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Manaus, 349 anos: a saga da economia da capital-coração do Amazonas.

Por Fábio Calderaro 30/10/2018 às 18:51 - Atualizado em 30/10/2018 às 19:31
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Em 24 de outubro de 1848, quando a pequena Vila de Manaós foi elevada à categoria de cidade, a então Barra do Rio Negro não passava de pequeno aglomerado plano com cerca de 3 mil habitantes. Contudo, a descoberta de uma seiva nativa 100 anos antes transformaria a pacata vila em uma cidade verdadeiramente cosmopolita. O látex da seringueira foi a matéria prima responsável por tornar Manaus a protagonista do Ciclo da Borracha, que ocorreu entre 1840 e 1920.

A riqueza trazida pela borracha transformou a cidade. Viver na capital Amazonense, no fim do século XIX, era o sonho de muitos. Manaus era chamada de Paris dos Trópicos. A riqueza do látex proporcionou uma reviravolta estrutural sem precedentes, como a implantação de serviços de transportes por meio de bondes elétricos, sistema de telefonia, eletricidade, além de um porto que recebia navios de várias partes do mundo. O engenheiro e então governador Eduardo Ribeiro deu impulso à nova feição urbanística de Manaus. Levantou o belo e imponente Teatro Amazonas e construiu sob a avenida, que atualmente tem o seu nome, uma das primeiras galerias de esgoto do Brasil, feita nos padrões europeus.

Mas aconteceu o que ninguém esperava. As sementes da seringueira foram contrabandeadas pelos Ingleses e plantadas na Malásia. O látex do Sudeste da Ásia inundou o mundo de borracha, derrubando o seu preço.  Era o fim do Ciclo da Borracha brasileiro. Manaus, do luxo, foi para a extrema pobreza.

A economia então passou a ser sustentada pela agricultura. Somente na década de 40, a borracha do Amazonas teve sua segunda chance. Durante a Segunda Guerra Mundial, houve um novo ciclo de bons preços. O Sudeste da Ásia foi invadido pelo Japão e cancelou o comércio com o Ocidente. Novamente, milhares de homens desembarcaram nos seringais amazonenses em busca de uma vida melhor.

Porém, o segundo ciclo durou apenas o período da Guerra. Logo em seguida, surgiu a borracha sintética, obtida a partir de derivados de petróleo. Com isso, a borracha vegetal e o preço do látex caíram ainda mais. Mais uma vez, Manaus mergulhou na pobreza e no esquecimento.

A esperança de um melhor destino, contudo, veio somente na década de 60. Em 1967, foi criada a Zona Franca de Manaus, área de livre comércio de importação, exportação e de incentivos fiscais com a finalidade de criar no coração da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário. Os incentivos fiscais estimularam a instalação de empreendimentos industriais na nascente Zona Franca. Surgia o Polo Industrial de Manaus (PIM).

Passados 52 anos, a economia Amazonense acabou se baseando fundamentalmente no PIM.  Hoje, não só a cidade como o estado são altamente dependentes das políticas que procuram preservar este modelo de desenvolvimento, mola propulsora da economia local. O modelo ZFM representa quase a 80% do Produto Interno Bruto do Amazonas, abriga cerca de 600 indústrias, movimenta quase US$ 40 bi por ano, gera mais de 100 mil empregos diretos e 500 mil indiretos. Assim como a cidade e o estado foram altamente dependentes do látex da seringueira em um passado não muito distante, hoje são novamente dependentes da política de incentivos fiscais da Zona Franca, modelo muito questionado por outros estados da federação.

É fato que, além do desenvolvimento e integração regional, a ZFM ajudou a manter os 98% da floresta nativa existentes no Estado. É fato também que o Amazonas é o Estado do Norte que rende maior contribuição tributária ao governo federal. Mas há que se considerar, contudo, que suas empresas importam cerca de 10 bilhões de dólares por ano em material e peças, contra 1 bilhão de dólares em exportação.

O modelo de áreas com incentivos não é uma jabuticaba brasileira. A China se tornou a manufatura do mundo com a criação das chamadas Zonas Econômicas Especiais no começo dos anos 80. Contudo, o objetivo não era simplesmente criar empregos, mas levar tecnologia e fazer do país um polo exportador. Trata-se de um modelo que obriga as empresas a investir em inovação para competir globalmente.

A garantia constitucional para os incentivos fiscais e extrafiscais nos próximos anos está assegurada. Contudo, além de viver o arrepio da Lei, padecendo das consequências e arbitrariedades na interpretação de seu cumprimento, a sustentabilidade do modelo Zona Franca de Manaus tem agora outras ameaças.

A primeira é própria crise econômica, já que polo industrial produz essencialmente bens duráveis, sujeitos aos ciclos econômicos. A segunda ameaça trata da falta de competitividade logística. Hoje, o frete de uma carga da China para Santos sai mais barato do que de Manaus para o porto paulista.

A maior fragilidade, porém, é que o modelo Zona Franca de Manaus está ameaçado pela obsolescência tecnológica dos artigos fabricados em Manaus. 50% dos produtos do Polo Industrial estão migrando para dentro do telefone celular: televisor, aparelho de som, vídeo game, GPS, calculadora, máquina fotográfica, computadores etc. E é fato que a defasagem tecnológica não poderá ser compensada por incentivos fiscais.

Não seria a hora do Amazonas começar a não depender tão somente das doses de morfina aplicadas pelo PIM? Não se pode deixar a ZFM acabar para depois pensar em outro modelo econômico. Talvez seja a hora de propor a criação de novos eixos de desenvolvimento que levem em consideração as vantagens comparativas da região amazônica.

A avaliação racional da região passa pela exploração de ativos, como o gás natural da bacia do Solimões. Poderia ser criado, por exemplo, um polo gás-químico em Manaus, com potencial para abastecer várias empresas, incluindo as da Zona Franca, que importam plástico para fabricar eletroeletrônicos.

A biodiversidade amazônica, riqueza natural única no planeta, está à espera de ideias para criar negócios de biotecnologia, fármacos e cosméticos.

Sem contar no potencial da indústria naval, da mineração, das atividades logísticas de grãos, piscicultura, fruticultura e, principalmente, do polo turístico, já que carrega a região o peso do selo e da marca Amazônia.

Na ocasião em que Manaus completa seus 349 anos, cabe fazermos uma reflexão sobre os modelos econômicos vividos pela capital-coração deste imenso Estado, desde a sua criação. A própria história escrita no tempo por este povo trabalhador poderá orienta-lo a manter sua visão voltada para o futuro em busca da competitividade e desenvolvimento.