Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

José Aldo, o menino lutador


23/06/2016 às 15:30

Lídia Ferreira*

Eu sou bem suspeita para tecer opiniões sobre o “Mais forte que o mundo – a história de José Aldo”. Primeiramente não sou cinéfila, muito menos de filmes de ação; “segundamente”, sou “barrista” – posso até criticar  Manaus ou alguém daqui, mas ai de quem falar mal de qualquer pedacinho do Amazonas; por fim é difícil não ser fã do Aldo. O cara é “o cara”, "arrocha" mesmo: ficou dez anos invicto, só para resumir.  


José Aldo ficou 10 anos invicto no UFC como Peso Pena 

Quem nasce em Manaus sabe bem a fama do Alvorada. É um dos bairros com alto indície de criminalidade e tráfico de drogas, mas também tem gente que faz o Carnaval pulsar no Sambódromo e berço de família  de artistas como Nunes Filho, o “príncipe do brega”. É justamente neste contexto que começa o filme dirigido e roteirizado por Afonso Poyart.

Alerta de Spoilers!

As primeiras cenas mostram Aldo, interpretado por José Loreto, “aprontando” com brincadeiras agressivas na rua ao lado de amigos e as consequências disso também – chega até a detenção policial.

Essa primeira fase da adolescência explora bem os conflitos familiares – a violência doméstica ocasionada por um pai alcoólatra, a falta de dinheiro, desemprego e os primeiros treinos de jiu jitsu e capoeira. A namorada amazonense, com nenhum traço físico- e muito menos de sotaque de manauara, foi interpretada por Paloma Bernardi. Manaus, inclusive, pouco é identificada no filme, nem pelas locações e menos ainda pela linguagem, com formas de falar para lá de paulistanas em vários momentos – vamos combinar que o “carioquês” passaria bem mais perto que os “minas” e “vocês” dos diálogos. Esses detalhes são ofuscados pela atuação de Jackson Antunes como pai de Aldo.  Fácil ver o caboclo amazônico, com raízes nordestinas, representado por ele. O ator dosou bem o pai vilão, agressivo com a mãe; sofrido pelas dificuldades financeiras e o alcoolismo, mas que em muitos momentos tentava ser um pai  apoiador e amoroso.


Jackson Antunes como pai de Aldo e Paloma Duarte, a primeira namorada

José Loreto foi um show à parte. Como ele mesmo disse em entrevista ao BEM VIVER, o desafio já começou pela caracterização do personagem. Aldo é uns 50 centímetros mais baixo e é, pelo menos, 20 quilos mais magro que o ator. Mesmo assim Loreto conseguiu imprimir um jeito de falar, ora marrento, ora envergonhado, além do olhar de “Juninho”, como aquele garoto era chamado lá no Alvorada. Até mesmo características da linguagem corporal durante as lutas  foi possível ver nas cenas de Loreto. O aspecto psicológico, que mostra Aldo lutando contra ele mesmo, envolve o espectador com a atuação de Rômulo Neto -  cheia de sacarmos e agressividade.    


Aldo x Aldo: José Loreto e Rômulo Neto interpretam o duelo

A maior parte da trama se passa já no Rio de Janeiro, quando ele se muda só com o dinheiro da passagem e o apoio de amigos. Lá ele passa um bom “perrengue”, de lavar chão de academia a ser atendente de lanchonete.  É nessa fase que entra em cena Cléo Pires como a atual esposa Viviane – pense numa mulher marrenta, mas parceira para todas as horas. As cenas são quase de um filme romântico, porém apimentadas com boas brigas dos casais. Que casal nunca, né?

As sequências de lutas são muito bem dirigidas e mostra o cinema nacional ascendente na cinematografia de ação. O ator Milhem Cortaz, figurinha carimbada em filmes do gênero, correspondeu a “responsa” de interpretar o treinador Dedé Pederneiras, visivelmente um mestre para a carreira e para  as lições de vida que passou ao lutador amazonense. Momentos emocionantes como a primeira derrota e a morte do pai contam com diálogos tocantes entre Milhem e Loreto.


Milhem Cortaz intepreta o treinador Dedé

As vitórias e derrotas, seja na vida pessoal ou profissional, são bem alternadas ao longo do filme. Poyarte consegue despertar emoções variadas em quase duas horas de trama, com pitadas de humor, muito romance e boas lutas. Sim, é um enredo já batido, do menino pobre em busca de um sonho. Mas as nuances dessa história, e a proximidade com o que vemos da realidade da vida do atleta, dá um diferencial. O longa ainda fecha com chave de ouro com imagens da infância de Aldo, desde o acidente que levou a cicatriz, até fotos de arquivo familiar. O sorriso do garoto de família humilde, que mudou a sua própria história mesmo diante de inúmeras circunstâncias contra, ainda é fácil de ver hoje nesse grande lutador do Amazonas que já marcou seu nome na história MUNDO afora. É  sim, de emocionar qualquer um. 

 

*Jornalista há 10 anos na área de cultura, repórter do Bem Viver e blogueira do Lidica (@lidialidica) 


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