Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Lições – A infância continua sendo matéria-prima de muitas boas histórias


23/07/2016 às 09:05

Luiz Guilherme Melo*

Histórias em quadrinhos podem nos proporcionar boas reflexões tanto quanto a leitura de um bom romance. Soa óbvio a alguns, eu sei, mas ainda há quem subestime o poder narrativo de uma HQ. A esses eu recomendaria a leitura do romance gráfico Turma da Mônica – Lições, oitavo volume do selo Graphic MSP, em que a dupla Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi mais uma vez busca, dentro do universo da Turma da Mônica, referências para criar uma deliciosa história atemporal e cativante.

Assim como em Turma da Mônica – Laços, lançado em 2013, nessa continuação a dupla consegue emocionar dos leitores mais novatos até a velha guarda.

Lições mantém aquele clima nostálgico da história anterior, tendo como centro narrativo a infância e os seus corriqueiros obstáculos (aquelas mesmas “dificuldades” que nós, depois de adultos, lamentamos não ter mais).

Desta vez, Vitor e Lu deixaram de lado o ritmo aventureiro à Sessão da Tarde, que permeava “Laços”, e abraçaram um enredo mais melancólico, mas não menos “cinematográfico”, que tem como cerne a separação e como isso pode fortalecer ou reafirmar as relações humanas. Sem contar as diversas referências pop, um bom exercício aos leitores mais “rodados” da obra de Mauricio de Souza – uma delas, talvez a mais óbvia, digamos assim, os Cafaggi relembram a famosa versão shakespeariana de Mônica e Cebolinha no mundo de Romeu e Julieta, peça teatral lançada no Brasil em 1978 e que rendeu disco, animação e gibi.

A mola da história é quando o querido quarteto de amigos (Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali) se esquece de fazer o dever de casa (quem nunca?) e bola um “plano infalível” para fugir da escola, o que dá muito errado; e logo vêm as consequências da travessura: Mônica é transferida para outra escola e fica sem contato com a turma durante uma semana; Cebolinha tem sessões de fonoaudiologia; Magali é inscrita num curso de etiqueta e Cascão (pasmem) começa a frequentar aulas de natação.

A partir daí somos levados a nos envolver com o “jogo de cintura” de cada personagem ante o castigo – situações que soam familiares a quem um dia teve de encarar um castigo quando criança.

A sinestesia, marca registrada dos irmãos Cafaggi, continua presente de uma maneira funcional dentro da trama – note como as lembranças das personagens são trabalhadas, não só as imediatas, mas também os flashbacks “fofinhos” que nos levam à primeira infância dos protagonistas – e o roteiro nos oferece muitas sutilezas em torno da amizade das personagens, que podemos perceber, por exemplo, no silêncio de uma simples assinatura no gesso de um braço quebrado ou em uma singela (eu diria ousada) cena em que um dos personagens encara o seu maior medo. E tantas e tantas outras que me fizeram embarcar e desembarcar da leitura em apenas uma tarde.

A história se desenrola sem cair em soluções fáceis. O que é um acerto, pois, como na vida real, as consequências dos nossos atos ficam. Resta-nos apenas decidir o que fazer com elas. O mais vantajoso certamente seria tirar uma lição.

Ou seja, crescer é uma lição de vida.

 

* Revisor do jornal A CRÍTICA, é jornalista e licenciado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Escreve no blog Bloco do Luiz


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