Sexta-feira, 07 de Maio de 2021

Trapalhadas na pandemia

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas


05/03/2021 às 15:12

Contam-se aos milhares os que, em jornais, revistas, blogs ou quaisquer outros sítios de internet, têm escrito a respeito do massacre que se abateu sobre o planeta há mais de um ano trazido por um vírus desconhecido e desafiador causador de uma doença que a medicina ainda não aprendeu a dominar inteiramente com medicamentos específicos, protocolos de receituários apropriados para o tratamento e menos ainda para a prevenção.

Há os que acreditam tratar-se de um vírus criado propositadamente em laboratório e dolosamente distribuído para o mundo com vistas a aumentar o poderio econômico e político de determinada comunidade asiática, o que chegou a ser apregoado inclusive por detentores de mandatos no Brasil. Isso seria forma hodierna de dominação que, em todos os tempos e por vários meios, sempre interessou ao Homem em relação a seus semelhantes. Mas há os que, ingênuos ou não, preferem crer estar na própria Natureza a origem de um corona, que nem é o primeiro, diga-se, mas que se impôs, pelo mal que continua causando e assumindo posição prioritária em relação a tudo mais da vida em sociedade.

O fato é que todos os países, todas as colônias e todos os reinos tiveram de curvar-se a sua excelência e governantes desorientados, assustados, atemorizados mesmo, precisaram passar a cuidar de uma pandemia que pôs a nu a fragilidade, a desorganização, a ineficiência do sistema de saúde, público ou particular, com deficiências que aproximam desenvolvidos, em desenvolvimento e não desenvolvidos.  Hospitais superlotados, falta de instrumentos e materiais apropriados, carência de pessoal especializado e de suprimento de remédios, deixando a todos atônitos e sempre crescente a quantidade de mortes diárias em todos os lugares. Aqui, como depois em outros cantos do país, chegou a faltar oxigênio nas casas de saúde e dezenas de pessoas faleceram à míngua do primário direito de respirar. Aliás, a propósito disso, considerando entrevistas, depoimentos e informações oficiais, já são 4, e naturalmente diferentes, os dias em que o ministro tomou conhecimento pela primeira vez da crise de oxigênio no Amazonas.  Também houve os que não acreditaram na gravidade e resolveram enfrentar a luta com alguma desportividade, como se deu, por exemplo, com o ex-presidente da nação dita mais poderosa do mundo e que, desde o começo, lidera em óbitos e em contaminação. Para ele, como para muitos, era mais uma endemia igual a tantas já enfrentadas e foi preciso a Europa entrar em colapso, com a Itália assustando o mundo, e alguns estados americanos seguindo caminho semelhante para que ele compreendesse a gravidade e o preço foi de muitas vidas perdidas. Infelizmente, outros líderes seguiram caminho igual.

Por aqui, entrava em discussão no mundo oficial a utilização de determinada substância, apropriada para o tratamento de certa doença tropical e a resistência à tese da eficácia acabou levando de roldão a autoridade de saúde.  E logo depois outro ministro, que também não concordava com a ideia de ser inapropriada a adoção de medidas de reforço ao distanciamento social, para privilegiar o campo da economia. E um terceiro chefe de saúde tomou conta do avião em pleno voo, passando bom tempo com o dever de dirigir mas sem que se lhe concedesse o brevê de comandante. E assim ficou em boa parte da viagem.

Hospitais de campanha que não chegaram a funcionar, apesar de pagos, equipamentos impróprios e com preços largamente aumentados e o sudeste brasileiro sofrendo o que o Amazonas já conhecera de aumento de casos e de mortos, de enterros em valas comuns, tudo que acabou provocando  o afastamento de um governador para responder a processo criminal e um prefeito que não conseguiu concluir o mandato que, aliás, nem se renovou.

Discussões sobre a propriedade de utilização de substâncias apropriadas para doenças de natureza em nada parecidas com a da pandemia e sobre a necessidade ou a inutilidade do uso de máscara ou o distanciamento social, com muitos considerando que somente os eleitos como grupos de riscos – idosos, indígenas e portadores de comorbidades – constituíam o público-alvo das investidas virais. E de repente jovens ocupando leitos em hospitais e até indo a óbito, ainda que isso não convença a muitos que continuam vivendo com indiferença,  frequentando festas e shows, em terra firme, em barcos ou em flutuantes, que passaram a ser clandestinos.  

