Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

A representatividade nos concursos de beleza

Estamos talvez diante do mais miscigenado Miss Brasil dos últimos tempos. Dois dos estados brasileiros cuja maioria da população é branca estão sendo representados por mulheres negras. Podemos ter a fé que tínhamos na valorização da beleza da mulher brasileira, que nem na década de 50, onde a única Miss Amazonas que se tornou Miss Brasil também foi Vice Miss Universo? O que todos esses fatores podem nos dizer?


05/10/2016 às 12:25

Laynna Feitoza

Fazia algum tempo que não tínhamos uma Miss Amazonas que chegasse tão perto da unanimidade pública baré quanto a parintinense Brena Dianná. Mesmo com pessoas que critiquem alguma característica aqui ou acolá nela – o que é natural do ser humano – posso dizer, observando um panorama bem geral das redes sociais, que o Estado está bem satisfeito com a escolha.

Sua figura como Rainha do Folclore do Boi Caprichoso e Rainha do Peladão 2015 contrasta bem com o carisma de menina interiorana que se funde à bela mulher que ela é, e que até já é chamada por aí de “a rainha das três coroas”. Mas antes de mergulharmos em Brena, estou aqui para falar do Miss Brasil 2016, que vai acontecer no próximo dia 1 de outubro. E, consequentemente, da finalidade dos concursos de beleza como um todo e do que eles representam – ou deveriam representar.

A grande maioria das candidatas do concurso já foi selecionada, e me parece que estamos diante do Miss Brasil mais miscigenado dos últimos tempos. O que derrama alegria profunda em mim, na verdade do que é e deve ser. Além das moças com tipo físico tradicional, daquelas que facilmente se vê por aí estampando as capas de revista, podemos ver também mulheres com traços indígenas, orientais, e negras.

Negritude exaltada

(As candidatas negras ao Miss Brasil 2016)

Ao todo, seis maravilhosas negras vão concorrer este ano. São elas (da esquerda para direita): Raíssa Santana (Miss Paraná), Victoria Esteves (Miss Bahia), Sabrina Paiva (Miss São Paulo), Deise D’Anne (Miss Maranhão), Beatriz Nalli (Miss Espírito Santo ) e Mariana Theol (Miss Rondônia). O que é um avanço quando falamos de um concurso de beleza que costumava ter, no máximo, duas representantes estaduais negras diante de 27 estados brasileiros.

São majestosas mulheres que saltam com a beleza de seus cabelos afros e que serão mantidos na naturalidade de seus cachos, para o concurso. Mulheres que representam muito, principalmente quando eleitas para representarem estados como São Paulo e Paraná – celeiros naturais de pessoas brancas.

Isso tudo significa que cada vez mais pessoas têm se conectado com a importância da representatividade negra nos grandes eventos midiáticos - ainda que a gente precise de muito mais. Essa necessidade se justifica desde os primórdios da época nefasta da escravidão, onde negros eram tratados em condições sub-humanas por conta da cor da pele, e pela discriminação que infelizmente ainda existe nos dias de hoje.

Dias de hoje onde muitas meninas negras ainda sofrem - desde atitudes racistas que a sociedade batizou de "piadinhas" com o cabelo ou traços faciais - até atitudes como serem “olhadas torto” por vendedoras de lojas que, só pela cor da pele, acham que a moça que acabou de entrar vai subtrair algum bem daquele espaço. Situação essa, aliás, vivida por uma amiga negra no Nordeste, há pouco tempo. Isso tudo é racismo. Não importa se a sociedade quer chamar isso de "piada" ou "medida de segurança". O nome disso é racismo.

É por isso que TEM que ter – mulher negra sendo a mais bela de seu estado. Para mostrar para jovens negras que é possível ter um passado de correntes – talvez até presente, por conta do preconceito que ainda existe – e um futuro onde todas essas correntes serão quebradas. Na paz, ou na marra. 

Pelo rosto da negra que estampa a capa da revista de maquiagem. Pelo rosto da negra que é protagonista de novela, pelo rosto da negra que vira política. São os rostos dessas negras que precisam ser vistos por crianças como a pequena dançarina Elis Cantanhede, 5, famosa por um vídeo onde reafirma sua identidade dizendo que não tem o cabelo liso por ser “pleta”, numa tentativa de se defender de um comentário em que outra criança diz que o cabelo dela é “horroroso” por ser crespo. E por todos os negros que ainda precisam se defender de coisas do tipo todos os dias. Para a chegada do tão sonhado dia que eles nunca mais precisem se defender de sua própria herança.

(A pequena Elis Cantanhede, que aos cinco anos tem um orgulho tremendo de sua cor)

Humanização

Não sejamos demagogos – que a beleza é fator principal para concursos de beleza, não é novidade. Só que muitas pessoas esquecem uma das principais premissas de uma miss, que é o senso humanitário. Quando as misses vencem um concurso de beleza, cumprem uma série de agendas em casas de apoio a idosos, pessoas com deficiência, orfanatos... e isso ninguém conta por aí. Uma Miss Universo viaja o mundo entre eventos glamourosos e conferências sobre assuntos de interesse mundial, como o meio ambiente, a escravidão, a crise financeira e o preconceito. Ou seja, a conscientização e a humanização são a chave de tudo.

