Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Violência na cidade, insegurança no Campus

Fuga de presos e clima de terror na Universidade Federal do Amazonas alertam para a fragilidade da segurança do “nosso maior patrimônio”


08/01/2017 às 21:01

Por João Ricardo Bessa Freire (Doutor em História, professor da Ufam)

 

No dia 1º de janeiro de 2016 o manauara foi dormir atônito com as cenas de atrocidades ocorridas em consequência da rebelião de presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Daí em diante não conseguiu mais dormir com medo da insegurança provocada pelas fugas de mais de 100 presos que, soltos pela Cidade, alguns acabaram escondendo-se nas matas do Campus Universitário da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), segundo notícias divulgadas extensivamente nas redes sociais.

Esse fato chama a atenção da comunidade universitária para a fragilidade da segurança do “nosso maior patrimônio” e para a necessidade da administração superior da Ufam cuidar melhor da integridade dos nossos alunos, professores e técnicos administrativos. Nós da academia aprendemos com os grandes mestres da sociologia que o problema não é simples e que, antes de ser uma questão de polícia, tem a gênese nas péssimas condições de vida da população brasileira e na má distribuição de renda provocada pela insanidade e egoísmo centralizador do capital financeiro especulativo.

Filosofia à parte, e analisando o problema concreto dos acontecimentos recentes em Manaus, fica claro que as atrocidades ocorridas em nossa Cidade são reflexos do modelo perverso adotado no País desde o século XIX e agravado com a onda neoliberal do século XXI. O mais grave é que os últimos governos, sobretudo de FHC, Lula e Dilma, foram incapazes de sequer provocar arranhões nesse modelo. Diga-se de passagem, que não constitui nenhum exagero afirmar que os banqueiros neste País nunca ganharam tanto dinheiro como nesses três últimos governos.

A miséria, a exclusão social e o desemprego provocados pela ganância dos banqueiros e pela má distribuição de renda no País agravaram os problemas sociais no Brasil e contribuíram para o aumento dos índices de criminalidade nas cidades brasileiras, inclusive em Manaus. Os reflexos dessa situação atingiram em cheio a comunidade universitária da Ufam, com registros de assaltos a estudantes nas paradas do ICHL, destruição de carros e espancamento de reféns. E como denunciou a estudante Sophia Almeida, “a Reitoria continua com a fala do governador”, limitando-se a dizer: “Está tudo sob controle”. A situação agravou-se a ponto do Curso de Biotecnologia decidir pela suspensão das aulas e outros departamentos iniciarem discussões sobre a possibilidade de seguir o mesmo caminho.

Mesmo tendo a consciência de que o problema da violência é de natureza estrutural, não custa adotar medidas pontuais, sob pena de termos que chorar pelos nossos alunos, professores e técnicos administrativos. O Campus precisa receber boa iluminação, é necessário que se implante um sistema de câmeras eficientes e que se melhore o policiamento ostensivo. Tudo indica que quaisquer medidas nesse sentido não vão erradicar a violência no Campus, mas, com certeza, servirão para diminuí-la. É melhor prevenir do que remediar.

 

 


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