Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

Monetaristas x Desenvolvimentistas

Por Fábio Calderaro, economista


14/12/2018 às 15:51

Atualmente, está bastante evidente no Brasil a existência de duas correntes de pensamento econômico com visões bem distintas sobre o desenvolvimento e crescimento.

Para o grupo dos ortodoxos ou monetaristas, o desenvolvimento econômico tende a ser um processo natural e que depende basicamente de boas políticas internas, como: instituições independentes e harmônicas, ambiente macroeconômico estável, governo parcimonioso e que não tribute demais, segurança jurídica, educação pública universal de qualidade, livre concorrência etc. Para os ortodoxos, se essas políticas forem perseguidas, o desenvolvimento virá como consequência. Trata-se apenas de uma questão de tempo.

Já o grupo dos heterodoxos ou desenvolvimentistas acredita que o padrão de especialização produtiva é chave para entender o processo de desenvolvimento econômico. Ser desenvolvido significa dominar tecnologias avançadas de produção e criar capacidades e competências locais. Escolher entre produzir castanhas ou computadores, havaianas ou motocicletas, soja ou aviões faz diferença. Ou seja, o processo de desenvolvimento depende do tipo de produto que um país é capaz de produzir.

Acontece que o processo de desenvolvimento econômico se dá em meio a um intenso conflito entre nações, especialmente no que diz respeito ao domínio de técnicas produtivas e capacidade de inovação. As multinacionais dos países ricos defendem com unhas e dentes seus mercados e tecnologias de produção dos países em desenvolvimento, tornando o processo muito mais desigual e assimétrico. Após atingirem um elevado estágio de desenvolvimento, os países ricos abrem seus mercados e “chutam a escada”, tentando impedir que países pobres subam degraus. E é justamente por isso que para a corrente heterodoxa o papel do estado no desenvolvimento econômico é fundamental.

Até sobre educação, qualificação profissional e produtividade, há também uma comparação interessante entre as duas visões. Para os ortodoxos, a produtividade de um país depende das características intrínsecas do homem, em particular, o grau e a qualidade média da educação do seu povo.  Para a visão desenvolvimentista, as ocupações em si (tipos de vagas de trabalho) são mais importantes do que a qualificação individual. Se não houver postos de trabalho qualificados, não adianta profissionalizar a população. Neste caso, a produtividade da economia deixa de ser algo que depende dos indivíduos, como na visão ortodoxa, e passa a ser algo sistêmico. Trabalhadores inseridos em setores tecnologicamente sofisticados serão produtivos devido às características intrínsecas do setor e não dos trabalhadores. A empregada doméstica que passa ser treinada para trabalhar em uma fábrica tem sua produtividade aumentada enormemente, por exemplo.

Em relação à construção do ambiente macroeconômico há também divergências interessantes. Para os ortodoxos, o PIB potencial do país é exógeno, depende de fatores institucionais, demanda global e de lenta mudança ao longo do tempo. Para os desenvolvimentistas, o PIB potencial tende a ser mais endógeno, ou seja, quanto mais se produz, maior a capacidade de produção. Para os heterodoxos, a aceleração do crescimento gera ganhos de escala, permitindo produzir mais com custos reduzidos, atrai trabalhadores para atividades formais com maior produtividade e induz empresas a aumentarem seus investimentos.

Parece-me que estamos entrando num ciclo ortodoxo liberal na sua forma mais ingênua, digamos, ainda que tenhamos hoje apenas 11% de participação da Industria como proporção do PIB. Somos um País que, em horário nobre, assistimos ao disparate de que "Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é tudo”.  Mas será que as assimetrias globais e até mesmo internas deste País desigual e de dimensões continentais poderão ser corrigidas pelo laissez-faire? O que teria sido do nosso Estado sem o modelo Zona Franca, por exemplo?

E você, querido leitor. Com qual das duas correntes está mais alinhado?


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