Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

O que esperar da economia brasileira em 2019?

Por Fábio Calderaro


30/12/2018 às 11:04

Depois da maior recessão da história, que terminou no último trimestre de 2016, e da frustrante recuperação econômica posterior, os brasileiros estão ansiosos para saber se finalmente o país vai voltar a crescer de fato no próximo ano. Mas o que esperar da economia em 2019?

As projeções apontam para um avanço um pouco mais forte do Produto Interno Bruto (PIB) em relação à 2018, mas com a mudança de governo e as várias reformas previstas, os analistas ainda esperam um cenário incerto na economia brasileira. Segundo a mediana das expectativas divulgada pelo Boletim Focus do Banco Central, o crescimento será em torno de 2,5% em 2019.

Há uma série de fatores que apontam a incerta retomada dos próximos anos. Explico. Primeiro, o motor do crescimento de 2019 deveria ser reflexo principalmente do aumento do consumo, que representa 63% do PIB, além do investimento privado. Acontece que as famílias, empresas e governos ainda estão endividados pós o longo ciclo de expansão de crédito de 2005 a 2016, atrasando a recuperação. Segundo que, nos últimos anos, o Brasil gastou mal e fez investimentos em setores pouco produtivos. Precisamos, portanto, absorver primeiro a enorme capacidade produtiva que foi criada nos setores de varejo e imobiliário, cuja ociosidade dificulta a aceleração da economia. Terceiro, o colapso das contas públicas derrubou e continua limitado os investimentos da União, estados e municípios.

Além disso, o cenário global mais turbulento também pode dificultar um avanço mais forte da economia. Cresce a percepção de uma desaceleração econômica mundial em meio ao ambiente de guerra protecionista, perda de ritmo de crescimento na Europa e China, além da perspectiva de aumento de juros nos Estados Unidos, que poderia afetar o fluxo de capitais para países emergentes como o Brasil.

É fato que a eleição de Bolsonaro até afastou as previsões mais pessimistas para o Brasil. Desde o fim do segundo turno, por exemplo, a confiança do comércio e do consumidor avançou, atingindo o nível mais alto em mais de 4 anos.  Mas é fato também que o Presidente eleito, sua equipe e a nova composição do Congresso Nacional terão um desafio, que será condição sine qua non para a manutenção do crescimento: o ajuste das contas públicas.

O Brasil vive uma situação fiscal dramática. A aceleração da dívida bruta e a dificuldade da obtenção de resultados primários positivos são fatos amplamente conhecidos. Mais recentemente, vem se destacando a situação dos Estados, praticamente insustentável, que deverá exigir nova ajuda da União. Sabe-se que, sem a reforma da previdência, os déficits orçamentários dificilmente serão revertidos em todas as esferas, mantendo a dívida bruta em direção aos 100% do PIB. Para um país emergente, de renda média, esse número é inconcebível.

Como se isso fosse pouco, o Congresso não para de aprovar novos gastos, como o recente caso da elevação dos salários dos ministros do STF e a criação de novos incentivos fiscais destinados ao setor automobilístico, agora batizado de Rota 2030.

Sem as reformas, o Brasil deve enfrentar um ambiente perverso, com piora da percepção de risco dos investidores, o que tende a reduzir o crescimento. Em meio à crise fiscal e espaço cada vez limitado no orçamento público, o nível de investimento tende a seguir baixo e o consumo das famílias deverá continuar sendo o principal motor da recuperação do PIB, sustentado pela expansão da massa salarial em meio à queda da taxa de desemprego, ainda que em ritmo lento, e puxada pelo aumento da informalidade.

Por outro lado, se o novo governo conseguir implementar um ajuste fiscal e a reforma da previdência nos seis primeiros meses, acredito que o Brasil será capaz de financiar suas contas externas mais facilmente e, ao mesmo tempo, ter uma poupança interna maior para financiar sua recuperação do PIB. Nesse cenário, a recuperação cíclica do Brasil será sólida e haverá uma tremenda onda de otimismo em relação ao país, com significativo fluxo de capitais para o Brasil. Como a capacidade ociosa ainda é elevada, o que alivia pressões inflacionárias, a taxa básica de juros Selic pode permanecer baixa por muito tempo, o que estimularia investimentos no setor produtivo, com geração de emprego, renda, aumento da renda real das famílias e consumo.

Esperamos que os fatores positivos nos surpreendam e que as reformas estruturais sejam implementadas logo no início do próximo governo. Se assim acontecer, estou certo de que teremos, na economia, um bom 2019. Que assim seja!


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