Domingo, 26 de Maio de 2019

Lembranças e lutas

*Por Ivânia Vieira, professora da Ufam e articulista de A Crítica


15/05/2019 às 09:47

Ao encerrar uma fala, no início da tarde de ontem, durante a defesa de tese do Prof. Bruce Osborne, no auditório Rio Solimões, do IFCHS, a professora titular da Ufam, Marilene Correa da Silva Freitas, chorou. E mansamente choraram outras professoras e professores. Zeina Thomé era uma delas. Por que choraram esses pesquisadores de professores de longa tradição na Universidade Federal do Amazonas?

Na linha de raciocínio traçada pela Profª Marilene Corrêa, como membro de banca, estavam presentes inúmeros momentos históricos da Ufam, mesmo antes de assim ser batizada. Momentos dos quais esses professores e outros tantos, alguns já falecidos, outros aposentados e atingidos por um exercício de esquecimento e outros em atividade, em aula e orientações acadêmicas. Naquele momento singular a arguição feita trouxe à cena as lutas lutadas por professores para a UA ampliar as áreas de atuação e avançar como universidade federal. São professores fundadores de cursos, disciplinas, núcleos de pesquisa, programas de pós-graduação.

“Como nosso trabalho foi gradativamente precarizado”; “como se produziu a demonização da universidade pública”, disse Marilene Corrêa ao fazer a outra leitura dos números que traçam as atividades sob responsabilidade do professor. São cada vez maiores. Olhar o itinerário traçado nas memórias e ações desses professores fundadores e conhecer o percurso feito produz reações fortes; demonstra o quanto é necessário, hoje, retomar esse sonho construído na adversidade e numa postura de governos marcada pela rejeição à ideia de ter universidade viva na Amazônia, de mantê-la em condição de equilíbrio e de ampliá-la enquanto espaço público, gratuito e de busca permanente da qualidade.

Os sonhos sonhados por esses professores estavam presentes na cerimônia de ontem. Eu sou resultado desses sonhos. Sem eles não teria ingressado na universidade e não teria seguido na pós-graduação. A luta delas e deles criaram possibilidades para nós seguirmos adiante na aventura de querer aprender e produzir conhecimento.

A plantação floresce: No final da tarde, nohall do IFCHS, garotos e garotas de vários cursos, devolviam, sem saber, a outra face da esperança e faziam o sonho continuar. Animados pela música envolvente e pelo burburinho de tantos jovens reunidos, pintavam faixas, faziam varais de cartazes para a marcha desta quarta-feira (15 de maio). Havia alegria nos estudantes, firmeza e disposição como há muito não percebia nos corredores da Ufam.

Com suas linguagens próprias e as novas palavras de ordem, uma parcela generosa dos universitários da Ufam enfrenta o medo, o terror, as ameaças e segue determinada a defender direitos. Um deles é o direito da universidade funcionar bem. Em processo de religação, o choro de professores no início da tarde, ao trazer recortes da história de lutas de professores, e a alegria em acontecência no final da tarde e início da noite dos estudantes ativistas desta causa nos alimentam e colorem nossa marcha neste dia de luta coletiva em defesa da universidade. Sim, temos que lutar e impedir que nos silenciem! 


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