Publicidade
Blogs

Por que o Brasil não deu certo: um breve histórico

Por Fábio Calderaro, economista 30/11/2018 às 15:53
Show brasil 123 04ca1f46 282b 4534 849f de1d10a7c973

Até 1980, o Brasil estava entre as três economias mundiais mais pujantes. Durante o milagre econômico dos anos 70, crescíamos a taxas de 10% ao ano e praticamente dobramos nossa renda per capita. Nossas exportações de manufaturados aumentavam e a indústria se sofisticava.

Nosso grande erro, porém, foi não ter feito do mercado mundial o motor do nosso crescimento como fizeram, à época, Coreia do Sul e China. Tanto é verdade que, em 1980, Brasil, China e Coreia exportaram valores equivalentes a US$ 20 bilhões cada. Em 2017, a China exportou mais de US$ 2 trilhões, Coreia U$ 500 bilhões e o Brasil apenas US$ 200 bilhões.

Nosso modelo de desenvolvimento começou com a substituição de importações. O processo que aumentou nossa produção interna e diminuiu os importados iniciou na crise dos anos 30 e se estendeu pelos governos JK e dos militares. Contudo, não fomos capazes de aproveitar o êxito, dando o segundo passo para a conquista dos mercados mundiais, como fizeram os asiáticos.

Não só erramos, mas agravamos o erro. Com o choque do petróleo nos anos 70, endividamo-nos em dólar e a economia começou a se voltar ainda mais para dentro, aproveitando o amplo mercado interno. As tarifas aumentaram e nossa indústria se expandiu internamente com muita ineficiência. Nos anos 80, quebramos pós segundo choque do petróleo e a política de juros de Volcker nos EUA. A dívida externa e os déficits em conta corrente nos colocaram de joelhos diante do FMI.

A crise dos anos 80 não foi, contudo, uma exclusividade nossa. A Coreia também quebrou. Tinha tanta dívida e déficit externo quanto nós. Acontece que a economia coreana já estava toda voltada para fora, com o motor do crescimento baseado nas exportações. A partir de meados de 80, a Coreia já voltava a crescer enquanto o Brasil continuava atolado nas crises de dívida, fiscal e inflação fora de controle.

Na década de 90, iniciamos uma nova transição econômica. A abertura da economia, o controle da inflação, privatizações, uma tímida melhora fiscal e novos marcos regulatórios prepararam o país para um novo ciclo de crescimento. O período ficou marcado como uma grande fase de ajustamento que, apesar do baixo crescimento, possibilitou importantes reformas institucionais na economia brasileira. Mas, novamente, não fomos capazes de fazer uma abertura de mercado inteligente com aumento de exportações e inserção das empresas brasileiras no mundo, como fizeram, por exemplo, China e Índia à época. Como resultado, a sobrevalorização cambial no Brasil decorrente do plano de estabilização castigou nossa indústria doméstica, que já estava tentando se adaptar a abertura tarifária. Mais um violento golpe.

A grande desvalorização da moeda brasileira pós 2002 e o crescimento da economia mundial atenuaram os problemas dos anos 90 e nossa indústria voltou a crescer com força até a crise de 2008. A primeira fase do governo Lula foi caracterizada por forte expansão da indústria e exportação de manufaturas. Isso pôde ser visto pela evolução da composição da pauta de exportação e na expansão da produção industrial. A segunda fase da era Lula, porém, caracterizou-se por expansão do credito e retração das manufaturas na pauta de exportação. A crise mundial de 2008 interrompeu a bonança de crescimento externo e cortou a demanda mundial por manufaturas. A reposta da China à crise causou explosão do preço de commodities e reforçou a trajetória de apreciação da moeda brasileira, que já vinha com força desde 2006.

A alavancagem de crédito provocou o boom do consumo e de construções imobiliárias no Brasil, resultando em grande aumento de endividamento e oferta de imóveis. Os investimentos foram todos direcionados para o setor de não transacionáveis (prédios comerciais, residenciais e shopping centers). As desonerações do governo Dilma agravaram o problema, injetando demanda agregada e complicando a situação de contas públicas. O represamento de preços administrados contribuiu na mesma direção.

Em 2015, essas políticas foram revertidas e a bolha que já vinha desinflando estourou. O choque de juros, o realinhamento de preços livres e administrados e a forte desvalorização cambial deram o tiro de misericórdia na atividade econômica e estouraram a bolha de crédito e consumo.

Após o impeachment, o plano "Uma Ponte para o Futuro” do PMDB inicia uma série de reformas macro e microeconômicas. Acontece que, após o fatídico "Joesley day", o presidente Temer perde praticamente todo seu capital político, frustrando as reformas estruturais. Mas estou certo de que o querido leitor conhece muito bem este capítulo.