Domingo, 18 de Abril de 2021

Respeitem os idosos

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas


27/01/2021 às 16:44

Paupérrima há de ser uma sociedade que não reconhece a importância dos que viveram um pouco mais, ou até muito, que a maioria dos que ainda compõem a chamada força de trabalho do  mundo dito capitalista. O conhecimento adquirido no correr do tempo, no enfrentamento das batalhas diárias, na acumulação de conquistas e de perdas, na construção e na destruição de sonhos, de expectativas e até de virtudes pode ser uma boa nau-capitã de orientação para os que chegam tomados de força e de vontade de vencer. O não reconhecimento dessa importância é empobrecedor, certamente, e vergonhoso.

São muitos os exemplos, na história da humanidade, de homens e mulheres de contribuições significativas em vários aspectos da convivência e do desenvolvimento humano, e são tantos que trazer-lhes os nomes aqui terminaria gerando lista provavelmente cansativa parta os leitores. Winston Churchill talvez baste como exemplo de força, de equilíbrio e de segurança nos tempos da Segunda Guerra. Ou Elizabeth II.

Pois bem, na miséria da pandemia que o Brasil vem enfrentando dede março do ano que passou, já se contam aos milhões os contaminados por um vírus desconhecido e desafiador e desde o começo o maior índice de mortalidade está entre os brasileiros de mais de 65 anos, idosos tal como definidos pela legislação pátria, ao ponto de virarem sujeitos de campanhas de orientação sobretudo quanto à necessidade de praticar o isolamento social, evitando aglomerações, para cortar, ou diminuir, o fluxo de contágio.

Agora, apesar das muitas desconfianças e da pregação do medo, subsistentes ainda querelas políticas pueris, em diferent4es níveis de poder, embora profundamente danosas para os que lotaram os hospitais, inclusive os de campanha que tiveram de ser construídos às pressas, alguns dos quais serviram de ralo escuro para o sumiço criminoso de dinheiro público, afinal o Brasil admite vacinar brasileiros e começa a receber, por lotes, milhões de imunizantes vindos da China e da Inglaterra. Instalou-se, então, um circo de confusões, de disputas e de trapalhadas no que deveria ser a repetição de atividade que nosso sistema de saúde, apesar de precaríssimo sempre, está mais que acostumado a fazer: aplicar vacinas.

Como a quantidade produzida, mesmo que enorme, continua insuficiente para atender a demanda, pelo fato simples de que a necessidade é comum em todo o planeta, as autoridades começaram a orientar a escolha de grupos de pessoas como prioridades: trabalhadores da saúde, sobretudo os que estão na chamada linha de frente, indígenas aldeados, tradicionalmente distanciados do atendimento à saúde do branco, e idosos, que continuam compondo o maior percentual de mortes vítimas da enfermidade maldita.    

Começaram a vacinar e no mesmo dia  já circulavam  notícias vergonhosas sobre pessoas que se beneficiaram da ação sem estarem entre os que trabalham com saúde e sem serem indígenas nem idosos. Uma lista com mais de cinco mil nomes que chegou a conhecimento público continha números de cpf errados e a expressão “outros” no espaço destinado à indicação do cargo ou função do vacinado. Num caso e noutro, segundo um jovem e valente Vereador, ultrapassando o milhar. Vergonhoso, seja qual for o prisma da análise, de fazer corar o busto de Aderson de Menezes na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas.

Enquanto isso, faltavam leitos, clínicos ou de unidades de terapia intensiva, e, por fim, faltava oxigênio nos hospitais e pessoas morriam talvez de forma mais cruel que na forca de Tiradentes, sufocadas, impedidas do gesto mais primário da respiração. O Brasil passou a apiedar-se do Amazonas, com governadores de vários Estados abrindo mão de parte das vacinas que lhes seriam destinadas para atender a verdadeira calamidade que aqui se instalou. E uma quantidade bem superior ao que seria de esperar, mais de duzentos e trinta mil doses de vacina vieram para aqui, com a orientação de imunizar índios, servidores da saúde e idosos, ao tempo em que o Judiciário era instado a cobrar do município a primária obrigação de explicar as incorreções constatadas na lista dos primeiros privilegiados com a imunização.

Em ambiente de certa euforia, circulou anúncio de que idosos de mais de 75 anos seriam atendidos em três cantos da cidade: no Sambódromo, no Parque do Idoso e em shopping que a prefeitura construiu na zona leste de Manaus. Não aconteceu e a notícia foi havida como mais uma das deploráveis e sempre insensatas, pra dizer o mínimo, “fake news”. Um dia depois, autoridade municipal informou de viva voz em programa de rádio e de televisão que a tal vacinação ocorreria, justo nos lugares antes indicados. E marcou o dia: 26 de janeiro, seguinte ao da entrevista. Ao início da noite do 25 de janeiro uma servidora foi incumbida de, em desmentido, informar que os idosos a serem atendidos eram apenas os pouco mais de cem que habitam a fundação municipal de acolhimento. Os outros, não sabia quando. Desavisados e por certo ainda confiando no anúncio oficial, muitos senhores e senhoras de idade igual ou superior aos agora já famosos 75 anos, foram aos lugares indicados e nada havia ali.

Nesse interim, nobilíssima juíza federal, previdente e cautelosa, que de mim merece profundo respeito, viu-se obrigada a proibir a entrega de vacinas ao município sem que essa unidade federativa cumpra o primaríssimo dever de comprovar a correção do que estava sendo feito, além de exibir para as autoridades a programação, o planejamento, enfim, do atendimento dos brasileiros aos quais a vacina está destinada por gesto humanitário e de bravura de governadores de outros estados. A ela, por certo, não lhe terá restado alternativa, à vista da desconfiança que se instalou.

 E aí assisto a uma entrevista na televisão em que escuto que 48 ou 72 horas após receber as vacinas que estão na posse da Fundação de Vigilância em Saúde, do Estado, depois desse tempo será publicado um calendário de vacinação dos velhinhos. Quantos adoecerão nesse período? Quantos morrerão se a média de óbitos diários em Manaus é de mais de cinquenta? Por que precisa de tanto tempo pra programar algo que se faz ordinariamente todos os anos, até com gripe mesmo, com ou sem Zé Gotinha? A experiência do setor de saúde municipal em sede de vacinação é inquestionável e o nosso SUS oferece as condições indispensáveis à ação. Por que não deixar tudo preparado, arrumado, distribuído, com pessoal escolhido e designado, horários e turnos de trabalho estabelecidos, mesas e cadeiras já nos locais, computadores apropriados? Por que esse desrespeito com os mais velhos? Afinal, depois do que conduziu a digna juíza a determinar a suspensão da ação vacinal, não há dúvida de que os trabalhos serão rigorosamente acompanhados e fiscalizados.   

Respeitem os idosos, ainda que não os tenham mais em suas famílias ou a cujo privilégio  nem acreditem  chegar um dia. Respeitem os que já construíram, e até legaram, e respeitem o fato de que as vacinas doadas para Manaus por governadores de outros estados são destinadas aos idosos, justo porque, imunizados, deixarão de pressionar a rede hospitalar, de exigir aumento de quantidade de leitos e de construção de usinas de oxigênio. Não se está pedindo piedade, mas respeito à cidadania.


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