Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

O que a moda nos conta e canta


11/04/2016 às 14:46

Por Laynna Feitoza

Estar em pé, diante de uma passarela, momentos antes de começar um desfile de moda, fala tanto sobre nós quanto os filmes e livros a que assistimos e lemos por aí. Fala sobre nós do ponto de vista que, a cada marca que desfila, muito sobre os criadores - e espectadores também - é contado. 

Semana passada, o circuito do fashion design brasileiro teve Minas Gerais como a “menina dos olhos” com a 18º edição do Minas Trend, uma enorme feira voltada aos negócios relacionados à moda no País. A imprensa nacional e mundial, assim como compradores nacionais e de todas as partes do mundo estiveram por lá. E, certamente, conferiram mais que costuras e tecidos.

No período de 4 a 7 de abril, recebi a valorosa missão de acompanhar o evento. Primeiramente, já é muito valoroso a organização, em todos os anos, resolver contar com o BEM VIVER e nos fazer o convite formal para irmos lá. Como meu primeiro grande evento de moda, posso dizer que fiquei ligeiramente assustada, por inicialmente não conseguir roteirizar na minha mente o que ia fazer. Mas não foi nem preciso – o rio acabou seguindo seu curso, naturalmente.

Simpatia

O primeiro dia teve a presença das top models Isabeli Fontana e Carol Ribeiro, no desfile da menina-mulher Fabiana Milazzo, que mostrou por lá o que tinha preparado para o Verão 2017. Foi um desfile maravilhosamente tecido por rendas, pérolas, tons pastéis e bordados, misturados a um toque mais “underground”, com a presença acabamentos desfiados e de casacos em xadrez. Na trilha sonora, a irreverente “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, foi apresentada em uma versão erudita. Prato cheio pra marca.

Após o desfile, todos os jornalistas saíram correndo para o backstage – com o intuito de falar com as estrelas da passarela, Carol e Isabeli. Mesmo sendo tops renomadas, nenhuma das duas deixou de atender ninguém. Os olhos absurdamente azuis de Fontana ficavam fincados em cada jornalista que questionasse qualquer coisa – fiquei assombrada, inclusive, com a beleza daquela mulher. E Carol Ribeiro sempre ali, com sua elegância simples e certa eloquência, fazia o mesmo.

Um (novo) começo

No mesmo dia, um desfile já se anunciava como o mais impactante do dia. O da estilista mineira Sônia Pinto, de 66 anos – 40 deles, só de carreira. Aquele desfile de estreia no Minas Trend era a principal interrogação na sala de imprensa do evento: afinal, Sônia ia na contramão do Verão 2017 e iria apresentar uma coleção para o Outono-Inverno. Burburinhos pra lá e pra cá, é preciso ter muita personalidade para sustentar uma lacuna tão grande e excêntrica em um evento tão específico. Mas isso Sônia fez com louvor.

Começou o desfile. Os modelos de Sônia, lânguidos e esbeltos, traziam a coleção da veterana, completamente salpicada em um ar, ao mesmo tempo, taciturno e sedutor. Eram muitos os traços indefinidos, caimentos esvoaçantes – para dar vida ao movimento do corpo e morte ao estado estático de algumas roupas que vemos por aí. Quase tudo estava em preto, branco e vermelho escuro, soava andrógino e assimétrico. Sublime. E a estilista já havia dito que acreditava mesmo no balanço do corpo e do movimento. Porque, segundo ela, é nessa liberdade que as pessoas se expressam.

O fim do desfile foi amplamente devastador para aquela mulher. Devastador no sentido de pensar que, se fosse eu no lugar dela, teria desmaiado de emoção. Os entusiastas da estilista, quase sempre em vestimentas negras, abandonaram o protocolo de que o escuro simboliza a frieza e o fim, e se derramaram em aplaudir – assim como uma família aplaude os primeiros passos, o começo de um filho. E no caso, ela, não estava começando ali.

Sônia foi ovacionada ao se mostrar ao fim do seu desfile, no início da passarela. Seu nome ecoava fortemente no recinto. As mãos dos mais jovens faziam chifres e eram lançadas ao ar – símbolo chamado, em inglês, de “Sign Of The Horns”. Sônia foi homenageada ali, pelo seu público, com o máximo de glória possível, por todas as faixas etárias. Ou ao menos com a máxima manifestação dela.

O backstage foi aterrador. Enquanto eu, ao lado de todos os jornalistas e fotógrafos do lugar, nos expremíamos na porta de entrada do saguão dos criadores e criaturas, a equipe dela veio tentar conter nossa ansiedade: Sônia estava emocionada demais para nos receber, e precisava se recompor. Esperamos. Quando nos foi liberada a entrada, vimos que a estilista se debulhava em lágrimas. Soube ali então que algumas peças da coleção apresentada revisitaram peças antigas e importantes da carreira dela. A Sônia chorava. A filha dela chorava e recebia os incessantes parabéns pela mãe. A equipe de Sônia chorava. E a jornalista que vos fala, também chorou.

Emoção e doçura

Já no segundo dia do desfile, meus olhos se voltaram – e também se emocionaram - com o desfile do estilista Lucas Magalhães, de 33 anos. Ao contrário do desfile de Sônia – que não foi diretamente construído para emocionar massas – a coleção de Lucas foi feita exatamente para isso. O simbolismo das criações transcendeu a coleção, alicerçada em tricot, e trabalhada com couro e renda.

Em dado momento do desfile, cada uma das modelos segurava um ramalhete de flores diferentes nas mãos. Segundo o estilista, cada figura feminina representava um vaso. O desfile foi embalado pela doce trilha da cantora alemã Nico, que explodiu nos anos 1970, com as músicas “These Days” e “The Fairest Of The Seasons”. Outro motivo para sensibilizar.

Quando o desfile terminou, ao invés das modelos se retirarem da passarela na coreografia tradicional de fila indiana, cada uma delas se posicionou em uma extremidade diferente do espaço, segurando cada uma o seu ramalhete. Depois, elas deixaram os ramalhetes caírem ao chão como uma forma de presentear a plateia, e mais ainda as mulheres que estavam presentes. “A ideia das flores é para aproximar. Eu sinto que a moda tem um distanciamento de tudo, às vezes”, afirmou o estilista.

Conheço diversos estilistas e pessoas que trabalham com moda e sempre soube que não seria diferente, mas ali tive a certeza do quanto a moda nos conta. E nos canta sobre toda e qualquer coisa. Sobre revoluções, histórias pessoais – como a da jovem estilista Ana Machado, que resolveu homenagear a trajetória de sua família, em sua primeira coleção, fazendo peças com bordados similares à grade da janela de seus bisavôs; e sobre a moda de Ronaldo Silvestre, que reabilita para o futuro;  ou sobre o passado de Sônia e o sentimento de sororidade das flores de Lucas.

Saí de lá consciente do que o que está nas passarelas são os reflexos dos seus criadores. E muitas vezes, os nossos próprios.

 

 

 

 


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