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O Som do chamado

Por Ivânia Vieira 14/11/2018 às 14:17
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"Somos resistência", "somos esperança". É nessa direção que indígenas de diferentes etnias decidiram seguir reafirmando o direito e o lugar de existência no Brasil. O passo de retomada da nova marcha aconteceu na sexta-feira, dia 9, em Manaus, sob o som e o ritmo de crianças pintadas cantando e fazendo toda a gente adulta cantar e dançar numa prece de fortalecimento e determinação.

Chamados pelo Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (Foreeia), representantes de duas dezenas de organizações indígenas, do movimento popular e instituições de ensino, pesquisa, religiosas e de partidos políticos, disseram sim. Ouviram, propuseram e agradeceram. Acolhidas, da melhor maneira, com uma pequena mesa sobre a qual alimentos e bebidas coloriam os olhos e convidavam estômagos famintos de boas novas, as pessoas se reencontraram e se reanimaram.

Mais ainda quando o grupo de crianças, liderado por Yrã Tikuna, encheu a sala de musicalidade. “Isso é que é acolhimento, nos emociona. É tão diferente. Como precisamos desse tipo de acolhida”, observou a pesquisadora Rosa Helena Dias da Silva, Rosinha, da Faced/Ufam, nesse encontro também representando a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA-seção sindical).

Gersem Luciano, da coordenação do Foreeia, abriu a seção de falas nos lembrando a condição de professores marcados pela esperança e, ao situar os professores indígenas do Amazonas e da Amazônia, conjugou a esperança e a resistência em permanente processo de reinvenção e criatividade. “Chegamos até aqui e seguiremos para chegar mais longe na defesa dos nossos direitos e na conquista de outros direitos necessários”, disse o professor e antropólogo social Gersem em tom de conversa ampliada.

Os sinais de ameaça distribuídos a partir de Brasília e Rio de Janeiro ganham corpo e estão sendo respaldados nas linhas mestras da política brasileira na gestão Paulo Guedes já em andamento. Aos indígenas o caminho está sendo aberto no ato da caminhada em si, agora diante de um cenário que inclui novidades, como as possibilidades gestadas pelo funcionamento das redes sociais, e não é, de acordo com Gersem, nem melhor nem pior quando confrontado com as batalhas travadas secularmente pelos povos indígenas. É uma outra etapa de lutas para serem lutadas!

Pensar na perspectiva de ser esperança e ser resistência as ações e condutas que desrespeitam e retiram direitos, não alimenta unicamente a mobilização dos indígenas.  O chamado do Foreeia possibilitou enxergar possíveis caminho de reencontros e novas alianças, temperou vontades e sonhos acomodados, silenciados. Precisamos nos reencontrar e, se chegamos a essa conclusão indicativa, nesse encontro, é porque no meio do caminho nos perdemos, nos isolamos em nossas próprias falas e atitudes.

As crianças cantoras, dançarinas, pitadas e impulsionadas pela vontade de cantar nos ensinando sobre os gestos, encharcaram de significação a reunião feita de cantoria que retira nossos pés do lugar do chão. Que venham as marchas e as alianças para que a música da esperança e da resistência para existir com dignidade seja cantada alta cada vez mais por vozes em soma até que sejamos milhões percorrendo as estradas do Brasil.