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Mais volatilidade no mercado em semana de reunião do Copom

Por Fábio Calderaro 19/06/2018 às 14:12 - Atualizado em 19/06/2018 às 14:35
Show cambio

A semana foi de muita volatilidade e maior aversão ao risco no mercado brasileiro. Estes movimentos foram vistos na valorização do dólar, na alta dos juros longos e na queda Ibovespa. De certa forma, trata-se de um quadro já esperado, diante do atual cenário externo e das perspectivas do cenário doméstico, com revisão de menor crescimento do PIB e com a ainda incerta corrida eleitoral.

Na última quarta-feira, o Fed confirmou o aumento dos juros nos Estados Unidos em 0,25 p.p., para uma faixa de 1,75% a 2,00%. A decisão já era esperada pelo mercado e não causou grandes surpresas. Contudo, o Fed sinalizou de que há ainda espaço para mais duas altas de juros em 2018, já que a economia nos EUA dá sinais de crescimento mais claros. Tal postura de política monetária mais dura por parte do Fed, também conhecida como hawkish, motivou o avanço do dólar.

A pressão sobre o câmbio também foi reforçada na quinta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE), que tomou medida oposta ao Fed. Por mais que já se imaginasse que Mário Draghi faria jus à fama dovish, ele veio ainda mais leniente que de costume e surpreendeu com a sinalização de que o juro na zona do euro ficará estável por, pelo menos, mais um ano. O mercado não esperava que ele fosse estender o prazo tão para frente, entre junho e setembro do ano que vem. Alguns bancos vinham antecipando para março o início de um aperto monetário. A surpresa deflagrou um salto do Dólar e o pior dia para o Euro, desde o Brexit.

Mas a decisão do BCE favoreceu o dólar em escala global e, portanto, aqui não foi diferente. Na quinta-feira (14), US$ 5 bilhões em swap cambial não foram suficientes para tirar o dólar das máximas no fechamento, a R$ 3,8095 (+2,53%). O real ostentou a segunda pior queda entre as moedas emergentes, só perdendo para o peso argentino, que renovou mínima histórica na queda de 7%, derrubando o presidente do Bando Central de Macri.

Foram necessários US$ 5,75 bilhões em swap cambial na sexta-feira (15) para trazer o dólar para os R$ 3,73, em queda de 2,2%. O Banco Central (BC) já usou o lote de US$ 24,5 bilhões anunciado para a última semana. Restam, portanto, os US$ 10 bilhões previstos para a próxima.

Apesar de ter sinalizado o BC que pode aumentar os limites máximos do passado (US$ 110,5 bilhões), o que significaria estar disposto a oferecer mais US$ 60 bilhões em swap, é bom lembrar que existe uma grande diferença entre o BC evitar a depreciação do Real e lutar contra a apreciação do Dólar. Sem contar que parece já haver no mercado a percepção de que o BC está defendendo a taxa de R$ 3,70. É para esse nível que o dólar volta após cada leilão, e é esse nível que o dólar extrapola quando quer mais swap. E a forma com que o BC está atuando no câmbio, quantificando previamente volumes e prazos das ofertas de modo a garantir a previsibilidade, permite ao mercado ganhar esse jogo. O fato é que esse ajuste do câmbio, que tem como causa primária a nova ordem do fluxo global, com as altas do juro nos EUA, ainda é desconhecido, porque o BC está tentando conter o dólar artificialmente.

Por tudo isso, a semana que inicia também promete muita tensão. Nos próximos dias 19 e 20, haverá a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Desconfiado de que o dólar a R$ 3,70 esteja barato, diante das consequências geradas pela greve dos caminhoneiros e com os riscos adicionais do quadro fiscal e das eleições, o mercado já especula uma alta da Selic, contando com a inflação que cedo ou tarde surgirá.

Ainda que Ilan tenha sinalizado que não elevaria agora a Selic e que todos saibamos de que não é mandato do BC subir juro contra o dólar, é fato que o mercado já projeta, na curva a termo, unanimidade nas apostas sobre uma alta do juro nessa semana. 

A própria Bolsa já antecipa o risco de a dinâmica perversa do câmbio custar um aperto do juro muito antes da hora, no baque que foi especialmente sentido pelas ações das blue chips. Nas últimas semanas, observamos uma forte saída de capital estrangeiro, cujo saldo apenas em junho já é negativo em R$ 3,66 bilhões.

É claro que tal movimento reflete, entre outras coisas, uma preocupação com as condições para o ajuste fiscal após as eleições de 2018, além de certa frustração com o ritmo da retomada econômica do país. A Pesquisa Focus já mostra derrubada das estimativas de mercado em relação ao PIB de 2018 para abaixo de 2%.

O que tudo indica, portanto,  é que as próximas semanas continuarão sendo de muita volatilidade na curva de juros, que deve seguir o dólar na tendência de alta, com o mercado muito comprador, estressado e especulativo. Para a Bolsa de São Paulo não será diferente. Os desdobramentos políticos do país, o comportamento das bolsas internacionais e o forte fluxo vendedor pode ainda trazer pressão adicional para o Ibovespa.