Quando falo em ajuda, posso lembrar da Miss São Paulo 2016, Sabrina Paiva. Em entrevistas, ela chegou a declarar que quase desistiu do concurso por não ter como bancar os custos dele. Como ela resolveu isso? Saiu por aí, batendo palma de porta em porta na vizinhança dela pedindo ajuda financeira para realizar o sonho de infância. O dinheiro arrecadado serviu para comprar as roupas para o desfile e para custear as inscrições. Além de ter galgado sua coroa com beleza e do carisma, Sabrina conseguiu parte do que pretendia com a ajuda que recebeu dos outros, seja financeira ou emocional.

(O cenário de guerra imperava na cidade de Sarajevo)

Desse senso de receber ajuda, logo se pensa em uma corrente do bem. No senso de dar ajuda a quem precisa, de dar conforto a quem necessita – mais uma vez, o papel indireto mais direto de uma miss. E, certamente, papel de Inela Nogic, eleita miss da capital da Bósnia-Herzegovina em 1993, quando ela tinha apenas 17 anos. O concurso, à época, foi realizado em meio a um cenário sanguinário de guerra na cidade.

Informações preliminares dão conta de que, numa tentativa de desviar a atenção do público das explosões causadas por bombas no lado de fora, os organizadores aumentavam o som da festa no local do concurso. Ao todo, o governo da Bósnia contabilizou cerca de 200 mil mortes, mais de 1 milhão de refugiados e 50 mil mulheres estupradas no período de guerra, que se estendeu de 1992 a 1995.

O objetivo principal do concurso de beleza em meio ao terror civil era justamente chamar a atenção do mundo para o horror que acontecia naquela cidade, causado por tropas da Sérvia. Logo após Inela ser coroada, ela subiu no palco – junto com as outras candidatas – carregando uma faixa com os dizeres “Don’t let them kill us” (“Não deixem eles nos matarem”, em português).Trata-se de um dos atos rebeldes que mais ecoaram pelo tempo, e de um dos gritos mais heroicos e corajosos da história.

(A Miss Sarajevo 1993, Inela Nogic, com outras candidatas protestando por paz durante o concurso de beleza)

Inela e as demais mulheres sentiram profundamente – e expuseram – qual era o seu maior dever cívico naquele momento. O do apelo, do pedido de ajuda para seu povo. O fato inspirou, anos mais tarde, uma das músicas mais bonitas do mundo, na minha opinião: a canção “Miss Sarajevo”, da banda U2.

Alguns trechos da música traduzidos dizem “Aí vem ela/Surreal com sua coroa” e o verso final - não catalogado na letra oficial da música, mas cantada quase sempre por Bono Vox nos shows – assegura: “Is there a time for human rights" (“Há um momento para os direitos humanos”).

Essa música, nos shows, costuma ser o pano de fundo para as reflexões: sempre que Bono Vox a anuncia no palco, tem o hábito de dedicá-la para vítimas de desastres naturais ou massacres, O que, de certa forma, liga os fatos da história à guerra da Bósnia na década de 90, e, sobretudo, à natureza humanista daquela cujo título nomeou a canção.

Estética indígena, um afluente da alma

Inela, junto das outras candidatas, usou sua beleza como o escudo de seu povo. E engana-se quem pensa que a beleza só serve para refletir no espelho: durante uma entrevista que fiz com a antropóloga Iraíldes Caldas, ela afirma que quando a mulher se sente bela para si mesma, vê desabrochar no peito uma força interior imensurável que faz com que ela realize as atividades do cotidiano com mais confiança. Ou seja, melhor.

Tópico esse que ela explicou dando como exemplo as nossas mitológicas guerreiras amazonas. Na época delas, as mulheres mais belas da tribo eram necessariamente as mulheres mais fortes e inteligentes, por equalizarem a beleza de fora como um bálsamo estimulador para a beleza de dentro. E a beleza de dentro – a que olha, vela e faz o bem pelo outro - faz bem para o mundo.

(As amazonas acreditavam que os adornos do corpo também adornavam o espírito)

“As amazonas são tidas como as mais guerreiras da mitologia indígena, pois não mandavam recado, não dependiam dos homens. Isso se relaciona com uma beleza exterior que transcende”, colocou Caldas. A beleza meditada impulsionou a força e a inteligência das amazonas. E a crença na própria beleza se transforma na crença em si mesmo. Certamente, também impulsionou o senso cívico e humanitário de Inela. Isso a Miss Sarajevo 1993 e as guerreiras amazonas tem em comum: usaram a fé em suas belezas para alimentar a boa estética – e o belo rosto - de suas almas.

Primórdios de um baluarte da beleza

(A amazonense Terezinha Morango, que ficou em segundo lugar no Miss Universo 1957)

Se falamos nas amazonas, é fácil regressar ao estado brasileiro batizado com o nome delas. Já que o tema é beleza, eis nossa ponte até o Miss Amazonas. Mas vamos voltar no tempo mesmo, lá em 1957, ano em que a até hoje única representante amazonense foi Miss Brasil, e consequentemente, Vice Miss Universo. Seu nome é Terezinha Morango – a quarta Miss Brasil da história do concurso nacional.

