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O azul, o vermelho e a arte de transcender

Por Dante Graça, jornalista. 28/06/2018 às 12:54
Show fogo caprichoso030
(Foto: Felipe Gramajo)

O Festival de Parintins é uma constante lição. Por mais que você venha aqui várias vezes – esta é a minha sexta – sempre há algo a se aprender sobre a festa. Hoje, tive uma das maiores aulas de humanidade de toda minha vida, sem qualquer exagero poético.

Pude ver, sob um escaldante sol de 10h30, camisas azuis e vermelhas unidas ao redor do fogo. As chamas consumiam uma alegoria que, sim, era do Caprichoso, mas acima de tudo era do festival. Era de Parintins. Era de Paikicés, mas podia ser de Kaçauerés, como um deles gritou do meu lado enquanto eu tentava entender o que acontecia.

A cena chamou minha atenção, porque o grau de rivalidade em Parintins atinge níveis além da compreensão até para quem já conhece a festa, como é meu caso. Mas nessa hora de desespero, a camisa que pesou foi a camisa da Ilha Tupinambarana. Foi a camisa da arte parintinense, que é produto de exportação para o mundo inteiro. O Palmares e a Francesa se uniram com a Baixa para salvar o bem maior de todos eles.

Pela união, o Caprichoso se permitiu até chamar o Garantido de...Garantido. Esqueça, por um instante, o termo contrário. Hoje, todos caminharam na mesma direção.  

A alegoria que queimou era do Ritual da Transcedência, uma prática Yanomâmi que seria encenada na segunda noite. Seria não, será. Será porque transcender é ir além dos limites, ir além do normal. E disso, meus amigos, parintinense entende. 

Em uma terra de tanta fé, tenho certeza de que proteção, luz e bênçãos não faltarão. Em cada solda refeita, em cada peça colada, em cada pintura reiniciada do zero, haverá uma mão a guiar. Pode ser de Deus ou de Oxalá. De Nossa Senhora do Carmo ou de Oxum. Nessas horas, as crenças se unem. Assim como as cores.

O bem é um só. O Festival é um só. Nunca ficou tão claro o quanto um depende do outro.