Em meio a tantos conflitos, idas e vindas de restrições às atividades humanas e ao exercício de ir vir com liberdade, em qualquer horário, para qualquer lugar e com qualquer finalidade, cientistas começaram a falar em avanços na construção de vacinas. Muitos festejaram esse anúncio, mas não foram poucos os que apregoaram a desconfiança, usando o pouco tempo como desculpa, que jamais se fizera algo assim com tanta velocidade. Era o que servia para manutenção, e até fortalecimento, de um jogo político que, felizmente, não incomodou os homens e as mulheres da Ciência e no final do ano o mundo passou a conhecer e a usar essa forma de prevenção que tanto bem tem feito à humanidade, como se dá com o sarampo, a difteria, a tuberculose, a pneumonia, o tétano e tantos outros males que já foram endêmicos e até pandêmicos. O resultado já começa a aparecer, como se vê em Israel que imunizou mais da metade de sua população e está voltando à normalidade da vida econômica e social, ou com os Estados Unidos que vem aumentando a vacinação, que já chega a 50 milhões de pessoas, e diminuindo a quantidade de contaminados e de vítimas fatais.

No Brasil, que conheceu a desconfiança desde o início, a vacina foi rejeitada pelo menos para dois fabricantes, em duas oportunidades, e isso fez com que para aqui não viessem aproximadamente 260 milhões de doses do imunizante. O Instituto Butantan, respeitado em São Paulo e no mundo inteiro, iniciou conversações com farmacêutica chinesa para compra de vacinas prontas e de insumos para produção no Brasil, como já faz para combater outras doenças, e houve quem cuidasse de criar e fomentar uma nuvem de desconfiança pela origem do produto. Até que alguém de bom senso lembrou a importância da China na tecnologia e na produção de material para fabricação de insumo e de vacinas. E foi só aí que arrefeceu o clima de guerra de politiquice que se instaurara.

Enquanto o país perdia tempo (e vidas humanas) discutindo o tema, parte do resto do mundo tratava de adquirir vacinas e preparar a vacinação que se iniciou antes que 2020 terminasse. Foi quando nosso ministério da área resolveu admitir que os brasileiros que se quisessem vacinar tinham direito a tanto e, para isso, começou a comprar e a receber o imunizante chinês e outro adquirido na Índia, este que virá acompanhado de insumo para que a Fundação Oswaldo Cruz, também de renome mundial, passe a fazer produção nacional.

Iniciada, finalmente, a vacinação, começando por grupos de risco – profissionais de saúde, idosos e indígenas – logo no primeiro dia o famoso jeitinho brasileiro fez surgir a vergonhosa figura do fura-filas, aproveitadores que não integravam nenhum dos grupos selecionados mas que, julgando-se superiores, com mandatos ou não, conseguiram ser vacinados. Isso deu exoneração de titulares de cargos públicos,  após tomarem a segunda dose do imunizante. Até prefeito houve que cuidou de si ao argumento de que precisava servir de incentivo para a comunidade. E também tivemos exemplos escandalosos de desídia – diz-me minha ingenuidade – de agentes de saúde que não injetaram nos pacientes o líquido imunizador, frustrando a alegria e a esperança de quem lhes entregou o braço para uso da seringa.

Poucos dias depois de iniciado o processo, que a tantos encheu de confiança, vários municípios tiveram de suspender a ação por um fato singelo: faltou vacina. A quantidade que afinal havíamos conseguido adquirir e receber era insuficiente até para a chamada primeira fase, mesmo que proveniente de dois fabricantes distintos. E começamos a correr atrás do prejuízo, tentando recuperar o tempo perdido, não adiantando agora lamentar não haver aceitado os 260 milhões de doses que tanta falta estão fazendo. Estamos, então, engatinhando num processo em que outros países já avançaram significativamente, tanto que agora que chegamos a pouco mais de 3,6% da população.

Já tratei neste espaço que em meio a isso, o chefe da saúde anunciou a antecipação da imunização de maiores de 50 anos a contar de 22 de fevereiro e naquele dia nada aconteceu, sem qualquer justificativa ou explicação, e somente uma semana depois é que se conseguiu iniciar vacinação dos de idade entre 65 e 69 anos. Mesmo assim, estamos liderando o ranking nacional e temos mais de 6% de nossa população atendida, ainda que só parcialmente, porque com a primeira dose, como seve ser.

Felizmente, temos decisões judiciais  e projeto de lei que vem de ser aprovado que permitem a governadores e a prefeitos realizarem a compra de vacinas já autorizadas pela ANVISA, o que conduziu alcaides de vários municípios a constituírem um consórcio que deverá facilitar a aquisição desejada, tomara que desta vez sem trapalhada qualquer.


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