Nascida no município de São Paulo de Olivença, a moça foi eleita Miss Brasil em um período em que ele recebia muito mais atenção do que recebe hoje. Numa era em que ser Miss Brasil era o equivalente a ser uma uber model – a exemplo de Gisele Bündchen. Ela foi um verdadeiro baluarte da beleza em seu tempo.

Hoje Terezinha tem 80 anos, e relatos indicam que ela, já viúva, vive no Rio de Janeiro. Em um trecho de uma entrevista concedida à revista Manchete, no ano de 1966, Morango declarou que as lendas do folclore amazonense marcaram profundamente a sua imaginação. “Tanto que ainda hoje eu tenho a impressão de que algum dia, quando era muito pequena, ouvi o canto do fabuloso uirapuru”.

E sabem porquê? “Porque ouvir o canto desse pássaro dá sorte, e eu sempre fui feliz, sempre, sempre”, apontou. Na mesma entrevista, ela dizia que ficava muito feliz com o riacho que tinha no quintal de sua casa de campo em Petrópolis (RJ), porque este lembrava muito os igarapés do Amazonas. E que a felicidade que sentia era tão grande a ponto dela ter a impressão de ouvir o tal canto do uirapuru por lá.

(Ao centro, a Miss Universo 1957, a peruana Gladys Zender. Terezinha está ao lado direito dela)

Segundo informações que correm na rede mundial de computadores, Terezinha nasceu em uma fazenda, em São Paulo de Olivença (AM), sendo ela praticamente a personificação de uma plena sinhazinha de boi-bumbá. Seus traços europeus não deixam mentir, afinal, ela é filha de um português com uma amazonense. Mesmo sem ter as tradicionais características físicas da terra, aos 17 anos Morango foi morar com tios abastados para ter melhores oportunidades de vida. E se tornou uma das rainhas da beleza mais importantes do País.

Estaria Terezinha então tão diferente da realidade de muitas das nossas amazonenses do interior? Que saem de suas cidades em busca de melhores chances? Mesmo tendo ela olhos claros e pele alva, diferente do biotipo tradicional amazonense? Terezinha é a prova de que quem tem sangue caboclo nas veias o terá para sempre, independente de cor da pele, olhos ou cabelos. O que retrata contemporaneamente a Manaus metrópole e miscigenada de hoje, de certa forma.

Cabocla quimérica, a índia do folclore

E é falando de folclore amazonense que nós retornamos à nossa Miss Amazonas 2016, Brena Dianná Modesto. Nada melhor do que o folclore para subsidiar a beleza da parintinense, afinal, ela o representa na associação folclórica boi-bumbá Caprichoso há oito anos. Brena reflete a mulher miscigenada, com traços de índia da terra, mas sem deixar de ser cosmopolita. E ainda por cima é modesta, como seu nome: sempre que eu e meus colegas jornalistas fazíamos algum elogio à sua beleza, ela revirava os olhos como quem dissesse “Até parece”. Como se realmente não parecesse (risos).

Mais bonito do que ela é ver o quanto ela tem orgulho de representar Parintins - e a tão misteriosa mulher do interior. Sendo a segunda Miss Amazonas parintinense – a primeira foi Tereza Azedo – e uma figura pública consolidada no Festival Folclórico de Parintins, ela tem admiradores que extrapolam o lado azul da força e atingem o rival vermelho. Sua foto na fanpage oficial do Miss Brasil é uma das mais curtidas entre as das outras candidatas, e arrebatou inclusive pessoas de outras regiões do País, que declararam predileção por ela.

Seus fãs-clubes estão apaixonadamente alucinados na tarefa de ir em cada postagem, cada foto em que ela surge, para declarar a sua paixão à mulher do interior do Amazonas. Mulher do interior, aliás, símbolo este que muitos filhos da capital amazonense olham com descrença. “Porque mulher bonita e elegante só tem em Manaus”. “Porque a mulher do interior tem cara de índia”.

(A parintinense Brena Dianná, Miss Amazonas 2016. Foto: Yraq Lima @yraqlima)

“Porque mulher do interior puxa o ‘S’ como ‘X’ e fala ‘Olha já’, vê só que coisa feia”– infelizmente há quem pense assim. E é por isso que Brena vem representar a cabocla do Norte. Para mostrar que toda e qualquer característica existe, mas é identidade. Não estão sujeitas à aprovação ou não. Apenas são. E fim.

E é por isso que representatividade é importante. Reconhecer a miscigenação brasileira e dar vazão a ela é importante. Seja pela mulher negra que sofre racismo, ou pela mulher do interior que foi estereotipada pela sociedade. Pela mulher branca que sai do seu ninho em busca de melhores oportunidades e pela índia que ainda ouve o discurso absurdo de que o meio onde vive é "descivilizado". 

Para que todas elas habitem em suas revoluções, até o fim da vida, para promover a igualdade. Porque o Brasil é um país de índios, brancos e negros. E os concursos de beleza também.


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