizem os problemas orçamentários e financeiros que afetam as esferas governamentais. Só isso, entretanto, não é suficiente, se quisermos realmente participar do mercado mundial da inovação, é preciso planejar, estabelecer metas audaciosas e, principalmente, agir.


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