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Escritor amazonense estreia com livro marcado pela autoficção

22/09/2017 às 14:10
Show capaloja china

Rosiel Mendonça
rosiel@acritica.com

Um estudante de Arquitetura com síndrome do pânico tem a chance de fazer um intercâmbio na China, mas terá que lidar com um dilema – como partir para o outro lado do mundo se ele não consegue nem atravessar a rua sozinho? Essa é a trama de fundo do livro “China de papel” (Penalux), que marca a estreia do escritor amazonense Fabiano Lima, que até então só vinha publicando em blogs na Internet. A obra foi lançada há cerca de um mês e pode ser encontrada na Livraria Leitura, no Amazonas Shopping, ou no site da editora.

Segundo Fabiano, “China de papel” é uma novela que explora o gênero da autoficção, ou seja, a narrativa ficcional se mistura à história pessoal do autor. A síndrome do pânico, por exemplo, é um dos elementos que encontram correspondência com a vida de Fabiano, diagnosticado com o transtorno ainda no início da faculdade. “Nasci numa comunidade do Careiro, então quando escrevo sobre a infância do personagem estou falando da minha própria infância”, completa ele.

“Esse livro levou cerca de cinco anos de trabalho. Logo que entrei na faculdade comecei a desenvolvê-lo como uma espécie de terapia. Na medida em que fui melhorando, lapidei a história para deixá-la mais literária, cortando trechos que eram muito latentes durante a doença e que poderiam deixar o livro com cara de diário”, explica o autor, que tem Cristóvão Tezza (“O filho eterno”) entre as suas inspirações.

A possibilidade de um intercâmbio na China, apesar de ficcional, é o que desencadeia todo o conflito. “O personagem tenta cumprir as etapas até o intercâmbio, mas para ele é uma dificuldade imensa. Tanto que a voz do narrador é uma espécie de monólogo raivoso”.

Fabiano Lima continua o tratamento contra a síndrome do pânico e acredita que a dedicação à escrita de “China de papel” ajudou de alguma forma nesse processo. “O livro me ajudou no contato com outros autores, além de ter sido uma revelação para os meus familiares, que a partir dele puderam conhecer essa doença, já que eu não falava muito sobre isso”.

Enquanto divulga a primeira publicação, o amazonense também pensa nas próximas. “Estou escrevendo várias coisas, pretendo terminar alguns contos para lançar. Fora isso, tenho algumas histórias que podem virar um romance no futuro”, adianta.

Trecho

"– Aqui, rapazinho, sente-se! – um velhote, um tanto mole, dá a ordem, está nervoso porque sou desajeitado. Obedeço e na cadeira assento a minha bunda miúda e deixo-me fotografar. Não é foto três por quatro – sorria com discrição. Pareço deslumbrado? Assim, tá bom. Não é para a Time. Ainda. Você sairá na revista acadêmica. Estampará a capa do mês. Aproveite. Nada excitante acontece na sua vida, não é mesmo? Sim. É verdade. Eis o futuro lhe abrindo as portas. Reconheça. Agradeça."