Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021

A esquina do céu com o inferno

Livro de Eury Donavio propõe divertida jornada


11/01/2021 às 19:57

por Myriam Scotti

Faltam apenas quarenta e oito horas para o dia de São José. Esse é o prazo concedido ao Matador para dar cabo no “bexiguento” que afasta as chuvas e castiga o sertão. Ao ler os primeiros parágrafos do romance de estreia de Eury Donavio, logo pensei em Euclides da Cunha para quem “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, definindo com precisão todos os que enfrentam, carregados de esperança, as dificuldades trazidas pela seca.

Em Fiados na esquina do céu com o inferno (cujo título já é em si um convite à leitura), somos apresentados a um personagem instigante, que nos conduz à reflexão livre da melancolia padrão dos personagens sofridos e oferece em seu lugar humor, no tom exato que o protagonista exige. Além disso, por meio de um léxico muito peculiar é possível viajarmos até paisagens, expressões e sentimentos por vezes alheios à nossa realidade. Ao longo das páginas, sem nos darmos conta, compramos a causa do matador-protagonista, que no cativa em meio a garrafadas e muita cachaça, ora lúcido, ora delirante, cobrando suas dívidas anotadas numa caderneta. Ciente de que não escapará do inferno, o Matador sela um acordo para tentar se safar das mãos do tinhoso, numa bodega que fica justamente na esquina do céu com o inferno.

Em tempos devastadores como os que estamos revivendo neste janeiro em Manaus, deixo minha dica como primeira leitura do ano um romance que nos oferece a chance de esticar a vista para outros horizontes, uma pausa no cenário trágico ao nosso redor. A jornada do herói proposta pelo autor é divertida, bem construída e nos remete a grandes nomes, como Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e até mesmo aos filmes do brilhante Quentin Tarantino. Não é exagero. Garanto que não serão poucos os momentos em que o personagem arrancará boas gargalhadas suas, mesmo estando em maus lençóis, instante em que a história nos arrebata por completo. Afinal, às vezes é preciso rir de si mesmo se quisermos atravessar nossos próprios sertões.

Boa leitura!

P.S.: O romance venceu o Prêmio Literário de Manaus e recebeu menção honrosa do Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores, ambos em 2019.


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