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Trufas rebeldes

Por Ivânia Vieira Professora da Ufam e Articulista de A CRÍTICA e-mail:ivvieira@uol.com.br 03/10/2018 às 17:58
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(Foto: Junio Matos)

A “Tia da Trufa” é um hipertexto. Tornou-se uma das pessoas mais conhecidas no território do antigo ICHL, hoje IFCHS, no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). E de lá para outros ambientes da universidade carregada imaginariamente pelos estudantes dos mais antigos aos mais novos, principalmente por aqueles que se concentram próximo ao ponto de ônibus, onde há anos, a tia instalou a banqueta, um isopor e vende suas iguarias.

Talvez, o mais adequado é situá-la como mulher contadora de histórias. As trufas seriam a senha para ingressar no clube de interlocutores e ouvintes da tia ou os pequenos arranjos alimentícios coloridos da degustação livre no tempo de relatos e percepções sobre as coisas da vida. A tia é um sucesso no universo cotidiano do “ponto de ônibus do ICHL”. Ativa e atenta.

Do ponto de ônibus do ICHL para o mundo, em jeito livre, desconcertante e determinado a tia decidiu participar, em Manaus, no dia 29 da manifestação internacional Mulheres Contra o Fascismo, no Largo São Sebastião. O corpo vestido por um biquíni e por palavras de ordem inscritas horizontal e verticalmente. A Tia da Trufa é um livro descontínuo, personagem e narradora. Com suas trufas reuniu-se à multidão que disse sim à mobilização e a sua comunidade universitária, desfilou entre os presentes e conversou mantendo rotina semelhante àquela do campus.

Poucos minutos depois dessa presença, e nos dias seguintes a tia tornou-se mais uma das vítimas de ativismos do preconceito, da discriminação, do ódio e do sexismo. Postagens seladas pela violência tentaram desqualificar a mulher de biquíni que ousou transitar e falar publicamente em uma manifestação contra o autoritarismo e o fascismo. A lista de agressões é comprida e farta. A fotografia da tia de biquíni passou a ser “prova” contra os milhares de pessoas que foram ao Largo São Sebastião e, também, mais uma motivação para nos mantermos em luta.

Vestir-se de biquíni ou desvestir-se, ostentar a linguagem do corpo não são atos inovadores. Há muito tempo as mulheres travam batalhas nessa outra frente em diferentes regiões do mundo para marcar posicionamentos. Já não deveria ser estranhado. Tantas delas foram mortas, queimadas, violadas, encarceradas, diagnosticadas como loucas, exiladas. As agressões assacadas contra a tia expõem a violência e a hipocrisia dos tempos atuais e as perturbações produzidas ao longo da história por um corpo nu, seminu.

A fome, a miséria, o autoritarismo, o fascismo, o racismo, a discriminação e o sexismo deveriam incomodar mais. Deveriam ser enfrentados pelos corpos nus e os muito vestidos para superar a fase de barbárie. A tia, ao seu modo, continua a sorrir largamente, a contar páginas novas páginas das histórias e a distribuir trufas docemente coloridas e o faz sem tomar o canto de ninguém. Tem o seu lugar agora reafirmado; abre trilhas a vendedoras e vendedores de outras trufas, brigadeiros, água e bolos na cidade Ufam. É uma doce vingança contra o ativismo do ódio.