Domingo, 13 de Junho de 2021

O progresso do Amazonas entre as secas e cheias dos rios

Por Juarez Baldoino, amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia, economista, professor de Pós-Graduação e consultor de empresas especializado em ZFM


21/05/2021 às 18:40

”... o problema foi parcialmente amenizado com 250 m³ de madeira proveniente do crime, doados dia 13/05/2021 pela Polícia Federal...”.

 

Segundo dados do porto de Manaus (https://www.portodemanaus.com.br), cujos registros iniciaram há 119 anos, houveram 9 cheias desde o século passado cuja cota superou 29m, nos anos de 1909, 1922, 1953, 1976, 1989, 2012, 2014, 2015 e 2019; a cota hoje (data da criação desse texto), 13/05/2021, é de 29,60m.

As maiores secas, abaixo da cota de 15m, ocorreram nos anos de 1906, 1916, 1926, 1936, 1958, 1963, 1997, 2005 e 2010.

O placar dos extremos está em 9X9, somando, portanto, 18 anos de maior dificuldade no cotidiano do amazônida, por meses seguidos em cada ano.

Fora isto, houveram os anos em que as marcas estiveram a menos ou a mais em 10 ou 20 centímetros destes recordes, mas com efeitos práticos de mesma magnitude.

O resultado é que em 1/3 dos últimos cem anos houve restrição significativa de alguma forma ao modo de vida e de trabalho da população ribeirinha. 

Este ciclo não é compatível com a maioria dos processos industriais que exijam continuidade e escala, mesmo que o empreendimento esteja em terra não inundável. O fluxo de insumos, de mão de obra e do escoamento da produção, se afetados pelo ciclo, retardarão ou paralisarão as atividades.

Investidores resistem em arriscar neste ambiente, existindo exceções normalmente por motivos sentimentais, nem sempre de sucesso. Daí a inexistência de atividade industrial de expressão nas áreas alagáveis ou de restrição de acesso nas secas.

Como o objetivo único teórico do progresso são as pessoas, e mais de 90% da população interiorana está às margens dos rios onde o fenômeno se repete anualmente, a busca da prosperidade nestas áreas terá melhor resultado somente se estes ciclos forem incorporados ao modelo implantado, o que é raro de se constatar.

Exemplo disto, é a falta madeira para confecção de pontes todos os anos, e assim socorrer as pessoas nas centenas de localidades atingidas pelas cheias; neste ano, o problema foi parcialmente amenizado com 250 m³ de madeira proveniente do crime, doados dia 13/05/2021 pela Polícia Federal à Defesa Civil de Manaus.

Não é surpresa que vai haver cheias, e também não é mais surpresa o despreparo do poder público.    

A Zona Franca de Manaus não sofre tal reflexo porque seu território comercial original tradicional no centro da capital está acima da cota 29m, fora da orla alagável que atinge apenas o comércio comum, inclusive da periferia. O Polo Industrial é abastecido com insumos via Rio Amazonas no sentido Leste/Oeste, sem problema para a navegação por cabotagem passando por Belém, ou por via aérea.

A navegação no sentido Oeste/Leste, caso existisse, traria e trará, se existir, problemas de abastecimento dependendo das cotas dos rios.

Este quadro natural ajuda a entender em parte como e porque tem ocorrido a evolução do progresso no Amazonas, na forma que o conhecemos, e deveria alertar as formulações e execuções de ações de gestão pública para o que não pode ser ignorado: o poder inevitável do ciclo das águas amazônicas, também retratado por Leandro Tocantins há 70 anos em sua obra "O Rio Comanda a Vida".

Os candidatos que querem formular o que fazer na Amazônia, em quaisquer níveis de atuação ou poder, precisariam relatar a obra de Tocantins de trás para a frente e vice-versa, sem consulta.

Pelo estrago visto até agora, é provável que alguns candidatos, inclusive alguns eleitos, nunca tenham ouvido falar dele.


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