Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

#DFB: 'Moda define o estado de espírito', diz o estilista João Pimenta


13/05/2018 às 14:45

Rosiel Mendonça*
@rosielmendonca

FORTALEZA (CE) – O estilista João Pimenta foi um dos profissionais que passaram pelo Dragão Fashion Brasil Festival, semana de moda autoral que aconteceu entre quarta e sábado na capital cearense. No primeiro dia do evento, ele participou do bate-papo “Uma experiência com a moda”, que fez parte da programação do Dragão Pensando Moda, espaço de encontro e troca de experiências que já se tornou um diferencial do DFB.

Nascido no interior de Minas Gerais, Pimenta partiu para São Paulo aos 19 anos e foi lá que ele começou a trilhar uma carreira bem-sucedida. “Tenho uma história que estimula as pessoas porque é uma história de dificuldade pra poder fazer o trabalho. As coisas pra mim sempre foram complicadas: família humilde, autoestima super lá embaixo... Então gosto muito de comunicar essa minha trajetória hoje porque, de certa forma, acabo incentivando outras pessoas a continuar acreditando. Não só na moda, mas em qualquer coisa que a gente faça, acreditar é mais importante do que poder fazer”, disse ele.

Nesta entrevista exclusiva, o estilista comenta sobre essa trajetória, suas perspectivas para o futuro da marca que leva o seu nome e sobre a coleção feminina que ele apresentou recentemente na São Paulo Fashion Week.

Como você avalia a moda autoral no Brasil de hoje? Quais os desafios de alguém que está começando agora?

A moda autoral já era complicada antes desse momento de crise financeira. Mas, pelo menos pra mim, dentro da moda a linguagem é mais importante que o produto final. Acredito muito mais na comunicação que ela pode fazer e no que ela abrange e pode transmitir para as pessoas do que o produto final, que é a roupa. Mas temos vivido um momento muito complicado. Se você é muito autoral, o mercado te põe pra fora, porque hoje sobrevive quem capitaliza. Se esquecermos que a moda é antes de tudo uma linguagem ela vai morrer, e esse já é um negócio que estamos com dificuldade de fazer acontecer no Brasil. Um evento como o DFB é importante pra aguçar em quem tem interesse por moda a ter primeiro um pensamento, depois um produto, caso contrário as pessoas vão deixando o lado criativo de lado. Sem esse inspiracional e essa criatividade a moda não existe, vira só confecção, que é replicar aqui o que as pessoas já fazem lá fora.

Você tem dito que quer dar mais atenção ao mercado a partir de agora. Como explica essa fase de transição da sua marca?

Como eu venho de um trabalho sempre autoral, hoje quando eu tento olhar pro produto até cai bem pra mim, porque significa uma maturação do meu trabalho. Mas as marcas que estão no mercado e não têm identidade e história autoral realmente estão em maus lençóis. Hoje estou olhando pro produto, mas não me sinto mal fazendo um produto comercial, pelo contrário, estou só fazendo algo diferente do que costumo. Até porque o conceito tem um limite, chega um momento em que as pessoas não têm mais paciência de ver você olhar só pro seu umbigo, contando suas histórias, acho que uma marca tem que crescer. Na verdade, a moda é muito segmentada, existe um milhão de caminhos e nichos dentro da moda, uma delas é a linguagem, o produto, a industrialização.... É bacana que quem se interessa por moda ande por todos eles, mas não deixe de olhar pro autoral, que é onde está a parte mais importante. É o coração.


Coleção feminina apresentada na São Paulo Fashion Week N45

Onde a sua marca está mais presente? Tem planos de expansão?

Tenho feito trabalhos só no Brasil. Temos agora outras lojas vendendo no mercado, mas é porque comecei a fazer um masculino um pouco mais “masculino”. S Como deixei meu masculino mais cool, menos elaborado, estou sentindo que o mercado me absorve melhor. A marca está crescendo, mas porque ficou careta, chata (risos).

Muitas pessoas veem você como alguém que trouxe mais ousadia para a moda masculina brasileira, mas no último SPFW você apresentou sua primeira coleção feminina em muitos anos. Pretende se aproximar mais desse segmento?

Comecei fazendo feminino. Minha marca era focada nesse público. Depois percebi que o mercado masculino era onde tinha mais abertura pra uma marca evoluir. Hoje qualquer marca que quiser ganhar mercado tem que olhar pro segmento masculino, porque é onde tem a deficiência maior de criação, tecidos, estilo... Mas nunca deixei de atender a minha cliente lá do começo, só que eu vendia pra ela uma roupa com silhueta feminina pensada pra um corpo masculino. Então era uma roupa grande, sem muita modelagem. Elas me cobravam a questão da cintura, do busto, então essa coisa técnica me aguçou a olhar melhor pro feminino.

E que perspectivas a moda feminina te apresenta?

É um trabalho que me possibilita mexer com matérias-primas que gosto muito e que nesses anos todos tentei inserir no segmento masculino mas eles não aderiram de jeito nenhum, como os bordados, rendas, tecidos fluidos, cortes mais pensados pro corpo feminino – que eu particularmente acho lindos no homem, mas o mercado nunca aceitou. Tanto é que acho que se a moda não gênero acontecer de verdade ela vai partir das mulheres usando as roupas dos homens, e não o contrário. Os homens são caretas demais pra se libertarem e usarem as coisas que eles realmente sentem vontade. Acho que eles só não usam as saias e os vestidos porque eles têm medo, porque desejo eles têm, certeza! (risos) O homem acha que a roupa define a sexualidade, enquanto a roupa define o estado de espírito, é muito diferente.

*O jornalista viajou a convite do DFB Festival


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.