Quarta-feira, 03 de Junho de 2020

Quem são os parasitas do Brasil?

Por Eron Bezerra, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, professor da Ufam, engenheiro agrônomo. Autor dos livros "Amazônia esse mundo à parte" e "Sustentabilidade: trilhas a percorrer"


18/02/2020 às 17:54

O ministro da Economia, Paulo Guedes, certamente querendo agradar aos empresários para quem proferia uma palestra, afirmou que os servidores públicos são os parasitas que estão matando o hospedeiro, no caso o Brasil.

Foi muito aplaudido pela plateia, embora não tenha fornecido um único dado que pudesse sustentar a sua afirmação. E não foi por desconhecimento de como o dinheiro público é gasto que o ele deixou de fornecer esses dados. É exatamente porque se revelasse os dados, que ele conhece, ficaria evidente mais uma das inúmeras notícias falsas que eles propagam diariamente.

E vamos aos números. Segundo o portal da transparência, de 2016 a janeiro do corrente ano, a despesa total do governo federal foi da ordem de R$ 10,32 trilhões de reais com todas as suas despesas, assim distribuídas em valor e percentual:

  1. Outras Despesas Correntes                                               4,59 trilhões (44,49%)
  2. Serviço da Dívida (amortização, refinanciamento, juros)     4,41 trilhões (42,75%)
  3. Pessoal e Encargos Sociais                                                0,99 trilhões (9,61%)
  4. Inversões Financeiras                                                        0,26 trilhões (2,49%)
  5. Outros                                                                              0,07 trilhões (0,67%)

Esse resumo revela, de forma inquestionável, que enquanto a despesa com servidores foi da ordem de 9,61%, o Serviço da Dívida (banqueiros e demais agiotas) consumiu algo como 50% de todo o orçamento da União. Todas as demais despesas, absolutamente tudo, incluindo previdência, servidores, congresso nacional, judiciário, educação, saúde, segurança, agricultura, infraestrutura, defesa, etc., são custeados pelos 50% restantes, mas o ministro da economia – que pediu desculpas protocolares e já passou a insultar as empregadas domésticas – acha que parasita são os servidores e não seus banqueiros.

Ainda restam dúvidas de quem são os parasitas do Brasil?!

Esse ataque aos servidores, todavia, não é algo isolado. Obedece a mesma lógica da contrarreforma da previdência, do fim da valorização do salário mínimo, do corte em programas sociais, bolsas, projetos acadêmicos e programas de habitação popular, tipo minha casa minha vida. Visam suprimir despesas essenciais ao desenvolvimento do país para fazer caixa e aumentar, ainda mais, o botim dos banqueiros e demais agiotas.

Como esses dados, infelizmente, não são popularizados, o governo divulga a versão que lhe convém para manipular a opinião pública, alimentar seus apoiadores e tripudiar sobre trabalhadores que tem caráter estratégico para a nação,

Embora não se possa desconhecer eventuais falhas e limitações pontuais do serviço público, é preciso ter presente que os servidores públicos são responsáveis, dentre outras extraordinárias contribuições, por quase 100% da pesquisa e da tecnologia desenvolvida no país; pela formação de milhares de profissionais em todas as áreas do conhecimento; pela atenção à saúde, à educação, assistência técnica a milhões de produtores rurais, segurança, inteligência, fiscalização, vigilância e a própria defesa do país.

Como se pode constatar, os servidores públicos jamais poderiam ser chamados de parasitas, salvo dentro da lógica das “fake News” que tem sido a marca desse governo.

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