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O peso das dívidas na recuperação econômica

* Por Fábio Calderaro 13/01/2019 às 14:20 - Atualizado em 13/01/2019 às 22:03
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O mundo desenvolvido não consegue crescer na velocidade de outrora. Os EUA, apesar da menor taxa de desemprego dos últimos 40 anos, criam vagas com remuneração cada vez mais baixa desde 2008. O desemprego na Europa é enorme. Países emergentes não conseguem crescer para atingir o grupo de economias desenvolvidas. Brexit e Trump são frutos desse mundo de “estagnação secular” ou “novo normal”.

É importante destacar que um dos pilares do “novo normal” sempre foi a recusa no uso dos gastos públicos como estímulo legítimo de demanda no curto prazo, especialmente quanto aos investimentos em infraestrutura. Em meados de 2013, o próprio presidente do Banco Central Americano, Ben Bernanke já apontava os temores dos efeitos contracionistas dos cortes de gastos públicos sobre o PIB dos EUA. E, apesar de clamores por uma política fiscal mais flexível, ou no "economês" expansionista, nenhum governo teve a coragem de ir adiante com essa agenda. 

Na Europa, a introdução da moeda única provocou quedas nas taxas de juros, aumento de consumo, endividamento e bolhas imobiliárias nos países. Não houve progresso de fato com crescimento industrial e aumento de capacidades locais de produção. Os setores privado e público dos PIGS (acrônimo dado à Portugal, Itália, Grécia e Espanha) estão ainda muito endividados. Seus governos têm enorme dificuldade em fazer politicas de recuperação econômica por conta do tamanho das dividas publicas. Os países não têm mais moeda própria e abriram mão, portanto, da política cambial, que ficou a cargo do Banco Central Europeu. Não podem também fazer política fiscal, pois estão endividados. O único mecanismo de ajuste que lhes restou foi, portanto, a deflação interna.

E por que o mundo não cresce mais como antigamente? Explico. Dois fenômenos da última década ajudam a compreender essa nova estagnação secular: excesso de divida e excesso de oferta.

A explosão do endividamento público e privado vem desde os anos 90, tendo certamente os EUA como seu maior driver. O motor do crescimento mudou da renda para o crédito. Ninguém tem ativos e tudo é colateral de dívidas.

A sobre oferta mundial tem a ver com a ascensão da Ásia mais dinâmica e produtiva do Leste. Só a China, por exemplo, conta hoje com mais de 100 milhões de trabalhadores produzindo bens manufaturados, tendo saído praticamente do zero em 1980. Com uma enxurrada de produtos na economia global a preços baixos, por serem produzidos por mão de obra asiática mais barata, houve redução da inflação global, que provocou juros mais baixos e que, por sua vez, não foram capazes de estimular novos investimentos. Sem contar que o referencial salarial passou a ser o asiático, fato este que explica a redução dos salários americanos e de alguns países europeus. O mundo entrou num círculo vicioso.

Com o Brasil não foi diferente. Após 2008, A alavancagem de crédito provocou o boom do consumo e de construções imobiliárias. Os investimentos foram todos direcionados para o setor de não transacionáveis (prédios comerciais, residenciais e shopping centers). As desonerações do governo Dilma agravaram o problema, injetando demanda agregada e complicando a situação de contas públicas. O represamento de preços administrados contribuiu na mesma direção. Em 2015, essas políticas foram revertidas e a bolha que já vinha desinflando estourou. Como resultado, restaram as dívidas e o excesso de oferta de imóveis, que sempre caminham juntos.

A fragilidade das contas públicas dificulta o uso de uma política fiscal mais ativa. Governos altamente endividados não podem acionar o gatilho do investimento público. Para o Brasil e para o mundo de hoje as consequências de um processo desse tipo são bem claras: mesmo com juros baixos, a recuperação demora muito devido ao peso das dívidas.