Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Conheça os fiscais do bom gosto: eles detestam quem ouve funk e odeiam a palavra 'top'

Os fiscais de cultura tem a nobre função de prezar pelo equilíbrio estético do planeta


04/05/2016 às 16:47

O fiscal de cultura é um tipo muito comum na sociedade, porém não se considera assim (comum). De fato, ele se considera uma instituição do bom gosto. Consciente de seu nobre dever na sociedade, não abre mão de cumpri-lo. Mas qual seria esse dever? Ora: o fiscal de cultura, ou fiscal do bom gosto, preconiza, basicamente, o equilíbrio estético do planeta.

Em outras palavras, é o regulador do bom gosto, do bom senso, e dos bons modos, como diria Adriana Calcanhoto. Como um evangelista, o fiscal da cultura pretende levar o bom gosto para todo o planeta. Mas arrisco dizer que se decepcionaria se todo mundo começasse a gostar da banda preferida dele - esses hereges que banalizam a música de qualidade. 

Falando em música, o fiscal de cultura não gosta de funk e se você falar que gosta, será julgado da cabeça ao pés. É mais do que isso: ele não só detesta o funk, como detesta quem aprecia. Como se fosse bonito ser feio, ele tira sarro com essa tentativa da periferia de ter autoestima e fazer ouvir alguma voz que dali ecoa. Aliás, o fiscal de cultura também odeia, em geral, o forró, o pagode, o axé, o sertanejo e, pasmem, o rap.

Mas o que ele não consegue suportar mesmo é o público desses gêneros. E dotona até as roupas que eles usam. Bem instruídos, sabem que não pode sair por aí destilando preconceitos e o fazem com alto grau de sofisticação. Outros, porém, não têm o menor problema com isso. “Funk é lixo”, bradam eles, irresignados.

O engraçado é que, nem quando gostamos e conhecemos algum gênero de música, chegamos a ouvir tudo o que aquele estilo já produziu. Portanto, haveremos de admitir que, mesmo que você não goste dos 99 funks que ouviu até hoje, um centésimo poderá lhe interessar. “Não, nós não gostamos é de funk mesmo”. Pode até ser, mas é este o mesmo preconceito que faz as pessoas dizerem: não gosto de jazz. 

Ó pai, se na infinidade de estilos variações, harmonias, melodia, letras e tantos etcéteras que pode haver numa peça musical, nada disso interessa à pessoa, ou ela tem problema de ouvido ou de preconceito, o que é pior, porque ainda não inventaram aparelho contra. Ou mesmo aquela pessoa que diz não gostar de ler. Meu Deus, não conte um segredo escrito para essa pessoa. Ela nunca descobrirá o segredo, porque não suporta ler. Eu, que adoro o humor, no funk e na literatura, me divirto sempre que posso.

É claro, você poderá argumentar que alguns gêneros musicais são mais pobres harmonicamente, nas letras também. Porém, não entender os gostos populares é não entender o processo de massificação da indústria, o apelo da música comercial e outras variáveis, como o nível de educação formal do brasileiro ou o irresistível apelo do humor - mesmo o mais banal - ou do sexo - mesmo o mais banal.

Uma versão mais específica dessa instituição social, o fiscal do bom senso linguístico não gosta da palavra “top”, e outras expressões que, como estas, ferem suas sensíveis antenas que detectam o bom gosto à distância. Porém, eles tendem a ser pessimistas e reclamões. Ao invés de cortar do seu dicionário a palavra que lhe incomoda, preferem atacar quem a coloca. “Abaixo o top”, já disseram, não sem um pequeno paradoxo semântico ("top" em inglês é tudo menos abaixo).

Enfim, não se sinta melhor porque você curte música clássica e o outro pagode. Você vai ficar chateado na feijoada do domingo, enquanto o pagodeiro vai estar radiante (e um jazzista profissional provavelmente também). Respeite o gosto, a cultura, o background de cada um. Ou, em outras palavras: aceita que dói menos. Voltando à palavra "top", um conselho. Não gosta de "top", não usa! Fica assim: topless...

Leseiras à parte, eu também não vou fiscalizar os fiscais de cultura. Eu mesmo nunca curti muito estrangeirismos num país monoglota, no caso de top, muito menos sertanejo, no caso da música. E, sim, até que é legal reclamar de algo, assim, só pra gastar cortisol. Mas vou dizer pra vocês: os fiscais de cultura são uma versão sofisticada do chato. E, convenhamos, há muito mais coisas sobre o que reclamar no Brasil.

por Felipe Wanderley


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