Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Depois da onda de estar sempre conectado, a nova moda é desconectar das redes sociais

Com o ‘boom’ das redes sociais, estar por dentro de tudo, a todo o minuto, era a grande febre. Porém, a onda agora é outra: tentar desconectar um pouquinho para tentar mais a vida fora da web. Isso é uma nova filosofia e tem até nome: JOMO (‘Joy Of Missing Out’, ou ‘alegria de não estar em todas’, traduzindo para o português


23/04/2018 às 17:03

Por Laynna Feitoza

É um processo. Com o passar do tempo, você vai tentando mostrar a si mesmo que o celular não é sua prioridade. “A primeira coisa que você faz, ao acordar de manhã, é olhar suas redes sociais. Tenho tentado evitar fazer isso... evitar com que seja uma prioridade. Entender quando realmente preciso pegar no celular e quando é só uma obsessão pela ansiedade de saber das coisas. Você começa a se autovigiar, para lembrar a você mesmo que a vida não é apenas aquilo”, declara a universitária Marcella Ladislau, 22.

Com o ‘boom’ das redes sociais, estar por dentro de tudo, a todo o minuto, era a grande febre. Porém, a onda agora é outra: tentar desconectar um pouquinho para tentar mais a vida fora da web. Isso é uma nova filosofia e tem até nome: JOMO (‘Joy Of Missing Out’, ou ‘alegria de não estar em todas’, traduzindo para o português. Tudo porque o “estar em tudo a todo tempo” de antes tem causado alguns danos sociais.

“Decidi [reduzir a participação nas redes sociais] a partir do momento que eu percebi que deixava de aproveitar momentos em que eu estava ali presente fisicamente, pra estar no mundo virtual. Isso acabou até mesmo afetando minhas relações com as pessoas... amizades e até namoro, por questão de dedicar atenção. Você acaba se deixando dominar e isso te dá um tom egoísta sobre o teu tempo. Parece que nunca é o suficiente. E é difícil sabe? Porque é algo que você já está imerso, tanto que você nem percebe”, pondera Marcela.

Teste

Enquanto esteve escrevendo o seu depoimento, o também universitário Victor Costa, 22, parou algumas vezes para conferir a sua timeline do Twitter, onde estava conversando com dois amigos. “Mas durante a maior parte do dia eu fiquei deslogado do Twitter e Facebook para trabalhar”, colocou ele, que não saiu das redes sociais completamente, mas que está passando por esse processo de desprendimento dessas ferramentas e centrando-se mais em outras atividades.

“Uma medida que eu adotei é não ter aplicativos de redes sociais no celular. Apenas o Instagram pelo motivo de que eu não posso publicar fotos nele pelo computador”, coloca ele. Só depois que se desligou das redes sociais pela primeira vez, ele percebeu a quantidade de tempo que as redes sociais tiravam dele. “A principal mudança que eu notei foi como os dias ficavam exaustivamente mais longos. Eu podia voltar a fazer atividades que eu já havia deixado de lado, principalmente desenhar, ler e escrever, que são atividades que agora eu valorizo mais do que antes”, conta Costa.

Victor lembra que o maior benefício de se desligar um pouco das redes sociais é o tempo que possui para realizar coisas novas, ou retomar projetos antigos. “Mas ainda assim eu não larguei as redes sociais completamente. Volta e meia eu dou uma pausa para trabalhar nas coisas que realmente importam pra mim durante alguns dias e em seguida eu retorno para elas. Já se tornou um hábito”, assegura.

Curtir e clicar

Para o psicólogo Fábio Marcovski, de fato há gente tornando-se menos produtiva no trabalho, adquirindo problemas de saúde, e outras perdendo empregos ou relacionamentos, em prol de manter-se ‘conectado’ às redes sociais. “Infelizmente, nem todos se dão conta dos problemas que lhes são gerados, uma vez que as mídias sociais estão projetadas para nos serem estimulantes e empolgantes. Pense no botão ‘curtir’ do Facebook, ou no ‘coração’ do Instagram.  Hoje, há quem confunda ‘pertencer e amar’ com ‘curtir e clicar”, pondera ele.

Fábio explica que pesquisas recentes sugerem que mídias sociais podem ser viciantes, tais como quaisquer outros vícios (nicotina, cafeína, e outras substâncias). “Isso acontece pelo fato de a rede de dopamina ser ativada sempre que alguém nos ‘curte’ ou ‘clica’ sobre nossa nota do Instagram.  Assim, as redes tornam-se um vício, e a pessoa que sofre por isso pode, portanto, sentir profunda dificuldade em desligar-se delas: inquietação, ansiedade, até sudorese vêm à tona”, justifica ele.

Tais sintomas são comuns entre os vícios humanos, e requerem cuidados, forte determinação, e em alguns casos, acompanhamento de um profissional adequado, coloca Fábio. “Mesmo assim, pelos relatos que recebi de pessoas que desligaram-se ou distanciaram-se das redes sociais por um tempo, os ganhos em concentração e em presença, em vivacidade e em riqueza de experiências, pareciam sobrepor as ‘perdas’ (menos curtidas, por exemplo)”, comenta.

Para reequilibrar as atividades reais e virtuais, ‘mindfulness’ e meditação tem ganhado espaço como instrumentos de tratamento para os vícios.  “Isso acontece por que ‘mindfulness’ e meditação tornam o praticante mais consciente de seus anseios e ímpetos, que, descontrolados, levam à recaída no comportamento vicioso.  ‘Mindfulness’ expande a consciência e, portanto, o controle das ânsias e vontades, assim diminuindo a reincidência nos hábitos que se querem alterar”, completa o psicólogo.


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