Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Coleções fantásticas e onde habitam

Amazonenses abrem suas casas e mostram os itens que colecionam com carinho - de CDs a garrafas azuis


01/04/2018 às 14:15

Por Juan Gabriel

Centenas, talvez milhares de CDs organizados em ordem alfabética tomam conta das trinta prateleiras fixadas em um pequeno quarto branco. À primeira vista, a coleção causa impacto. Quase não há espaço sequer para pensamentos dentro do cômodo adaptado pela jornalista Baby Rizzato para receber aquela que ela diz ser talvez o seu mais apaixonante legado construído ao longo de décadas.

A quantidade de discos – e a vontade de continuar trazendo novos deles para o lar – fez com que o banheiro da antiga suíte fosse adaptado para que coubessem mais. “Agora eu não tenho mais prateleira meu irmão, se tiver que aumentar eu tiro a cama do meu quarto e boto prateleira”, diz a jornalista aos risos sem pensar duas vezes.

O hábito de colecionar cultura está enraizado no DNA de Baby. Vem desde os primórdios da Bossa Nova quando ganhou de presente do pai uma conta em uma loja de discos na capital amazonense. “Eu tinha tudo de todo mundo naquela época porque meu pai sempre incentivava o gosto pela leitura e música”, relembra.

A paixão pelo gênero e pela música em geral se consolidou graças a um grupo de amigos no Rio de Janeiro. Desfilando pela boehmia carioca, viu de perto ídolos da MPB, interagiu, se interessou e claro, trouxe os frutos disso para cá. “Fui começando a me interessar pelo o que eles faziam e ai fui comprando e comprando, chegava em Manaus carregada de LP e acabei aqui”.

Hoje, praticamente nada sobrou dos saudosos “bolachões” em sua coleção. Com a mudança para o novo apartamento, resolveu dar espaço somente aos CDs. A conta exata de quantos integram a coleção nem Baby sabe. A dúvida se estende também quando o assunto é o futuro desse legado. “A minha vontade era fazer uma doação pra quem se interessasse, queria deixar um legado para alguém. Quem sabe eu não doou para o A Crítica? O jornal que me deu muito do que eu tenho hoje então é uma forma de retribuir”, diz.

Tudo azul

As cores sempre se fizeram presente no cotidiano do artista plástico Jandr Reis. Entre telas e paletas, Jandr guarda uma aficção carinhosa por uma cor em especial: O azul. A obsessão pelos diferentes tons da cor deu origem a uma coleção um tanto inusitada, a de garrafas de vidro azul. O artista estima que hajam cerca de 150 garrafas espalhadas pelos diferentes cômodos do loft onde vive. 

O hábito de acumular as garrafas azuis começou em 2005. Foi uma forma que Jandr encontrou de direcionar a paixão pelo azul em uma coisa só. Isso porque antes das garrafas entrarem em cena, o artista seguia na compulsão de comprar absolutamente tudo o que podia na cor.

“Eu era muito fanático, tudo o que eu via de vidro azul eu comprava, mas ai eu acabei parando porque eu vi que uma hora eu não ia ter onde por. Eu disse pra mim que iria dar um tempo e acabei tomando gosto pelas garrafas”, diz o artista que afirma não medir esforços para acrescentar mais itens em sua coleção. “Se eu vejo uma garrafa que eu gosto eu faço de tudo pra trazer, as vezes dá até excesso de bagagem por causa delas, mas eu dou um jeito”, conta Jandr.

Dom Quixote

A grande obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes deu, através de seu icônico protagonista Dom Quixote, uma nova e única identidade ao lar do professor aposentado José Seráfico. Apaixonado pelo o que diz ser a “figura aventureira e romântica do cavaleiro”, Seráfico acumula um acervo pessoal com oitenta peças de Dom Quixote.

A coleção que conta com esculturas em madeira, aço, vidro, cobre, latão, azulejo, quadros e até origami, teve inicio no começo da década de 1980. Desde lá, o aposentado segue agregando figuras do personagem ao lar. Tamanha devoção fez com que fosse necessário projetar duas galerias no interior da residência para guardar as peças. 

“Eu já tinha um número considerável (de peças) e minha mulher aproveitou uma reforma em casa e pediu para o arquiteto bolar uma galeria. Fica uma na frente e outra atrás da casa onde ficam cerca de quarenta peças. As outras ficam distribuídas pela casa”, diz Seráfico.

O hábito de colecionar é algo que o aposentado carrega desde a infância. “Eu colecionava caixas de fosforo diferentes, depois colecionei estampas eucalol que acompanhavam as pastas de dentes, então isso é um hábito de crianças, adolescentes e jovens e que eu mantenho até hoje”, diz.

Quanto ao futuro de seu acervo, Seráfico afirma que tudo ficará nas mãos de seus sucessores e é enfático ao ressaltar a sensação que carrega com a coleção. “Quem vai definir isso são os meus sucessores. A figura que me faz colecionar é imortal, a minha coleção é apenas um pingo de emoção que o Miguel de Cervantes conseguiu passar através desse personagem”, crava.
 


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