Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

A descoberta de Diego Moraes

Após anos buscando um autor da nova geração de poetas amazonenses que me empolgasse, eis que me deparo com a obra de Diego, um poeta cujos versos não demoram a fazer efeito


30/03/2016 às 14:45

Por Felipe Wanderley

Sempre curti poesia. Quando pequeno sabia de cor alguns poemas prediletos de minha mãe, não por imposição do gosto materno, mas porque me soavam bem, mesmo quando não os entendia. Também escrevia e ainda escrevo um bocado. Mas como leitor, sempre tive apreço pelos poetas que faziam de sua arte não apenas uma corda de fios trançados, de pontas bem aparadas e elos-rimas milimetricamente estudados. Aprendi a apreciar a espontaneidade, o verso vivo, pulsante, o poema sujo de Ferreira Gullar, o conteúdo moldando a forma, e não o contrário. Gostava da poesia onde morava a filosofia, crítica social, e fazia sentir a paixão e próprio sexo muito além dos falsos amores românticos. E fazia questão de falar dessa poesia aos meus amigos, para que eles não pensassem que os versos serviam apenas para roubar beijos de donzelas ou satirizar professores, embora essas talvez sejam suas maiores utilidades.

E assim, pois, que me sinto agora: compartilhando, como fazia com versos de Quintana a Glauco Mattoso aos colegas de ensino fundamental e médio, só que desta vez aos meus amigos do Blog do Bem Viver. Mas dessa vez não precisei descer ao sul do Brasil ou subir até o Maranhão para me inebriar com versos que não demoram a fazer efeito. É de Manaus uma das grandes revelações da poesia e da literatura brasileira dos últimos anos. Aos 33 anos, o escritor Diego Moraes é uma grata surpresa num cenário onde há alguma produção, duvidosa qualidade e escassez de leitores e aficionados pelo tema. O melhor: Diego é daqueles poetas que fazem até quem "não gosta de ler" achar um barato. Seus versos são como cacos de vidro - são belos e transparentes, mas perigosamente afiados. Com domínio da técnica poética, do ritmo e do conteúdo de seus textos e poemas, que permeiam o universo da vida cotidiana e tiram flor do lixão, o Urso Vingativo (codinome do autor) está na área. E tem fome.

Indicação: seu livro “Meu Coração é Um Bar Vazio Tocando Belchior” tem sido apontado como uma das melhores publicações de novos autores brasileiros nos últimos anos.

A seguir, uma pequena mostra da poesia de Diego Moraes, um haicai e dois poemas:

O peito do poeta

É uma cidade cheia

De amores suspeitos.

*** 

Abandonei muitas coisas

Sobretudo os vícios

E os desejos de me tornar

Coisas que nunca seria

Abandonei muitas coisas

Sobretudo o remorso e a mágoa

Mas permanece

A fissura de solicitar

Sua amizade no Facebook

E marcar o nome dela

Num poema cheio de amores.

***

Ana passou 40 anos

procurando a felicidade

em outras bocas

em outros corpos

até que conheceu os livros

e descobriu que a poesia

é uma árvore que abraça

e dá muita sombra.

Seguem outros links para ter acesso à parte a obra do poeta amazonense:

http://ursocongelado.tumblr.com/

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/11/diego-pkjkmoraes.html

O site Pensador Uol já tem uma porção de citações do autor .

Por fim, o próprio Facebook do autor, onde ele posta textos como este:

“Você já era!” ela diz botando mais tempero na panela do frango. A cozinha se enchendo de fumaça e as crianças chorando cada vez mais alto. Já perceberam que a vida começa com criança chorando e acaba num maldito silêncio? “sei que você escreveu aquele poema pra comer ela!” e continua. O semblante puro ódio e os peitos cheios de leite. As pernas marcadas de ferradas de mosquitos e os olhos vermelhos de tanto lacrimejar decepções. “fica com ela! é isso que quer, não?” e eu sentado no sofá rindo. Tentando acender um cigarro enquanto ela entra no quarto e revira gavetas. “isso não rola mais! você é a única musa que sobrou na minha vida.” Digo tentando apaziguar. E nada. As crianças berram mais alto como se uma doença nova se alastrasse no mundo. “Vou te matar!” e o revolver apontado pro meu joelho. “E agora? Você não se acha o garanhão? O picão?” então fecho os olhos e digo com a voz mais doce do mundo: “Atira. Atira! Não escrevo com a perna mesmo. Escrevo com a mão!” Ela respira fundo, aponta pra minha cabeça e sentencia: “não farei de você uma lenda. Não sou Verlaine atirando por amor em Rimbaud. Só atiro pra matar” meus miolos explodem sujando as paredes e as crianças finalmente param de chorar”.

 

 

 


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