Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

#MinasTrend: Criador da marca NotEqual, Fabio Costa derruba os muros do gênero

Estilista fez a sua estreia na passarela do Minas Trend, um dos principais eventos fashion do País


23/04/2018 às 12:59

Rosiel Mendonça*
rosiel@acritica.com

BELO HORIZONTE (MG) - Criada pelo estilista mineiro Fabio Costa com a ideia de romper as barreiras de gênero na moda, a marca NotEqual foi uma das estreantes na passarela da 22ª edição do Minas Trend, realizado em Belo Horizonte entre os dias 16 e 20 de abril. A reportagem foi até BH para acompanhar o evento, que já é um dos mais importantes do calendário fashion brasileiro.

Formado em Design de Moda pela Fumec, Fabio morou em Nova York e foi vice-campeão da décima temporada do reality show “Project Runway”, apresentado por Heidi Klum na TV norte-americana. Logo em seguida, ele lançou a NotEqual, que se destaca pela produção de roupas sem gênero (“agender”, em inglês), que se adaptam a ambos os sexos. Desenvolvidas artesanalmente, as peças de visual moderno e sofisticado desafiam os conceitos tradicionais de confecção ao propor uma roupa individualizada, que se concretiza no momento do encontro do tecido com a pele.

De volta a Belo Horizonte e com ateliê montado no bairro Palmares, o estilista agora dá os primeiros passos de um novo momento da carreira. Na entrevista abaixo, Fabio Costa fala sobre desafios, inspirações e também sobre a nova coleção Primavera-Verão 2019, apresentada durante a semana de moda mineira.

Essa foi a sua estreia no Minas Trend. O que esse momento representou pra você?

Foi algo muito importante para mim. Sou mineiro de Belo Horizonte, mas fiquei os últimos 12 anos fora, morando e desenvolvendo trabalhos em Nova York, onde estabeleci a marca em 2013. Estou voltando com uma bagagem, mas também estou reaprendendo como readequar o produto e estabelecer uma cadeia de produção aqui no Brasil, afinal, a proposta é fazer um produto brasileiro com uma cara global. Então, o convite do Minas Trend foi muito especial e veio na hora certa.

Como define sua nova coleção apresentada durante o evento? Que referências ela traz?

O tema central da coleção é a desconstrução estética, da estrutura da roupa, da estrutura da imagem e do tradicionalismo não só do consumo, mas de como a peça é vendida. Por mais que a gente exija essa nomenclatura para facilitar a compreensão, acho que precisamos começar a sair um pouco desse sistema porque roupa não é masculina ou feminina, ela é roupa, roupa para corpos. Minhas peças são desestruturadas exatamente para isso, para que o corpo dê forma à roupa, e não o contrário. Essa também foi a linha de raciocínio da nova coleção, em que as peças às vezes são amplas e com faixas de amarração para propor essa automodelagem ou autoajustagem. Tem também um pouco da loucura cotidiana: às vezes sofremos tanto esses impactos emocionais e isso se reflete nas roupas da coleção em retorções, pregas e emulagens orgânicas, além da estampa de mármore, que remete ao calcificado da pressão, e do muro craquelado, da desconstrução orgânica.

A NotEqual foi criada pensando numa moda sem gênero. Como acha que esse debate tem evoluído no mundo fashion no Brasil e no mundo?

A discussão de gênero na moda é muito importante porque a cadeia de consumo está mudando. A gente está conseguindo inserir produtos e fazendo eles conviverem em araras intermediárias, que não são masculinas nem femininas, e acho que isso emancipa o estilo. Essa é a proposta da marca, fazer uma roupa em que o processo de design não termina quando a peça sai da máquina. Estamos incluindo a pessoa que vai usá-la, dando formas e opções para que ela se descubra na roupa e descubra outras formas de usar a roupa. Esse é um momento em que o “agender” está tendo uma visibilidade muito grande lá fora, e isso já está refletindo no Brasil.

O que inspira a sua moda sem gênero?

O que me inspira é a ruptura com a tradição de uma forma geral, de como a roupa é concebida. Não coloco nas minhas peças costuras de ombro ou de laterais, por exemplo. Comecei a fazer essa pesquisa ergonômica de corpo, o que me permitiu desenvolver um sistema de medidas baseado na proporção áurea e, a partir disso, fiz duas réguas e um compasso, que são a base da modelagem. O intuito disso é achar as curvas intermédias entre masculino e feminino, entre frente e verso, para que isso não precise existir, nem a roupa precise indicar gênero.

Sua participação no “Project Runway” abriu muitas portas?

Costumo falar que é uma academia. Fazemos ali um curso intensivo – bota intensivo nisso – e você sai de lá formado. Você aprende do que é capaz, aprende a lidar com a pressão, a desenvolver um raciocínio rápido e a ser reativo. Foi depois que saí do “Project Runway” que eu consegui estabelecer a marca, além disso me gerou vários projetos e visibilidade para o trabalho, que é o que me ajudou a chegar onde estou hoje.

Depois de você, a estilista Layana Aguilar, de Governador Valadares, também participou do “Project Runway”. Por que os mineiros são os queridinhos do programa?

Acho que é porque somos muito genuínos. Não tem como negar que a coisa que a gente faz é feita do coração, senão a gente nem encosta! (risos)

* O jornalista viajou a convite do Minas Trend


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