Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Arlindo Jr. ressurge em seu "Teatro da Vida"


24/04/2017 às 13:50

Por Laynna Feitoza

Ao falar com Arlindo Jr., ele me confessara que aquela seria a primeira entrevista que ele estava dando depois de um período turbulento. Período em que ele descobriu que estava com um câncer no pulmão. “Estou emocionado falando com você agora”, disse ele. Aquela mesma emoção de um dos criadores de arte do folclore amazonense também transpareceu em seus fãs – as criaturas que ele atraiu como um íma para os dois dias do show “O Teatro da Vida”, que aconteceu na última quarta (19) e quinta (20), no Teatro Amazonas.

Em sua estreia no teatro, ele carregava um brilho nos olhos de menino com a força no peito de um homem com uma carreira já consolidada – afinal, são mais de 20 anos dedicados ao boi-bumbá. Ao abrir das cortinas, o palco, logo na primeira música, trazia um cenário produzido em réplicas de canoas, crianças balançando os braços, e árvores ao fundo do palco. Na outra extremidade – a entrada da plateia – Arlindo surgiu cantando “Saga de Um Canoeiro”, esplendoroso hino do boi Caprichoso, como um hino próprio.

Arlindo, assim como o canoeiro da música, tem o corpo cansado das grandes viagens, e as mãos calejadas de um remo a remar contra a sua enfermidade. Ainda assim, ele entendeu que devia seguir o próprio caminho, mesmo que com as intempéries da doença que possui. Como quem encoraja a si próprio, o cantor bradava o refrão “Sou, sou, sou canoeiro... canoeiro vai”. E isso é tudo o que ele está fazendo... não é à toa que o tumor achado no pulmão foi reduzido em 25% desde que o seu tratamento, feito em São Paulo, começou, no fim do ano passado.

A plateia captara a mensagem e levantou-se toda para receber Arlindo. Entre celulares, lágrimas e abraços, todos o recebiam no lugar, enquanto ele, aos poucos se aproximava do palco. Logo depois, “Amazonas Ayakamaé” começou, reunindo dançarinos ornados em penas azuis e vermelhas, como alguém que respeita a importância do seu boi do coração – Caprichoso – junto ao seu competidor – Garantido. No palco, réplicas do amor entre sol e lua emolduravam o cenário, junto com a réplica de um rio, que logo após o termino da música deu espaço à lendária sereia dos lagos na toada “O Canto da Iara”.

Enquanto a sereia cantava ao fundo, sentada numa pedra dentro do rio cenográfico, havia uma pequena embarcação que trazia o pescador seduzido por seu canto. O público não se conteve e parte dele gritava “Ritinha!” – em alusão à protagonista da novela “A Força do Querer”, onde a atriz Isis Valverde vive uma sereia da Amazônia. Aliás, o mesmo rio cenográfico deu lugar à cobra grande de cabeça de fogo durante a toada “Boitatá”. Em termos de efeitos visuais, esse foi o grande destaque da noite: a cobra ia, de um lado para outro, flutuando em meio às águas encenadas no palco.

O palco e a plateia, até então com uma iluminação azul, recebeu uma luz toda vermelha. Há quem se pergunte porque Arlindo, tão devotado ao touro negro, teria feito referência ao rival de seu boi. Mas é aí que entrou Israel Paulain, apresentador do boi Garantido, onde eles, juntos, cantaram a toada “Festa do Povo Vermelho”. O símbolo do touro branco, o coração, também foi erguido ao fim do palco. O mais curioso é que até o azul do Caprichoso emprestou-se para dois dos quatro corações da decoração.

E o que dizer do momento em que o próprio touro negro surgiu, em meio a uma das frisas do Teatro Amazonas, e seguiu para o palco? A agitação do boi Caprichoso era visível na felicidade de quem dançou por tantos anos ao som do canto de Arlindo, em sua época como levantador. Grupos como Canto da Mata também foram homenageados ao som da toada “Ritmo Quente”. A plateia também foi ao delírio com a participação especial da rainha do folclore do Caprichoso, Brena Dianná, convidada especial para a grande noite, com a aguerrida toada de seu item, “Amazônia, nas Cores do Brasil”.

Momentos depois, o palco escureceu e, ao receber luz novamente, estava lá a Marujada do touro negro junto ao imperador David Assayag, que assumiu o posto de levantador do bumbá após a saída de Arlindo. Eles, que por anos duelaram na arena do Bumbódromo – David era levantador do boi Garantido – provaram ali, na frente de todos, que nos bastidores do festival eles sempre nutriram uma grande amizade um pelo outro.

Arlindo aproveitou para justificar a homenagem ao núcleo de ritmistas e apresentou a toada “Somos Marujada de Guerra”, citando-a como “uma das mais fortes toadas de Marujada de todos os tempos”. A apoteose final aconteceu ao som da toada “Ritmo de Boi”, por ser uma toada capaz de englobar os dois bumbás. Neste momento, dançarinos azuis e vermelhos, assim como todos os convidados, subiram para celebrar no palco. Arlindo, ao agradecer e perceber o atestado de cura que a arte significa em sua vida, viu suas lágrimas rolarem. “Rio de estrelas cantaram, a vida renasceu”.


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.